terça-feira, 5 de maio de 2009

Horácio Costa


Horácio Costa vai comemorar, na Casa das Rosas, nesta sexta, 8 de maio, os 20 anos de lançamento de seu livro Satori, publicado pela editora Iluminuras em 1989.

Aproveito para lembrarmos que Costa é um dos poetas brasileiros importantes em atividade; que quando ouvimos o onipresente — & sobretudo falso — resmungar de que não há mais poetas que prestem, & etc, deveríamos lembrar dessas coisas.

A mim me espanta que poetas da minha geração não sejam lidos nem comentados — é uma aberração crítica em pleno curso — mas é particularmente incompreensível que poetas da geração dele, nascidos na década de 1950 (& até anteriores), não sejam tão lembrados & discutidos quanto seria saudável & desejável.

Enfim, martelo na veeeeeeelha tecla. Mas é inevitável: Luiz Costa Lima fala à Folha que poesia não vende, o que é uma loucura, porque venda é coisa que depende de estímulo, & poesia, no Brasil, como sabemos, é uma atividade clandestina.

Clandestina, yessir, mas permanente. O poeta é um tipo obsessivo que não se curva às evidências. Ou teríamos 500 anos & perfeito silêncio.

Quero dizer: só se pode afirmar que poesia não vende se, depois de estimular as pessoas à leitura, nada acontecer. Antes, pas possible. Sobretudo porque seria adequado perguntar: como é que alguém — nesse caso, o respeitável público — vai saber se quer ler ou não determinada coisa se sequer sabe que ela existe?

E a maior parte dos críticos não tem a mais vaga noção do que está acontecendo na poesia: é a história de sempre.

O que importa é que leremos um poema de Horácio Costa, abaixo. Ponho um de Quadragésimo, que leio numa coletânea de sua obra, Fracta, feita por Haroldo de Campos. É um dos meus prediletos.
Gaudete.


HISTÓRIA NATURAL

Detrás do taxidermista, há a palha,
detrás do rinoceronte, a savana,
detrás desta escritura só a noite,
a noite que galopa até o fronte.

Na asa da mariposa assoma a lua,
na cabeça do alfinete brilha o sol,
nestas linhas reverbera um sol negro,
o astro que ora sobe no horizonte.

O animal dissecado da sintaxe
provê o verbo, o bastidor e a legenda
duma coleção mais morta que os mortos.

No gabinete de história natural
o visitante-leitor detém-se face
a mamíferos e insetos reluzentes.

11 comentários:

Maiara Gouveia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Maiara Gouveia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
gilson figueiredo disse...

Dirceu, caríssimo, você sempre posta os poetas que muito admira: isso me deixa curioso em saber como seria seu paidema [domeneck já mostrou sua maedeuma]fico curioso em saber, - como jovem poeta que sou - quais os poetas que sujeito de tão bom gosto elegeria enquanto atalho, para os que não querem perder tempo
com os "processos" que não funcionam;

gilson figueiredo disse...

*paideuma

Dirceu Villa disse...

Maj,

respeito suas opiniões, mas penso de modo diametralmente oposto ao seu.

Mas você já sabe.

Dirceu Villa disse...

Gilson, caro mio,

não tenho um paideuma. Pound montou o dele porque tinha uma visão didática da poesia para oferecer: sua lista ensina, para o bom leitor, certas qualidades permanentes, & aponta onde a coisa foi descoberta ou exercida com maestria. Tem um aspecto muito oficinal, talvez a única crítica literária realmente estruturada dessa forma.

O paideuma, assim, não seria uma seleção daqueles que estão escrevendo agora, mas uma concepção que deriva da idéia de Kulturkreise (áreas de cultura) do antropólogo Leo Frobenius, que, aliás, foi quem definiu paideuma.

Essas áreas se expandiriam pela importância que têm, & foi daí que Pound imaginou essa possibilidade de amostragem do melhor, ao invés do meramente famoso ou representativo.

No Brasil, triunfou a idéia canônica & antológica do "típico". Não interessa o melhor. E daí, em língua portuguesa, muitos nomes dos melhores ficam de fora ou num lugar escondido do cânone.

Os irmãos Campos já chamaram a atenção para pelo menos dois casos gritantes: Sousândrade & Kilkerry. Cada um é melhor que suas gerações inteiras. Não obstante, pelo fato de que empurravam as fronteiras do qe era percebido como poesia em seus ambientes, ficaram de fora, ou de lado.

Em anos recentes outros autores chamaram atenção para poetas fundamentais & esquecidos: Nelson Ascher publicou Cocktails, reunião dos poemas de Luis Aranha, poeta moderno milhões de vezes mais importante, por exemplo, que Mário de Andrade; Flora Süssekind chamou a atenção para a obra poética (uns vinte poemas) do Sapateiro Silva, do século XVIII, & a UNICAMP disponibilizou os textos em seu site; Sebastião Uchôa Leite escreveu sobre Marcelo Gama, poeta de obra muito interessante, alguns versos muito ousados. João Adolfo Hansen escreveu os melhores textos críticos sobre Machado de Assis, Gregório de Matos, etc., que não apenas aprofundaram a leitura desses já grandes autores, como também corrigiram diversas imprecisões correntes. Essas coisas estão aos poucos obrigando a uma revisão do cânone, atrasadíssima.

Escrevi, para a Modo de Usar n.1, versão impressa, um pequeno ensaio sobre o português Dom Tomás de Noronha, que é um poeta satírico admirável, do século XVII, mas de quem boa parte da obra se encontra ainda & inexplicavelmente em manuscrito. Noronha tem um longo poema chamado "O Gosto dos Namorados" que é, a meu ver, único em português, em sua franqueza sexual não burlesca.

Um longo etc. Escrevi também sobre Soror Violante do Céu faz pouco tempo para a Modo de Usar, versão eletrônica. A idéia é que mesmo os portugueses não têm muita atenção para o próprio repertório de autores, imóvel & sem critério. Não me lembro de ninguém abordar a melhor poesia da Marquesa de Alorna como lírica homoerótica, por exemplo.

Contemporâneos: contrariando as opiniões gerais, eu acho que há muitos poetas interessantes & bons. Fiz uma brevíssima antologia para o México recentemente, limitado a doze nomes, nascidos de 1970 para cá.
Peguei nomes de orientações diversas, sobretudo porque acredito que um dos bons trabalhos que a minha geração (& mais novos) estão fazendo é superar velhas rixas, que funcionavam como trincheiras para uma batalha, aliás, ridícula, entre autores. Conheço muitos poetas interessados em obras de colegas que lhes são praticamente opostos. E isso é uma das coisas muito saudáveis acontecendo neste exato momento.

Obviamente, a crítica vai levar 20 anos para perceber isso. É a média de defasagem que se observa na crítica em relação às obras que importam.

Abrazo,

D.

gilson figueiredo disse...

danke, bom leitor...

Maiara Gouveia disse...

...

júlia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
júlia disse...

mas você não acha que, em certo sentido, reclamarmos que a crítica não faz o papel dela é a mesma coisa do outro lado de se dizer que não há poetas escrevendo poesia? ou você acha que é assim, explícita a diferença?

eu, que escrevo e tive aula com o horácio e gosto imensamente dele, acho que em ambos os feudos, com algumas exceções, nada está muito acontencendo para fora do bom-mocismo, da auto-generosidade e para cima do risco.

e não acho que fora da academia e da crítica literária e dos jornais as pessoas estejam trabalhando textualmente com mais liberdade, inventividade ou atenção. no brasil.

por que não escrever diretamente boa crítica literária à produção contemporânea e assim produzir ênfase na discussão? ou se está esperando pelo bedel da crítica literária? que ele se levante das antiguidades e nos dê atenção? oras, críticos literários têm mais conhecimento de causa? não. mas, no geral, também os poetas só têm recolocado as coisas nos lugares em que já estavam.

enfim, prazer, meu nome é júlia, um beijo, adeus.

Dirceu Villa disse...

Giulia, carissima,

a crítica está apagada de modo explicitamente diferente da poesia. Na minha modestíssima opinião.

É claro que há outros fatores concorredo para certo marasmo público da coisa — falta de público leitor, desempenho funesto das editoras em escolher, publicar & divulgar poesia, educação desastrosa nas escolas, etc. — mas a crítica literária é um deles.

Vejo muitos poetas novos fazendo coisas muito diversas & apreciáveis, mas os críticos em geral falam apenas de autores que já estão publicando no mínimo há mais de 30 anos, & que tenham recebido as devidas comendas & distinções.

I.e., gente efetivamente oficial. E mesmo entre os bem oficiais falta leitura, falta o aspecto do discernimento.

Assim, não há a necessária atividade prospectiva (mas há, como assinalei acima & alhures, críticos que fizeram & continuam fazendo um trabalho notável).

A atividade crítica me parece importante. Sobretudo de críticos com mente aberta, porque a obra sempre se desdobra, amplia & toma novos rumos incorporando a recepção.

Há alguns poetas assumindo riscos, je pense. Há poetas testando a amplitude da escrita de poesia, desafiando estereótipos recentes, repropondo as proporções entre as figuras de linguagem, pondo para dentro do poema (& não de qqer jeito, evidentemente) uma percepção que traduz a época, ou que a desafia.

Bear in mind que, de qqer forma, saímos há pouco de uma situação de imensa brutalidade, a ditadura, que vaporizou a cultura do país, esmagando mais de uma geração. Quando escrevi meu primeiro livro de poemas quis chamar a atenção para exatamente isso: MCMXCVIII pretendeu marcar, no título, uma perspectiva em relação ao infame 1968.

Não há como, num país que não lê —& que foi sobretudo ensinado a não ler — mudar tudo num piscar de olhos. Mas me parece que as coisas, agora, & por diversos motivos, andam muito melhores para a poesia do que há dez, quinze anos atrás. Há muito mais interesse agora do que quando comecei a escrever.

Motivar esse novo interesse, propor novas práticas, novos nomes, mais leituras. Recompor, por exemplo, o cânone de língua portuguesa como algo mais condizente já seria um feito (atrasado, mas necessário), porque altera todo o mecanismo da coisa. Se não conhecemos (como é a minha opinião) muito do melhor que se escreveu em língua portuguesa, a própria produção atual sofre.

Creio que a internet, por mais bizarro que pareça, se tornou o lugar onde as coisas começaram a acontecer. Quem liga para revistas de papel? Quando, por alguma mania, compro uma, ou um jornal, noto que estão há anos-luz de chegar à variedade & densidade que se encontra nos melhores sites & blogs. Aqui há um circuito efetivo de idéias & textos, ainda que limitado.

Aqui é um não-lugar, mas de liberdade, onde a qualidade distingue, & que também promove, por suas características, um debate mais vivo. Gostaria que as revistas funcionassem bem (acredito na importância da publicação em papel), mas fora uma ou outra, muito especializada, é bem inútil tentar lê-las. Chega a ser melancólico o primarismo delas: usam clichês de cultura, usam num sentido muito silvestre de espetáculo, esquecível, é tudo muito tristemente rudimentar.

Enfim: críticos literários não têm mais conhecimento de causa, mas têm um conhecimento diferente. A maior parte dos escritores, ao escrever crítica, concentra-se em algo que se parece com o que faz; digo, a maior parte, porque há autores com obra crítica de fato importante.

O crítico, por definição, teria distanciamento para ver as coisas proporcionalmente.

Grandes críticos foram fundamentais para um melhor entendimento de para onde as coisas estavam indo, & para criar consciência sobre a importância ou a complexidade de várias obras.

Ou mesmo para dizer uma solene besteira que trazia tudo para foco. Há um fator poderosamente aglutinante numa crítica estúpida.

Rui Barbosa sobre Machado de Assis mostra que até mesmo o louvor à sua obra, na época, era pobre de verdadeiro entendimento do que fazia. Nos dá perspectiva sobre a ironia machadiana, percebemos o nível de sua arte no provinciano de seu meio, a precisão de sua inteligência, nesse tipo de documento.

Buenas, já tagarelo. Scusi. Também, como você, critico a morosidade de muitos poetas (passei anos repetindo essa necessária ladainha, com variações, na minha página Officina Perniciosa, na revista virtual Germina Literatura).

Prazer também, Júlia. Mas adeus é um pouco severo demais: que seja um até logo.

Beijo,

D.