quinta-feira, 30 de abril de 2009

e.e. cummings não erra

o poeta estadunidense e. e. cummings

Isso é o que sempre me surpreende ao ler as mais de mil páginas de seus poemas meticulosos, muitas vezes mínimos: poetas excepcionais, mesmo os maiores do século XX, escrevem coisas que poderiam ter desconsiderado, como é o caso de Carlos Drummond de Andrade, Ezra Pound, Fernando Pessoa, T. S. Eliot, Giuseppe Ungaretti, Jean Cocteau, William Butler Yeats, etc.

Como Kaváfis, seus poemas são sempre certeiros, exatos; mas, diferente de Kaváfis, ele tomou para si o maior risco possível , inventando uma tipografia desafiadora & que repercute não apenas na forma dos poemas, mas no sentido. São estratagemas minúsculos, concentradíssimos.

cummings atraiu dois tipos de críticas negativas, igualmente obtusas: uma, de conservadores, dizia que seus métodos tipográficos não passavam de um maneirismo para atrair atenção com uma bizarrice; outra, que reconhecia seu engenho formal, tentava desfazer dele afirmando que, embora sua forma fosse revolucionária, o sentido era velho.

São obtusas porque não lêem forma & sentido juntos, & porque flagram um despeito, como sempre, invejoso. Inveja de uma arte que, sendo incrivelmente inovadora & única, era ao mesmo tempo veículo de desavergonhada beleza.

Mas uma nova beleza. Sua primavera não é a primavera que lemos em Guilherme IX, de Aquitânia, entre os séculos XI-XII, ou na longa tradição de louvores primaveris, que eram um gênero por si só: ela é renovada pela aproximação brusca de coisas muito distantes, pela arte do fragmento, pelas implicações formais de sentido, pela invocação que pressupõe uma oposição entre natureza & mundo maquinal, mas não finissecular: a de quem conheceu os amores tecnicistas do futurismo.

Pound, escrevendo os Cantos, não conseguiu achar o seu Paradiso, ou o encontrou algumas vezes no mesmo lugar de onde cummings tirava toda sua obra: ele pede, ao fim do poema, que vocês, gentis leitores & leitoras, ouçam o vento, & lá estará o Paradiso, sem teologia.

Mas seria equivocado pensar que cummings tem apenas pequenas epifanias de devoção natural & vitalista: suas sátiras estão entre as melhores & mais malignas do período.

Textos que deploram a vulgaridade de gente rude são muitos, como "the boys i mean are not refined", ou "pity this busy monster,manunkind"; outros esmagam hábitos de inércia mental & espiritual, como "The Cambridge ladies who live in furnished souls", ou a hilariante "Ballad of an Intellectual" (Listen,you morons great and small/to the tale of an intellectuall); ou aquele muito comovente que constrói só de um lado a conversa-fantasma de um morto de guerra com a esposa, "i'm/asking/ you dear to", etc.

cummings também tem aquela velocidade associativa, catacrética, de Maiakóvski: seus poemas geram um tecido complexo & rico de imagens.

No Brasil, Augusto de Campos enfrentou alguns dos mais difíceis poemas de cummings, & se saiu com uma obra-prima de tradução, que há dez anos expandiu no volume poem(a)s, da editora Francisco Alves (1999): teve de enviar provas para cummings aprovar, um a um, dos resultados tipográficos da edição inicial dos 10 poemas, do Ministério da Educação, em 1960.

São traduções brilhantes, numa palavra, & eu tenho a sorte de não ter mostrado a cummings minha inabilidade tipográfica em "O sweet spontaneous" nesta página.

Mas havia uma que me incomodava no livro de Campos, a de a leaf falls:loneliness (aquele fino poema que se estende numa linha solitária & miúda pela página), & que aparece destacada com um tipo holandês na impressão. Passei algum tempo fazendo a minha tradução, & a publiquei em 2005 num artigo para a minha página Officina Perniciosa, na revista digital Germina Literatura.

Aspectos icônicos importantes, como a reiteração de solidão que lemos na fragmentação das palavras nos versos (quero dizer com isso os dois "l": aquele antes dos parênteses & o de "loneliness", abaixo; o "one"), mantive-os com o "I" maiúsculo antes dos parênteses, o "so" e o "l" de "isolamento". Também o deslizar da folha que vai de "f" a "f" (um de cada lado) está lá, etc.

Abrimos com "O sweet spontaneous", que publiquei, talvez em 2002, na revista Ácaro. Buenas, voltam aqui reunidos. Gaudete.



Oh suave espontânea
terra quantas vezes
os
dedos
eeeeeeeeidólatras dos
filósofos lúbricos picam
cu
tucam-

te
, o polegar pervertido
da ciência espeta
tua

eebelezaeeee. quantas
vezes religiões não te
põem nos joelhos pontudos
espremendo e

esbofeteando-te que tu tens que gerar
deuses
eeeee(mas
fiel

ao incomparável
leito de morte teu
rítmico
amante
eeeeeerespondeste

lhes apenas com

eeeeeeeeeeeea primavera)



I(a

fo
lh
as

ef

oi)
so
l

amento

5 comentários:

Maiara Gouveia disse...

delícia, monsieur

Dirceu Villa disse...

Grazie, Maj.

Priscila Manhães disse...

Um dos textos mais bonitos, sobre e.e.cummings, que eu já li. Fiquei surpresa com a comparação a Kaváfis. O que percebi é que os dois utilizam materiais por natureza estranhos a qualquer poesia. Materiais fundamentalmente não-poéticos. E, no entanto, o poema se faz.

Dirceu Villa disse...

Muito obrigado, Priscilla. Très sympathique da sua parte.

Kaváfis é um poeta extraordinário porque tem aquela voz exata & elegante, sem ser empostada. Tem virtudes muito antigas, sem jamais ser antiquado. É um grego, de fato, por aquela linguagem tão límpida.

cummings é exato, mas exato num outro extremo, naquilo que inventou muitíssimo esdrúxulo & irrepetível.

Aliás, agora que volto a pensar nisso, me lembro das leituras gravadas dele, que podemos ouvir na ubuweb: sempre penso que é como se ele imaginasse a própria poesia como coisa grega. O modo como ele entoa os versos sempre me lembra de leituras de grego. Como se a atitude mental dele fosse aquela.

Veja só que coisa.

Adriano Scatolin disse...

Belíssimo texto... Quanto àquela parte que critica os críticos por separarem forma e sentido, já Cícero dizia: "Mas, como já estamos acabrunhados pelas
opiniões não apenas do vulgo, mas também de homens pouco instruídos, que examinam em pedaços
e partes o que não conseguem abarcar em sua totalidade, e que separam as palavras dos pensamentos
como quem separa o corpo da alma, dos quais nenhum pode acontecer sem sua destruição, não
empreenderei, em meu discurso, mais do que me é imposto. Apenas apontarei brevemente que nem é
possível encontrar o ornato das palavras sem que se tenham antes produzido e expresso os
pensamentos, nem existe qualquer pensamento brilhante sem a luz das palavras." Palavra da Salvação.