para Cecilia Casini
Pedra e água, o Arno ao sol oscila gentilmente,
nesta tarde de azul límpido, toscano, e aura suave.
Na Ponte Vecchio me debruço em pedra antiga
e vejo uma regata que desliza e brilha à luz.
A tarde cai vermelha sobre o ocre e os pastéis
que colorem esta cidade sólida e tão nítida,
e San Miniato ainda esplende: ouro em mármore.
Florença, julho, 2008

O capricórnio, adornando o chão do Palazzo Vecchio.
No chão, as pedras brancas e vermelhas
com o capricórnio dos Medici (Cosimo il granducca).
A caligrafia humanística de Boccaccio
— que antecipa a de Poggio, certamente.
Sua vívida antologia manuscrita de poesia latina,
na Laurenziana, aberta numa sátira de Pérsio,
notas marginais em forma de círculos, cântaros, folhas de árvore.
— antes o pergaminho moído com poema de Safo;
ou o capítulo De luxuria et libidine, de Valerio Massimo,
luxuria severitas ipsa corrumpi poterat (ainda bem),
iluminado com grávidas de ventre transparente à curiosidade alheia —,
A sala de estudo com tabuletas que pendem,
registros de obras de filósofos, poetas, teólogos.
O tampo das mesas inclinado, 45 graus, para vossos olhos
comodamente deslizarem pela leitura dos fólios.
Florença, julho, 2008

I BARBONI SONO STATI QUI
Descendo as escadas em frente ao Ospedale,
mendigos banham seus cachorros na fonte cuspida por um estranho tritão;
il barbone matto berra uscite! uscite! aos turistas da Santissima Annunziata.
Minha palma esquerda aberta, migalhas de pão:
um mínimo pássaro sobe em meus dedos
e, sem medo, começa a comer.
Florença, julho, 2008
Gôndolas, Veneza, 2008
PERITI IN TAL ARTE DE LA PICTURA: GIUGNO, 1513
Biblioteca Marciana, diante do busto
com o rosto extático de Petrarca, abre-se o livro
de contratos muito velhos da Comune di Venezia:
Tiziano pede, ao Conselho dos Dez,
que pague a Zuan Bellin ao menos
o material que foi usado, duas dezenas de ducados.
Seria súplica não fosse
a bênção de uma arte de dizer que vem à sua carta dignamente
dotar o tempo que se vai de um outro tempo melhorado,
que se empedra:
“ não da cupidez de qualquer ganho,
mas para alcançar a justa fama”.
Veneza, agosto, 2008

A mítica livraria parisiense, com pessoas fuçando para ver se acham aquele livro.
THE END HAS NO END
Beleza, palavra fora de moda,
desolada na boneca imóvel de Mondino,
mas mesmo assim falha, faltosa,
mera mímica de arte ancestral
e esquecida.
Shakespeare & Co. em Paris,
o fantasma da séria Sylvia Beach se chateia,
sentado num banco cheirando a urina,
fora do antro de pulgas, bestsellers,
e garotos candidatos a Rimbaud
enforcados na neurótica gravata à la Strokes.
Paris, julho, 2008
Com um agradecimento à minha querida amiga Miriam Priscilla de Carvalho (& ao impecável Daniel, por Montmartre & o piquenique)
2 comentários:
Qué lindos poemas. Me gustaron mucho !!
obrigado
Un abrazo desde Buenos Aires
Gracias, Alejandro!
Abrazo,
D.
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