
Há trabalhos excelentes em arte, que devemos notar até mesmo pela simples justiça com os fatos: falo, neste caso, do lançamento quádruplo de Fábio Aristimunho, que organizou & traduziu antologias de poesia espanhola, catalã, galega & basca, "das origens à guerra civil".
O que não apenas é muito tempo de poesia em 4 línguas que convivem no mesmo país, coberto em 2 anos de dedicação praticamente exclusiva do tradutor, como também surpreendente por suas hábeis soluções formais para as variadas técnicas empregadas ao longo de séculos.
Um trabalho de muitos méritos, & que a eles acrescenta, em muitos poemas, o ineditismo em português. O lançamento aconteceu há uma semana, na Casa das Rosas, & Aristimunho me deu o prazer de ler dois poemas da Catalunha na ocasião.
Um deles ponho aqui de aperitivo à leitora & ao leitor casuais deste blog, que agora sabem desse precioso lançamento. Joan Maragall (1860-1911):
A vaca cega
Dando de cara num e noutro toco,
seguindo rotineira em busca d’água,
lá vem tão solitária a vaca. É cega.
Com boa pontaria e uma pedrada,
o moleque vazou-lhe um olho, e ao outro
cobriu uma ferida: a vaca é cega.
Da fonte vem beber, como antes vinha,
mas não com a firmeza de outros tempos
nem com as companheiras: vem sozinha.
Suas colegas, por declives, morros,
no silêncio do prado e na ribeira,
tilintam a sineta, enquanto pastam
a relva fresca ao léu... Ela cairia.
Bate o nariz no afiado bebedouro
e recua, afrontada; mas retorna,
baixa a cabeça n’água e bebe, calma.
Bebe pouco, sem sede. Depois ergue
ao céu, enorme, sua córnea testa
num grande gesto trágico; então pisca
sobre as meninas mortas, e se volta,
órfã de luz embaixo do sol que arde,
palmilhando um caminho inesquecível,
brandindo lânguida uma cauda longa.
Dando de cara num e noutro toco,
seguindo rotineira em busca d’água,
lá vem tão solitária a vaca. É cega.
Com boa pontaria e uma pedrada,
o moleque vazou-lhe um olho, e ao outro
cobriu uma ferida: a vaca é cega.
Da fonte vem beber, como antes vinha,
mas não com a firmeza de outros tempos
nem com as companheiras: vem sozinha.
Suas colegas, por declives, morros,
no silêncio do prado e na ribeira,
tilintam a sineta, enquanto pastam
a relva fresca ao léu... Ela cairia.
Bate o nariz no afiado bebedouro
e recua, afrontada; mas retorna,
baixa a cabeça n’água e bebe, calma.
Bebe pouco, sem sede. Depois ergue
ao céu, enorme, sua córnea testa
num grande gesto trágico; então pisca
sobre as meninas mortas, e se volta,
órfã de luz embaixo do sol que arde,
palmilhando um caminho inesquecível,
brandindo lânguida uma cauda longa.
Mais informações, fotos do lançamento et ainsi de suite, encontram-se nos blogs Medianeiro, do próprio Aristimunho, & no Contrabandistas de peluche, de Ana Rüsche, ao lado, na simpática coluna de links interessantes "Let us go and make our visit".
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