domingo, 31 de maio de 2009

Amor, agridoce: um breve gabinete de curiosidades

E. J. Bellocq, sem título

(Este texto foi redigido no espírito nômade de Kunst und Wunderkammer)

Susan Sontag escreve, em um texto sobre E. J. Bellocq (1873-1949) — o hoje célebre fotógrafo então secreto das prostitutas de New Orleans — que considera painful (doloroso) olhar para as 11 fotografias em que o rosto das mulheres foi riscado, talvez pelo próprio autor; e que não vê nada de romântico na prostituição — como muitos homens vêem, afirma.

Devemos lembrar que Bellocq também mascara com gosto algumas de suas prostitutas, o que é um modo fantasioso de tirar o rosto a, emprestando-lhes o mistério dúbio (entre atração & repulsa) de um corpo sem identidade.

Mas, ela diz, as fotos são "inesquecíveis": é evidente que sim. Se os corpos docemente eróticos trazem esse amargo do apagamento do rosto, é possível também pensar, por outro lado, na própria condição das modelos, como se disse antes, & dos lugares ordinários em que muitas das fotos foram tiradas.

Há o fascínio de base na idéia de proibição, que exibe por um lado o belo & prazeroso, & por outro, a experiência do perigo, ou do limite.

O erotismo não apresenta uma versão pacífica do mundo também porque a intensidade de sua experiência marca, dessa forma, um limite na vida & no prazer, & assim funciona como um memento mori, uma lembrança da finitude, & não é por acaso que os franceses chamam ao orgasmo petite morte, uma “pequena morte”.

É um ápice de experiência, um máximo de vida, que aponta para o seu contrário, já que, por definição, os opostos se espelham &, do espelhamento, a identidade.

Diferente de um conto de fadas, onde a história é suspensa no judicioso casamento idealizado, a sexualidade tem essa força imaginativa & rebelde justamente porque não se rende à contemporização social. Sente-se que é algo à parte, que deve ser controlado por pertencer, sobretudo, ao instinto.


Agostino Carracci, Baco e Ariadne

Mas é precisamente nas artes, que representam não apenas o socialmente aceito, mas o que potencialmente ressoa, que encontramos essa coisa inquietante & magnética, livre de condicionamentos exteriores ao fato em si.

E assim é fácil encontrar, lá, as vulnera amorum, ou as "feridas de amores” (em que devemos sempre perceber a duplicidade da idéia de "ferir", que é empregada também com conotação sexual). Alguns as recebem de bom grado; outros, se lamentam. O amor é doce em seus encontros & fere por seus desencontros.

Daí, em um poema de Ausônio, Cupido Cruciatur ("O Cupido Crucificado"), lemos que os amantes míticos, injuriados com o pequeno filho de Vênus & as ações de seu arco com flechas — flechas que conduzem a tanto prazer infeliz — pegam-no, amarram-no numa árvore, & passam a castigá-lo.

Chega sua mãe, mas não para salvar sua delicada pele: lembrando de que ele é culpado de seu adultério com Marte, também ela o pune. Como? batendo-lhe com um relho feito de roseira, que tem a bela & atraente flor perfumada, mas cujos ramos são espinhosos: como, suspeitamos a essa altura, seja também o amor (& assim sua punição é contrapasso).

Há no MASP uma gravura de Agostino Carracci, “Vênus punindo Cupido”, na qual vemos o moleque, vendado & seguro por outro, levando uma surra de Vênus, que ergue o relho no alto.



Agostino Carracci, Vênus punindo Cupido (1590-95)

Carracci é conhecido por suas gravuras eróticas, & aqui não passa despercebido o potencial de fantasia do episódio, diferente do aspecto moral que poderíamos ver na gravura de Albrecht Dürer, em que Cupido, metendo a mão no mel, é picado pelas abelhas & talvez então dissesse, como Safo disse aliterativamente em grego: μήτ᾽ ἔμοι μέλι μήτε μέλισσα, “a mim nem mel nem abelha”.


Albrecht Dürer, Vênus e Cupido, o ladrão de mel (1514)

O poema de Ausônio nos propõe o que Marsilio Ficino atribuiria, na Florença do século XV, a uma tradição órfica, que terá lido também em Safo: o amor é glukúpikron, ou "agridoce", que platonicamente mata aquele que ama, uma vez que quem ama não vive mais em si, vive em outro.

E isso também foi, antes de Ficino, Petrarca: Guerra è il mio stato d’ira e di duol piena/E sol di lei pensando ho qualche pace.//Così sol d’una chiara fonte viva/ Move ‘l dolce l’amaro ond’ io mi pasco.

Se aceitamos o engenho de Edgar Wind ao ler o Hypnerotomachia Poliphili (1499), de Francesco Colonna, entendemos que as escolhas formais dentro da obra também figuram o dolce/amaro. O livro foi escrito como um código alegórico: místico, artístico & filosófico do que se chamava religio amoris, ou religio Veneris, a religião do amor, a religião de Vênus.

O personagem, Poliphilo, passa por diversas experiências amorosas, que vão da contemplação de uma arquitetura projetada com a geometria divina até o contato físico com ninfas que alegorizam diversos estágios dos mistérios.

Wind argumenta que a escolha da língua em que Colonna escreveu, uma mistura da estutura italiana com léxico do latim, configura também, por si, a aspereza na leitura daquela imensa doçura.

De modo que, tardiamente, no século XVIII, poderíamos ouvir o mesmo conceito no contraste entre o tema grave do Notturno per i morti & sua execução doce & ligeira, na música dúctil & elegante de Nicola Porpora.

Gravura do Hypnerotomachia Poliphili, de Francesco Colonna (1499), apresentando Poliphilo curvando-se à rainha Eleuterylida (livre-arbítrio) diante de suas ninfas.


Nota-se que o bem colocado adjetivo painful, que Sontag deu por outros motivos às fotos agridoces de Bellocq, estabelece uma antiga linhagem erótica de variados sentidos sutis que se hipertrofiou, mais tarde, no sadomasoquismo.

Mas, antes disso, a idéia dos libertines do século XVIII seria a de um hedonismo erótico que pouco conhece o desprazer, porque desconhece implicações morais do cristianismo & desconhece travas sociais que resultam em psicanálise.



O traço fino & requintado do Barão von Bayros em suas ilustrações pornográficas de imaginação inesgotável, que emulam, no começo do século XX, as delicadezas pornográficas dos libertinos do século XVIII.

As proezas de jogo, pornográficas & mesmo intelectuais de Giacomo Casanova são as de um bon vivant aventureiro, que não acredita na melancolia. E isso desde a sua proposição:

Cultiver les plaisirs de mes sens fut dans toute ma vie ma principale affaire; je n'en ai jamais eu de plus importante. Me sentant né pour le sexe différent du mien, je l'ai toujours aimé, et je m'en suis fait aimer tant que j'ai pu. J'ai aussi aimé la bonne table avec transport, e passionnément tous les objects faits pour exciter la curiosité.

Sem culpa ou qualquer sentimento de pisar em território duvidoso, seja o sexo, seja a "boa mesa", ou os objetos feitos para excitar a curiosidade (a definição do que um mau humor moral chama "frívolo").

E lemos esse mesmo esporte amoroso na recusa sedutora & falsa da longa sedução de boudoir do soneto glosado de Dom Tomás de Noronha, “Do Gosto dos Namorados” (estrofes V-VII):

V

Um chegar para a cama recatada,
fazendo mil meneios de escapar-se,
um pedir que a luz seja apagada,
um dizer que aos pés quer acostar-se,
um tirar o mantéu quase enojada,
um vagaroso e tardo descalçar-se,
um culpar de apetite tão ousado,
um ai que nos ouviram! que é pecado!


VI

Um ferrar e dizer senhor, deixai-me!
deixai-me, não me atrevo, i-vos embora!
não posso fazer tal, antes matai-me!
outro dia vireis, não posso agora!
fazei-me este favor, e contentai-me,
outra cousa farei por vós outra hora!
(e um dar com ela logo sobre a cama)
um ai que minha Mãe nos ouve, e chama!


VII

Um dizer senhor, mal me tratais!
um suspirar contínuo e afligido,
um retirai-vos lá, que me matais,
deixai-me erguer, senhor, que sois sentido!
um valha-me o Senhor! que rijo estais!
já tenho o corpo como sal moído,
um ai de mim, que soa muito a cama!
um ai de mim, que perco a honra e fama!

****

Um anátema moral, antigo, se opõe a essa tradição do prazer exercido como arte desde a Ars Amatoria de Ovídio (ou mesmo antes), & foi cristalizado na Idade Média na figura da Frau Welt, a “Senhora Mundo”.

As imagens da Frau Welt (ou a Vanitas latina) mostram uma mulher que, de frente, é jovem & desejável, mas, às costas, leva todo o tipo de horrores & imundícies, comida de vermes, propondo que o reverso do prazer mundano é a morte.

(O que encontramos explorado cinicamente por Rimbaud, na “Vénus Anadyomène”).

A Frau Welt

Os livros de Sacher-Masoch & do Marquês de Sade hipertrofiam a idéia neoplatônica de glukúpikron. Neles, o sofrimento desempenha um papel mais óbvio, explícito, ao invés de ser uma sutileza ambígua, & desaparece a interpretação metafísica da sexualidade, restando a mecânica do ato em si para operar essa natureza agridoce percebida na sexualidade, agora cruel.

É também a exploração daqueles limites da sexualidade, que buscam o seu avesso.

O castigo deve parecer prazer, & vice versa, como vemos naquele polêmico quadro pintado pelo brilhante Balthus, “La leçon de guitarre”, que funciona mais dentro de uma hipótese de fantasia do que propriamente sadomasoquismo. É quase alegórica a superposição de sentido entre imagem & título.

Balthus, La leçon de guitarre (1934)


Mas é, evidentemente, a recente angústia já psicanalítica da sexualidade, praticada como doce provocação. O fundamental, me parece, é perceber nas representações que a variedade das idéias reconduz a um mesmo princípio.

E daí temos, por fim, a fotografia recente de Joel-Peter Witkin, que faz referência direta à de Bellocq numa chave de perversidade, ou de inversão ou confusão explícita de um acordo social entre os lugares do prazer, do horror, da morte, da própria sexualidade, freqüentemente representada em corpos femininos com pênis (como a Vênus transsexual, a partir de Botticelli), homens com seios, etc.

Witkin parafraseia a fotografia do século XIX, mas também a parodia, encontrando nela as “peculiaridades a se olhar com lupa”, como escreveu Rimbaud na “Vénus Anadyomène”. Witkin é como o dramaturgo John Webster, segundo o verso de Eliot: much possessed by death. E pratica um contraste/combinação entre beleza & deformidade, misturando-as sem propor-lhes hierarquia alguma, moral ou estética.

Joel-Peter Witkin, Poussin in Hell (1999)

É amor já dentro do seu oposto: o que antes nada mais era que um instante singular de contato, agora torna-se identidade pela força moderna da aproximação do distante.

Mas outros, como Ellen von Unwerth, vêem o amor também como um “segredo deleitoso” à la Milo Manara.


.Silêncio.




Ellen von Unwerth, sem título

5 comentários:

Priscila Manhães disse...

Silêncio. Não há muito o que comentar, apenas agradecer o delicioso texto, as belezas que oferece aqui.

*mesura e brinde*

Maiara Gouveia disse...

êxtase

gilson figueiredo disse...

lascivo!!
hahahahaha

Elenilson Nascimento disse...

SELEÇÃO DE POETAS PARA A COLEÇÃO LITERATURA CLANDESTINA – 2009
Estamos selecionado um novo grupo de autores para o lançamento de uma trilogia com poemas, contos e crônicas. E o primeiro volume – com poemas – já está sendo organizado. Vamos unir forças e através da ARTE mostrar que o nosso país ainda tem solução (*tem alguém aí que ainda acredita?), pois nós não fazemos ARTE para adestrar macacos! A LITERATURA precisa de um sistema mais organizado, precisamos de Políticas Públicas que prezem pela formação de leitores e ter uma visão mais profissional, porque fazer um livro não é um processo banal. Então, erguei-vos, caros poetas!

Para mais informações CLIQUE AQUI:
http://literaturaclandestina.blogspot.com/2009/06/colecao-literatura-clandestina-2009.html



Vc em que participar rapaz!!!!

Dirceu Villa disse...

Muito obrigado pela gentil oferta, Elenilson,
mas, como o Groucho Marx, não entraria para um clube que me aceitasse como sócio.

Embora pareça, não tenho ímpetos messiânicos. Acho que a poesia, como toda arte, é um domínio em que a quantidade não importa. Bons poetas são sempre poucos.

E nosso país não tem solução. Não é um pessimismo. Solução é uma coisa final, um modo de resolver. Não vamos resolver nada. Resolvem aqueles que têm ou almejam ter poder, & poder é corrupção, não é mesmo?

Novamente, gratíssimo pela oferta lisonjeira, fica aqui um abraço.

D.