sexta-feira, 11 de maio de 2007

Preciza-se de cozinheiro com prática

Que ele, de qualquer forma, faça aqueles ovos estalados,
sunny-side up, como os dois olhos de Hélios boiando no óleo,
nas ruas do centro velho fedendo a urina.
Não são portas de castelo aquelas paredes
com rochas enormes, espessas, onde num cubículo
estão os caras trabalhando em algo gorduroso;
ou um grupo de senhoras magras e suadas
com o cabelo preso e óculos, cigarro na boca,
costurando sentadas em filas nas máquinas Singer.
É duro fazer aquilo, quer dizer,
elas parecem absortas num contorno preciso.
E a nuvem cinzenta que paira
como em mesas ensebadas de baralho,
é claro, não ajuda.
Que o cozinheiro saiba torturar lingüiças na chapa
como os diabinhos fazem com as almas perdidas
em qualquer Juízo Final de painéis medievais.
Sabe sim. Com olhos sorrindo no rosto pespegado
de gotículas de suor, ele vira e diz:
Tá um inferno aqui, chefia.

5 comentários:

Anônimo disse...

Olá, gostei muito do poema. Repleto de imagens densas... fechamentos... circularidades... não sei bem como dizer mas a exploração da sonoridade sugere esse movimento circular. A segunda parte do segundo verso é ótima. Ótimo também os caras "trabalhando em algo gorduroso" ou o rosto "pespegado de gotículas". A densidade não fica apenas nas imagens geradas pela palavra grafada mas também, e principalmente, pela palavra dita: Som.
Fiquei interessado em conhecer outros.
ass:conrado

ana rüsche disse...

denso, denso, como o óleo na frigideira, como a sentença final, amarradíssimo.

forma é muito nessa vida - outros elogios por hora são dispensáveis.

Maiara Gouveia disse...

Eca!!!

O Diabo que não passa nem perto, comprou a nova coleção Prada e quer distância desse inferninho do centro. Mas aprovou o novo antro, onde qualquer cristão paga seus pecados.

Deus nos livre e guarde. Imagino inclusive o cheiro nauseabundo de gordura escorrendo por todos os lados, as paredes grudentas, os cabelos oleosos. Céus!

Pensei bem em mandar uns porcos para virar lingüiça torturada.

E nem o fogo faltou para dar o ar da desgraça: essa nuvem cinzenta ensebada e o suor do novo funcionário contratado pingando na chapa. Eca, eca, mil vezes eca! Realmente, signorino, você esteve no centro velho.
Um beijo,
Maj

Dirceu Villa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Dirceu Villa disse...

Grazie a todos, grazie. Aprendendo ainda a usar o blog, sabem como é, vou aos poucos.

Conrado, caríssimo: outros poemas deste Dirceu Villa são acháveis na seguinte página

http://www.germinaliteratura.com.br
/dirceu_villa_agosto06.htm

Gaudete,

D.