terça-feira, 8 de maio de 2007

O dia em que o cardeal Ratzinger acordou com dois chifres na cabeça


Para os fiéis cristãos, o Diabo é uma presença misteriosa mas real, pessoal e não simbólica.
Cardeal Ratzinger, para Der Spiegel, 22 de dezembro de 1986


Ainda na cama, Joseph começava a sentir um incômodo muito grande na fronte e levou, portanto, a mão à testa, lenta e delicadamente, como fazemos na suposição desagradável de que uma dor de cabeça nos acompanhará o dia todo. O primeiro toque fez com que arregalasse os olhos ainda fechados; passava a ponta dos dedos pelas formações, ao que parecia, ósseas, que se projetavam dali. Incrédulo, afastou o lençol e as cobertas e se ergueu de um jato, esquecendo mesmo de calçar as belas chinelas vermelhas, indo incontinenti em direção ao banheiro.

Acendeu a luz e, diante do espelho, percebeu horrorizado dois chifres recurvos como os de um bode montanhês saindo dos dois lados frontais de seu crânio, lá onde a linha do couro cabeludo principia. Un-unmöglich, escapou balbuciante de seus lábios trêmulos. Afastou o rosto do espelho e, esfregando as mãos, com os olhos postos no chão, caminhava quase em círculos pelo banheiro, sentindo um calor infernal e suando. Reunindo suas forças morais, olhou-se novamente e o reflexo persistia em mostrar o que já desconfiava que estava ali. Eram grandes, era mesmo difícil se mover sem esbarrar em algo, sobretudo com toda aquela perplexidade.

Foi quando pensou que, talvez, (e isso é muito provável) estivesse se aproximando a morte, e essa era uma das imagens fantásticas geradas pelo cérebro no declínio de suas funções, ou pelas forças contrastantes em conflito por sua preciosa alma: pericula inferni inuenerunt me, lembrava. Ocorreu-lhe orar, sabia que era possível que estivesse sendo tentado, ou que o demônio quisesse confundi-lo, como aconteceu também ao Cristo, “adora-me e tudo isto será teu”. Era uma prova de fé, e cabia-lhe resistir a ela com a dignidade de quem um dia poderá vir a ser o Pontífice.

Tão rápido como cruzou sua mente, o pensamento fez com que abrisse os olhos, que estavam fechados pelo fervor da prece: Pontífice. Isso já lhe havia ocorrido, homo sum, mas porque sabia poder servir humildemente na vinha do Senhor caso, na sucessão, seu nome se firmasse entre os colegas, que certamente terão observado seu constante trabalho e empenho, a seriedade e o rigor com que mantinha os estatutos da fé, apesar das pressões mundanas do século. Wojtila até que é um bom homem, mas falta-lhe claramente o decoro da posição, e várias vezes cede ao apelo da popularidade.

Assombrou-se um pouco com a seqüência repentina que seu raciocínio desenvolveu, conquanto não estivesse mentindo, e disso estava certo. Mas que estranho impulso era esse, agora? Quem era responsável por tal mobile? Sempre tivera certa dificuldade em separar seu justo fervor do que poderia ser chamado, com alguma má-vontade, ambição. Mas pode-se chamar ambição ao reconhecimento, em si mesmo, de se ter sido talhado para determinada missão, para servir? O báculo distingüe aquele que leva o rebanho, e isso de fato aponta uma posição de poder, mas seria um poder de mando, do amealhar, ou um poder de desvelo? Certamente o último, e quanto a esse aspecto não há dúvida.

Esquecera dos chifres. Os chifres não haviam desaparecido. Sentou-se na privada, desolado. A memória trouxe de volta as recordações de uma vida repleta de tribulações, que, no entanto, não tinha sido buscada: a contemplação, a solidão e o estudo compunham um caráter sólido e discreto, como sempre soubera, mas a Segunda Guerra havia embaralhado todas as cartas das vidas que se podiam escolher. Lembra da deserção do exército alemão como um garoto que lembra do único troféu que o livraria da vergonha de nunca ter vencido nada. Ele vencera, e isso era a prova de que erros poderiam ser corrigidos pela fibra moral. Os anos de estudo, a disciplina e a límpida e casta beleza da única fé verdadeira: sentiu uma comoção breve agitar-lhe o peito e a garganta, lágrimas ensaiaram seu desfile, mas pararam nas bordas dos olhos. A comoção lhe renovou a idéia do merecimento, e de que ele poderia, historicamente, reconduzir a Igreja, desta presente Babilônia, para Sião. Eis uma verdadeira Guerra Santa, pois qui fugit molam, fugit farinam.

Levantou-se, confiante como sempre, e deu com a imagem no espelho, onde sequer percebia os chifres que lhe pesavam na testa. Mas, curiosamente, aquela figura a um só tempo era e não era a sua imagem: seria a mudança da renovada certeza do teste por que passou o que lhe dá este ar dos profetas que anunciaram a verdade do Cristo? Notou, espantado, que o rosto no espelho parecia mover-se sem que ele se movesse, numa autonomia sobrenatural e com os olhos fixos em seu rosto. Diria algo, os lábios se moviam repetindo, com ligeiro sorriso, alguma frase? Aproximou-se como para ouvir a voz do vidro, e a voz do vidro lhe repetia, pausada e claramente: Ego sum papa, ego sum papa.

6 comentários:

Valéria Garcia disse...

Olá Dirceu!
Adorei a cor! E a figura ficou ótima.
Beijos, Valéria.

Valéria Garcia disse...

Alfredo: cadê sua foto?

ana rüsche disse...

longa vida ao demônio amarelo!

adorei o texto - amanhã escreverei sobre isso e te linko.

como dizem algures, una buona morte!

beijos

ps.: deixe anônimos comentarem, senão apenas quem tem conta no blogger consegue.

Lunna disse...

"Vivo il demon giallo."
Abemus o Demônio Amarelo.
Gostei dos chifres na cabeça do "touro" cristão.
Nada contra a fé. Mas sempre acreditei que quanto mais se dedica aos aprendizados, menos fé nos resta.
Então, que viva los estudiantes.
Abraços.
Vou linkar você.

joao disse...

Queridão,
sou teu fã!
SENSACIONAL
ABRATZINGER
johannes

Paulo Soriano disse...

Muito bom!