quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

CHAOS REIGNS


"Reina o caos", diz a raposa eviscerada.

Houve três filmes interessantes (um deles, o de von Trier, uma obra-prima) & violentíssimos recentemente. Tipos diferentes de violência, mas é curioso sentir essa carga tão específica de violência no próprio significado de cada um deles. É uma ênfase muito nítida na brutalidade da vida, & isso tem um sentido para a nossa época.

Antichrist, como o título deixa claro, foi feito por um cristão em crise. É uma obra-prima porque o homem, nesse caso, é o dinamarquês Lars von Trier, que ele-mesmo diz ser o maior cineasta de tout le monde (ele deve admitir, em todo caso, que joga na mesma liga de, ao menos, David Lynch).

Não é um delírio de grandeza infundado, embora se possa dizer que há certo exagero na coisa. Esse é um filme muitíssimo perturbador, que vai de um desastre lutuoso à tortura psicológica & à tortura física. Efeitos digitais, acabamento acetinado em várias cenas, uma fotografia única, som gravado fora de cena, trilha musical, etc., tudo o que não se espera de um filme de um dos líderes do DOGMA 95, ou pelas tintas brechtianas de seus últimos filmes.

Vemos que o luto é também culpa, que a culpa foi prazer, & que antes de prazer foi conhecimento adquirido no Éden, que se você quiser poderá ser onde Adão & Eva fizeram o que todos sabemos, envolvendo uma árvore, um figo ou uma maçã, & uma cobra. Mas é sobretudo um retiro bucólico com uma cabana, onde o casal protagonista ia relaxar com o filho. A revelação para a mulher (Charlotte Gainsbourg, extraordinária) se dá quando vai só com o filho, o que vemos em flashback, e ela tenta escrever a tese de doutorado sobre a caça às bruxas.



A seqüência de infortúnios (conhecimento, prazer, morbidez no prazer & culpa) não poderia ser mais cristã. Críticos ordinários disseram, sem vergonha de o dizer, que é um filme misógino. Não é. É um filme em que a natureza, sejam plantas & animais, ou os recônditos escuros da mente humana, trabalham incessantemente em vida, morte & em um lento processo de verdor & decadência. A ordem possível, artificial, se revela uma falsa segurança, postiça.

Von Trier anda perturbado (na verdade, sempre foi um tanto), & fez um exorcismo público nesse filme. A seqüência de abertura, em câmera lenta, pornografia, p/b, sem som & com a belíssima "Lascia ch'io pianga", do Rinaldo, de Händel, é algo inesquecível. O luto já vem anunciado na letra do libretto, na música que chora belamente.

A mulher é a nêmesis que, em conluio com a natureza imprevisível, vinga-se da ordem que levou às incontáveis caças às bruxas. É uma vingança suicida, claramente, porque tão cruel que precisa ser autodestrutiva. É irracional (tão irracional que se torna também tortuosa visão antecipadora no homem interpretado por Willem Defoe, que aceita a coisa como culpa, até que não aceita mais & toma seu turno de crueldade).

Não creio que verei esse filme duas vezes; mas era preciso ver ao menos uma.




Outro é Inglorious Basterds, de Quentin Tarantino (inspirado no filme de Enzo Castellari, de 1978, que, a propósito, não vi). Se dizemos "Tarantino", está implícita a violência, eu suponho, ao menos até aqui. Mas está implícito que será, por outro lado, muito engraçado, porque Tarantino propõe suas barbaridades como uma piada de humor negro.

Esse destacamento suicida de quase soldados & mais que soldados, que tinha o propósito inicial de matar nazis com rápidos ataques & estratégias brutais de tirar escalpo (entre outras coisas do mesmo naipe), se vê diante da possibilidade de exterminar o velho Adolf.

Tarantino cria algumas tramas paralelas que obviamente irão se ligar para um final apoteótico. Há muita sátira de gênero, citações que todo mundo ficou de olho para pegar, tudo o que sabemos que Tarantino faz. Precisa direção de atores (que nos EUA praticamente só ele & Woody Allen ainda sabem fazer).



Mas o curioso é, nesse caso também, a seqüência inicial: nela, Tarantino não tem pressa nenhuma, & isso é cruel. Há quem despreze o trabalho de câmera, achando que só repara nisso gente superciliosa, mas esse começo de filme é impressionante não apenas pelo trabalho de Christoph Waltz como Hans Landa (o que será impressionante por todo o filme), mas também pelo modo como Tarantino resolveu posicionar sua câmera, como ressaltou sons inquietantes— como quando o leite é servido a Landa — que chegam acausar certa repugnância auditiva, o que me lembrou os versos de som terrível, de Paul Celan em "Todesfuge", sobre aquele Schwarze Milch der Frühe que se bebe de manhã à tarde à noite: Wir trinken und trinken.

O filme é, por outro lado, muito engraçado, mas inquietante. Não a primeira cena, que nada tem de engraçada, & certamente tem mais do que de apenas inquietante. Tarantino faz, portanto, uma coisa inédita em sua obra até aqui, & faz como mestre.





District 9 foi oferecido como o que é: uma ficção meio científica que cria a hipótese de produzir uma metáfora simples, mas engenhosa, para não apenas o apartheid (a ação ficcional se passa em Johanesburgo, na África do Sul), mas também para a estrutura do preconceito & os efeitos de panela de pressão do preconceito em qqer sociedade.

É inteligente, filmado nesse novo método claustrofóbico em que os filmes recentes de zumbi se especializaram, isto é, imitando o estilo câmera na mão, meio documentário; os personagens usam gírias para menosprezar os ETs, que têm aparência de camarão, & por isso mesmo os humanos se recusam a ver neles mais do que animais, & potencialmente ameaçadores.

Nem mesmo as situações de sexualidade interracial deixam de ser abordadas. É claro que, dentro do esquema de roteiro redondo (ou previsível), é o ambígüo personagem que conhece os ETs como ninguém, & os despreza em quase igual medida, que sofrerá a transposição que irá testar seus limites existenciais, & pôr em questão a natureza odiosa do preconceito.


Há quem ache que o final sofre por tentar ser videogame: de fato, tenta a aproximação, mas a premissa realmente levaria a isso, & me parece aliás muito bem executado, & nem soa como algo mercadologicamente condicionado. É da própria narrativa; ou, ao menos, é como vejo.

Três filmes muito brutais, três enfoques muito diversos, mas igualmente apontando para um tipo de desespero social muito recente, uma desconfiança de que, de alguma forma, fomos devolvidos à lei do mais forte, ou daquele que tiver mais aptidões para a violência. É curioso, como visão, & por estar em todos.

A década de 1970 & a de 1980 tiveram sua descarga de violência. Lembro de Scarface (1983), com Al Pacino & Michelle Pfeiffer, por exemplo. Mas era não era uma violência existencial, era a história de tomar a violência contra a exclusão, & aquela coisa de quem vive pela espada, morre pela espada, que buscava um sentido trágico a se aplicar a novos personagens possuídos da velha hybris grega.

Agora é um desencanto de crueldade, um certo pavor do vazio. É curioso.

6 comentários:

Privada Poética disse...
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maiara gouveia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
maiara gouveia disse...

Há um esvaziamento que impele a agarrar-se a algum instinto que conecte o ser à vida. O Bergman fala de uma máscara refletida no sangue, máscara cujo reflexo é sorvido pelo ator, em O Rito, filme que acabo de ver. É interessante como ele subverte a idéia de alimentar-se de substância. O ator alimenta-se do reflexo, que é o reflexo de uma máscara. O fim desse rito (de violência psicológica e humilhação) é morte – em outros filmes, a loucura, o esvaziamento, ou a brutalidade de um silêncio esmagador. No Anticristo, na verdade, mais do que o pavor do vazio, existe o reconhecimento do Mal, e que esse Mal está na origem, está no próprio corpo, está na brutalidade da natureza, na lei do mais forte e mesmo no amor. De fato, não é um filme misógino. Longe disso. É justamente a mulher que opera a revelação. É justamente a mulher que interfere nesta história particular, que a modifica e inclui o elemento desconhecido e, por isso mesmo, traz à tona o que ninguém jamais traria – muito menos o racionalismo habitual. A cena de mutilação genital choca o público, quando todos sabem que ela ainda existe no cotidiano de várias mulheres. E a tortura física choca, quando apenas mimetiza certas torturas proporcionadas aos suspeitos de pederastia, heresia, bruxaria, no período da Inquisição. Na verdade, havia torturas piores, bem piores, que pelo bem do nosso estômago não vem ao caso elencar. A dominação que o homem sempre exerceu, durante séculos, em relação à mulher, está claro: é uma questão de força. Primeiro, a física; depois, a da posse do maior veículo de poder: a livre aquisição, exposição e compartilhamento de idéias. Sendo desde sempre um objeto constituído pelo olhar masculino, o que só há pouquíssimo tempo (menos de um século) vem mudando, a mulher foi sempre pintada como um risco, um ser tão desprezível que, no entanto, poderia causar enormes danos, por conter em si a vida e a morte, por jorrar sangue todo mês, um ser mágico e tenebroso, que, para o ocidente, depois de Cristo, teria sido a causadora de todos os infortúnios, ao sugerir que se comesse o fruto do conhecimento do Bem e do Mal. Poderíamos pensar de outro modo, mesmo a partir do mito, poderíamos pensar que sem isso não haveria história, não haveria nada. Seria sempre um idílico contemplar de si mesmo, de uma costela do lado de fora, e sem o outro, não há ameaça. No caso exposto em Anticristo, a mulher conduz o homem, supostamente sensato e equilibrado, a encontrar-se com a sombra que existe em todos, e, ao mesmo tempo, desestrutura o mundo desenhado com régua e esquadro em que ele vivia, protegido por seu 2 + 2 = 4. De qualquer forma, o filme transcende questões de gênero, e propõe questionamentos teológicos, de maneira mais explícita do que já acontece em Dogville, por exemplo. É nítido o desespero por encontrar um sentido. Só diz “O caos reina”, por meio de uma raposa eviscerada, quem desejaria o contrário disso. E não me parece casual a escolha da raposa, muito menos o absurdo da cena.
De Handel ao filho que parece muito alegre ao derrubar os bonecos que representam a Dor, o Luto, o Desespero. Da punição que se impõe tanto ao outro quanto a si mesmo à intensificação da violência. Em cada gota de suor ou respiração exaltada, vemos um cineasta que nos propõe incontáveis maneiras de refletir e viver experiências que ultrapassam a experiência cinematográfica e, no entanto, só podem brotar por meio dela.

maiara gouveia disse...

E há angústia, o medo sem objeto, que o terapeuta não entende. E há a negação do Mal em si mesmo. E há sutis relações de poder. E há uma porta aberta para Tarkovsky, que fez justamente o oposto em seu belíssimo O Sacrifício, em que a mulher, também portal para o desconhecido, oferece uma revelação de outra natureza, que é, ao contrário da violência levada às últimas consequencias, o florescimento de um milagre. Enfim, eu poderia conversar sobre horas por todas essas coisas.

maiara gouveia disse...

Ia editar o comentário anterior e acabei perdendo, que tontinha! Sendo assim, copio o essencial: que aplaudo o seu texto e que adoraria ver v. desenvolver a ideia de violência e brutalidade como algo relacionado a uma intuição sobre a lei do mais forte, em nosso tempo. Beijo.

Gean disse...

Li com muito prazer o texto do Dirceu e o comentario da Maiara(que ia fazer uma edição mas perdeu parte do texto,senti por ela pois isso acontece muito comigo,rs)sobre o filme Anticristo.

Quero fazer um comentário sobre uma comparação que a Maiara fez com o outro cineasta a quem o filme é dedicado, o Tarkovsky.. Bem, quando li a dedicatoria lembrei de Solaris(filme de Tarkovsky)porque em Solaris a mente tem um papel determinante na construção da realidade.
Em uma fala o psicanalista diz para a mulher que é a mente dela que constrói a realidade e não o contrário!
Tbm achei o filme misógino e como o mesmo aponta para direções opostas , como por exemplo:
A Razão do psicanalista e o 'reina o caos' da raposa ' .

O descontrole da mulher depois da perda OU o planejamento dela para liquidar o proprio filho.

Por este caos meio fortuito que reina no filme.. minha impressão é de que houve uma certa deliberação do diretor para chocar, para chamar à atenção sobre si mesmo!

Claro que ele produziu cenas belas , como aquela inicial.
Quando vi a cena(que alguém me avisara com antecendencia que era chocante) Fiquei pensando no caso do casal Nardone (casal que jogou a filha pela janela em SP) e pensei o quanto a vida pode ser tão chocante quanto a arte!

Parabéns aos dois, o Dirceu e a Maiara pelos comentários!