sábado, 18 de fevereiro de 2017

RADUAN NASSAR E A DIGNIDADE DAS LETRAS

Décimo-primeiro mês,
Ano II do Golpe de Estado: ditadura de MiSheLL Temer

Raduan Nassar, que recebeu ontem o Prêmio Camões

Se eu fosse continuar o que fiz em 2015 & 2016, isto é, falar sobre a onda fascista que engoliu o Brasil (& o mundo, diga-se de passagem), teria de escrever todos os dias, porque agora todos os dias nos trazem aberrações que estão já quase fora do domínio da natureza, são coisas crescentemente monstruosas que mostram que, seja no âmbito privado ou público, tudo é possível.

Está claro, falar sobre isso todo dia não faria bem nenhum para o meu fígado.

Também porque o dever de um autor que tenha um cérebro & um mínimo de dignidade intelectual é tentar advertir seus zonzos concidadãos que o desastre se avizinha, & que está nas mãos da sociedade dizer um NÃO antes que seja tarde demais.

(Com "tarde demais" eu quero dizer coisas como o Terceiro Reich ou a ditadura militar, por exemplo).

E eu adverti, oh boy, eu adverti.

MAS (& esse é um grande "mas", como vocês vêem) não sou do tipo que, tendo decidido a turba por Barrabás, lavo as minhas mãos da encrenca. E, não sendo, há ao menos um episódio recentíssimo que merece algum comentário especificamente meu.

Raduan Nassar, ontem, representou a dignidades das Letras.  

Homem idoso, que bem podia ter decidido lá com seus botões que já havia metido bronca em tudo o que era preciso nesta vida & que tinha o direito de relaxar ainda que um pouco, não: disse justamente que vivemos tempos sombrios & que não há como ficar calado.

Claro que, tendo ainda por cima dito que foi um Golpe de Estado contra Dilma Rousseff, pessoa honesta & democraticamente eleita, & na cara de um golpista hipócrita, irritou a camarilha fascista da direita brasileira.

Ouviu os insultos, pessoais & singularmente indecorosos, que lhe foram dirigidos por um rato golpista que estava lá para a cerimônia, em nome daquele esgoto de Brasília, & ouviu em silêncio: Nassar já havia dito, com coragem & objetividade exemplares, o que tinha de dizer, & que pertence desde já aos livros de História.

Sim, aos livros de História: porque se tem algo que desanda a histeria nos golpistas é saber, como o palhaço de ontem sabia, que ninguém precisa arrastar o nome deles na lama, o nome deles está na lama desde antes do Dia da Vergonha, 17 de abril de 2016.

Temos os nomes de todos eles, um por um. Estarão lá, quando os livros de História forem dizer quem traiu a democracia; quem doou o país para a especulação financeira internacional, incluindo suas terras & recursos naturais; quem roubou & matou pelo poder; quem torceu as leis & as regras para salvar cada um dos maiores gangsters do continente; quem arruinou as recentes esperanças de educação, saúde & cultura, & devolveu milhões à abjeta pobreza.

Temos todos os nominhos, estão no livro de figurinhas do Golpe - cheio de juízes, também, claro, tem de tudo.

E os que saíram às ruas pateticamente se dizendo contra a, ah-ham, "corrupção", sabe-se hoje que se dividem entre patifes, ingênuos & bonecos de corda da TV Golpe (porque a gente sabe que só vão pra rua quando a TV Golpe diz pra eles que devem ir, & daí dizem que são contra a corrupção, mas basta estalar os dedos num ritual de hipnose & voltam os traseiros para as poltronas, como se nada tivesse acontecido).

Bom saber que a dignidade das Letras, se nada mais, continua intacta neste país fascista. Bravo, Raduan.

PS: importante, Helena Borges, pelo Intercept, mostra o gigantesco perigo que se esconde por trás da privatização da CEDAE, no Rio de Janeiro, & que era - para quem tem se informado & pensado sobre o Golpe - óbvio:

2 comentários:

Leandra Yunis disse...

De acordo; cada palavra, ponto e vírgula.

Samuel Pinheiro disse...

Raduan Nassar mudou nossa literatura com apenas dois livros e fez o suor frio escorrer em um governo inteiro em poucos minutos.
Bravo Nassar!