sexta-feira, 26 de agosto de 2016

O KURUPIRA

Quinto mês,
Ano I do Golpe de Estado: ditadura de MiSheLL Temer



Como todos devem se lembrar, o Kurupira é uma criatura das selvas & florestas que os indígenas aterrorizados descreviam de modo peculiaríssimo, sobretudo por um detalhe: tem os pés voltados para trás, de modo que suas pegadas enganam quem adentra os bosques, & não sabe se está indo ou vindo.

Mas podemos pensar no Kurupira, esse ser fantástico, como uma metáfora para entendermos o Brasil dos nossos dias muy penosos; ou, vá lá, o Brasil desde que o Brasil é Brasil.

Não apenas temos um governo explicitamente, & aos olhos do mundo, golpista, mas também reencenamos, nisso, o hábito brasileiro do Golpe de Estado. O jornalista Emiliano José, da Caros Amigos, republicou o discurso de João Goulart, o Jango, na Central do Brasil, que poderia ter saído da pena de Dilma Rousseff: fora escrito em 1964, poucos dias antes dele mesmo sofrer o seu Golpe de Estado, & acusa os mesmos pontos que vemos hoje.

Goulart fala do desgosto dos mais ricos por um governo que atenda à vasta maioria de mais pobres; fala da entrega da Petrobrás ao capital estrangeiro; fala da mídia como instrumento principal na arregimentação do ódio; fala de como os golpistas chamam seu golpe de democracia; fala da repetitiva tática de conjurar a "ameaça comunista" do medo popular daquele inexistente bicho-papão.


Quem diria? Eleição direta voltou a ser subversão, como
era para O Globo durante a ditadura militar.


Mesma coisa, all over again.

Os atores dessa farsa que nunca foi tragédia são também os mesmos, & quem olhar para o centro desse furacão verá a Globo (que pediu desculpas bem tardias por lamber as botas dos generais em troca de favores), a revista Veja

E verá também um tipo muito comum nesses momentos: a mídia & os militares criam um herói fajuto, de tintas fascistas, & o propagandeiam para a sanha fascista das multidões que, como desconhecem aquela chatíssima matéria da escola cada vez pior das pernas, a História (a gente põe em maiúscula pra tentar dar uma força aí), desconhecem o elementar em ciências sociais, o equivalente, em matemática, do 2+2.

Ou perceberiam imediatamente o truque.

Collor de Mello já ocupou essa posição. Agora dêem uma espiada nestas imagens (advirto que podem ser gráficas demais & fortes demais para determinadas Constituições. Caueat emptor, como diz o sábio latinório):

Moro recebe prêmio de "faz diferença" de
João Roberto Marinho, da Globo.

Moro, cercado de militares, recebe a medalha
de "pacificador" do Exército.

Dizem que uma imagem vale mais do que mil palavras. Imagine duas. 

Os passos que damos para trás, à la Kurupira, não têm nem ao menos a dignidade do monstro que o fazia pelos próprios interesses: os passos atrás que o Brasil dá vão diretamente contra seus próprios interesses, fazem de nós uma caricatura ridícula de paiseco tocado por milicos & corruptos, produz estética má, feiúra grossa desses ternos horríveis & dessas fardas caretas.

Entra um governo ditatorial, corrupto, golpista & feito do pior que o Brasil já foi capaz de produzir, uma aberração sob quaisquer pontos de vista, um recado, para nós mesmos & para o mundo, de que não apenas não aprendemos, mas de que na verdade gostamos mesmo é do pior, gostamos mesmo é de quando um bando de velhos brancos & corruptos dão as ordens para os ricos ficarem mais ricos, os pobres, mais pobres.

Gostamos da nossa caricatura, queremos ardentemente voltar a ela.

Bom proveito: ela está de volta, com seus pés voltados para trás.

*

Em tempo: o senador  Caiado diz para o senador Lindbergh não "ficar cheirando". Há fotos.

"Lindbergh, não fica cheirando. 
Lindbergh?"

2 comentários:

Julia Bicalho Mendes disse...

ótima comparação, querido, nesse falseamento de caminhar.

tragicômico também.


mas o curupira não merece isso!

Dirceu Villa disse...

julia carissima,

preocupado com o que você disse, fui ao kurupyra
& perguntei a ele se isso estava muito ruim. ele
disse que sim, mas disse também que não me preocupe,
porque não apenas teria sido engenhoso, como por
boa causa, & que também fizera uma referência muito
legal a ele num poema de título "desinfectologia",
& então a coisa estaria no elas por elas.