quarta-feira, 22 de maio de 2013

ANTONIO MEDINA RODRIGUES (1940-2013)

"Professor, mas que raio é o logos?"

Foi o que certa vez um aluno da graduação de Letras da USP perguntou ao professor, poeta, tradutor, palestrante e editor Antonio Medina, durante uma aula de grego. É a pergunta de um milhão de dólares, que qualquer professor minimamente enfadado encaminha piedosamente ao Liddell-Scott. E então Medina disse ao aluno curioso, e ao resto da audiência, mais ou menos:

Saira dia desses de casa para ir pagar contas no banco. Mas saira mecanicamente pelo portão de casa à rua, porque sua mente estava, é claro, no logos. E assim chegou ao banco e assim parou na fila diante do caixa, enquanto seus olhos tinham aquela expressão concentrada de vazio. Eis que, após um bom tempo, notou casualmente uma mulher no chão gesticulando para que se abaixasse.

Nesse momento em que a imagem peculiar o retirou da imersão no logos, percebeu, com alguma surpresa, que um assaltante roubando o banco gritava com ele pondo a arma contra sua cabeça. O feitiço se quebrara.

Esse mecanismo de imersão em linguagem, que o retirou momentaneamente do mundo, era o princípio de razão, discurso, palavra, codificado no vocábulo de peso filosófico e variada acepção técnica. E deu em excelente anedota.

Medina foi meu professor de literatura grega na faculdade, e com ele estudamos a métrica de Homero, o mecanismo de introdução dos epítetos como um hemistíquio, supostamente resto daquela ancestral origem oral do poema, entre outros mecanismos repetitivos e permutatórios que o evidenciavam; lemos os líricos arcaicos, de que Medina produziu uma antologia com traduções suas que são a melhor tradução para o português de certos poemas de Safo, Alceu, Mimnermo, e de líricos alexandrinos como Calímaco (e acho que ainda não foram publicadas - eheu! - em edição).

"Um Saio ora se escora em meu escudo", por exemplo, verso  brilhante que traduz logo o primeiro verso daquele poema de Arquíloco, exemplar de um mundo já não homérico, em que o soldado prefere preservar a pele do que se meter heroicamente no combate para reaver a gloriosa arma perdida.

Medina se tornou em grande parte um amigo, que sentava comigo e com meus amigos por vezes nos intervalos para discutir literatura e dizer besteiras, beber um pouco e rir. Ríamos mais, porque afinal de contas era um tipo gozador. A uma aluna que se aborreceu porque ele dissera que não gostava de ir ao teatro, e perguntou qual era o motivo disso, respondeu: "Porque não gosto que gritem comigo".

Produziu uma edição cuidadosamente anotada da Odisséia, de Homero, traduzida por ninguém menos do que Odorico Mendes (e ilustrada por ninguém menos do que o pintor Enio Squeff), que é um dos livros mais importantes de tradução de poesia já publicados nesta língua. Traduziu Hölderlin, publicou poemas autorais incrivelmente divertidos (conheço seu pequeno volume chamado graciosamente Idéias), e uma tradução do Cântico dos Cânticos.

Essa tradução tem uma história, natürlich: éramos então moleques que estudavam literatura pelo gosto da coisa, e éramos também escritores. Havia algum tempo nos reuníamos em um sebo na rua Líbero Badaró para lermos nossos poemas para um público crescente. Quando esse público chegou a um número considerável, João Eduardo Oliveira e Cídio Martins, dois dos meus amigos, tiveram a idéia de montarmos uma coleção de livros artesanais. Um deles, a única tradução que publicamos, foi a do Cântico dos Cânticos, primeira edição, bilíngüe, com os versos em português de Medina (que seria depois publicada em edição da Hedra).  

O prefácio foi escrito por Adriano Scatolin, hoje professor de latim da USP, e me lembro de uma ocasião em que eu & Scatolin estávamos em uma das salas da Faculdade de Letras, à tarde, revisando o texto com Medina. Foi uma tarde fascinante, em que certamente aprendi mais do que em todo um semestre: era preciso resolver tudo, e íamos verso a verso. Quando discutíamos algumas das soluções, Medina simplesmente soltava de cabeça e de imediato três ou quatro versões possíveis do mesmo verso, já metricamente em português (ele traduziu o texto em redondilhas).

Medina tinha um ouvido notável, e uma sensibilidade verdadeiramente poética para aliterações e paronomásias, além de uma concentração que produzia de imediato soluções variadas, que ele sequer se ocupava de anotar. Uma vez que tivesse apreendido o sentido (inclusive formal) de um verso, ou de um conjunto de versos, não parava mais para pensar, compunha na mente o desenho e o dizia límpido, precioso.

Lançamos o livro na Casa das Rosas, que era na época dirigida pelo artista plástico José Roberto Aguilar, com a colaboração sempre inestimável de outro amigo muito saudoso, morto neste mesmo ano de 2013, Ilo Zema Codognoto, com quem também fiz um programa de entrevistas na rádio CR37, da Casa das Rosas, e no qual também entrevistei, entre outros, Antônio Medina Rodrigues.

Então, para prestar os meus respeitos a esses dois amigos, posto aqui duas fotos que registram o lançamento em 1999, com Adriano Scatolin, com a entrevista incidental que fiz com Medina ali mesmo, e Ilo na câmera.

Adriano Scatolin em pé, eu, e Medina assinando o Cântico dos Cânticos,
na Casa das Rosas, 1999.


Medina, eu e Ilo Zema na câmera.

4 comentários:

márcia disse...

Você falou do meu pai como poesia: uma na outra, deu num verdadeiro poeta. Obrigada, de coração.
Márcia Regina Medina.

Cídio Martins Neto disse...

Estive presente também nesses momentos, nas aulas, me lembro bem da história do logos, das conversas fora delas, estava lá quando disse que não gostava de gente gritando com ele. Engraçado fazer parte de um passado. Estive lá na revisão do texto do Cântico dos Cânticos, aliás, fui responsável por aquela edição, a primeira. Devo dizer, fomos todos, a fizemos com muito carinho. Os alunos, agora conduzindo o professor. Trágica tarde de sexta-feira, saber do óbito de dois velhos amigos. Medina, Ilo, por essa não esperava. Estava lá nos programas da rádio CR37, estava lá, obvio, no lançamento do livro. Estava lá...

Saudades de todos vocês...

Cídio Martins

Rafael Minussi disse...

Gostei muito do texto. Sem dúvidas uma bela homenagem.

Dirceu Villa disse...

Fico muito feliz que minha homenagem a seu pai tenha lhe agradado, Márcia.

Foi um bom amigo, e pessoa fundamental na minha formação.

Meus sentimentos estão com vocês da família.