terça-feira, 6 de abril de 2010

Sinal de mais: um brinde, Carlos


Carlos, caríssimo,

a poesia mais rica é um sinal de mais. Preciso lhe dizer.

Você escreveu aquela de que a poesia mais rica é um sinal de menos. Deve ter parecido uma sacada esperta, na hora. Mas v. viu o que as pessoas que eram elas-mesmas um sinal de menos fizeram (& ainda fazem) com isso.

Não foi um lance particularmente brilhante seu, não foi muito útil, foi boa retórica para universitários esforçados, apenas. Me lembra o MAKE IT NEW do Pound, porque ele não podia esperar que uns burocratas seqüestrassem esse bordão para justificar suas fétidas ninharias. Qqer um pode se justificar dizendo que é “novo”, que está seguindo essa diretiva bacana.

Sim, eu sei. São as mesmas pessoas que leram na sua poesia só a pedra no caminho, como você previu que aconteceria no “Legado” do seu Claro Enigma: “De tudo quanto foi meu passo caprichoso/ na vida, restará, pois o resto se esfuma,/ uma pedra que havia em meio do caminho”.

Não vêem que a pedra no seu caminho se tornou uma pedra no seu sapato. Não notam a ironia desses versos, é claro, são repetidores, têm palha no lugar de cérebro, não percebem nada que exija-lhes os miolos, & vão repetir isso sem o seu humor: lêem só claro, sem enigma.

E esse foi um dos melhores livros do século passado, não há dúvida. Perdoamos seu Boitempo, seu Amar se aprende amando, porque até os anos 1950 v. era simplesmente o maior. Mesmo com os seus óbvios deslizes, na minha opinião, estão v. & Sousândrade no topo, com Gregório de Matos por perto.

Cabral? Cabral era excelente, muito habilidoso, inovador, mas sabia um só mecanismo. Já estava na lição do sinal de menos, com a dignidade de um artesanato superior, mas correu poucos riscos, tinha as mãos muito limpas. Era um diplomata, & os diplomatas não chutam portas, nem quando é preciso, v. sabe.

E v. sabe porque era mineiro & funcionário público, preso à sua classe & algumas roupas. Liberdade, sonho de fim-de-semana.

Exato, concordo, a subtração lhe dava liberdade poética. Onde os profusos tagarelas, os gordurosos empapados, pegajosos, não sabiam se conter, fingindo ser passarinhos de quintal, rotundos poetas no diminutivo, v. subtraía daquele excesso o substancioso essencial.

Seus poemas exatos, tantas vezes arredios, tantas vezes guardando o sentido naquela arte cuidadosamente aplicada — de que costumam ler a superfície do que v. declara neles —, lhe deram nervos & músculos, & uma pele espessa.

Que se dissolveu nos seus últimos anos. V. talvez tenha se cansado. V. não tinha boas máscaras desafiadoras para usar em público, para se divertir lá fora. A arte recolhida é impiedosa, a vida é muitas vezes contrafeita, & os jovens não sentem isso porque estão na plenitude das forças, se acham capazes de tudo.

Entendo que v. pense isso, no caso. Mas a poesia mais rica (incluindo a sua) é um sinal de mais.

V. não tem mais de se esconder, v. é esse vulto imaterial agora, v. sequer está preso àquela classe ou àquelas roupas; v. está livre até mesmo da banal dualidade entre engajamento & torre de marfim. Publicaram até a sua pornografia, meu velho. Relaxe.

E digo que a poesia mais rica é um sinal de mais para o seu próprio bem, & o nosso: é mais complexa, mais variada, mais ampla no escopo, mais hábil.

Muitos de nós rimos & não temos docilidade alguma com o passado que herdamos. V. também não teria, hoje, qdo. todos se acomodaram & parecem meros bonecos velhos encostados em estantes. O tempo pede outra coisa, & com urgência.

Reviramos as caixas & ficamos só com o que presta. O decoro social que cria impasses não nos interessa. A melhor poesia hoje, & de qqer época, é um sinal de mais, mesmo quando disfarçada de sinal de menos.

Isto aqui é para lhe dar um aperto de mãos, & para dar as boas notícias de que as coisas estão mudando, como você mesmo as mudou uma vez. Enfim & novamente.

Vai daqui um abraço,

D. (il diavolo giallo)

6 comentários:

Bebel Mendonca disse...

Muito bom!
Que blog maravilhoso, interessate.
Parabéns!

Dirceu Villa disse...

Seja bem-vinda, Bebel.

D.

Ricardo disse...

Texto excelente, caro Villa.

grande abraço

Domeneck

Érico Nogueira disse...

Endosso tudo! Grande texto! Abraço. E.

Leonardo disse...

Muito bom! E você me confirmou uma coisa que já desconfiava, que no "legado" C.D. fala de seu próprio poema-ironia. Bacana à beça!

Dirceu Villa disse...

Drummond faz isso várias vezes. Ele percebe como a leitura de sua obra costuma ser redutora, & explora isso na poesia.

Mas é sutil, de modo que as pessoas pudessem tomar isso em outro sentido. Leram esse verso, por exemplo, como uma confissão existencial. "Ah, Drummond é tão humano! Ele sabe que é tudo passageiro nesta vida".

Mas ele está acusando, espertamente, uma leitura fraca, aquela leitura que condiciona toda sua poesia ao mero efeito do escândalo moderno.

E Drummond é infinitamente mais complexo.

Vai daqui um abraço, Leonardo,

D.