quarta-feira, 24 de março de 2010

BEIJA, REBEIJA-ME

Louise Labé (1524-1566)


Tendo meu ócio cheio de dignidade permanentemente perturbado por obrigações cumulativas, lá se vão os artigos. Melhor: direto aos poemas.

Louise Labé, dizem agora, pode ter sido uma invenção coletiva de poetas franceses da época. Se for, é também uma ironia, porque sua obra varre do mapa a maior parte das deles.

Se não for, ainda é aquela mulher de coragem & talento verbal soberbos, que Calvino, com suas peculiares simpatia & delicadeza, chamou plebeia meretrix. Como não seria meretriz aos olhos de quem não perdoava nem as virgens — ou a palavra grega certa pra isso seria parténos?

Enfim, como diz Doutor Fausto: Divinity, adieu.

Traduzi um dos poemas de Labé que mais aprecio, abaixo. Até mesmo Nick Cave prestou tributo (a seu modo) à poeta francesa, escrevendo no primeiro verso de "Green Eyes", do disco The Boatman's Call (1997): Kiss me again, rekiss me and kiss me.

Gaudete.

SONNET XVIII

Baise m'encor, rebaise moy et baise:
Donne m'en un de tes plus savoureus,
Donne m'en un de tes plus amoureus:
Je t'en rendray quatre plus chaus que braise.
Las, te pleins tu ? ça que ce mal j'apaise,
En t'en donnant dix autres doucereus.
Ainsi meslans nos baisers tant heureus
Jouissons nous l'un de l'autre à notre aise.
Lors double vie à chacun en suivra.
Chacun en soy et son ami vivra.
Permets m'Amour penser quelque folie:
Tousjours suis mal, vivant discrettement,
Et ne me puis donner contentement,
Si hors de moy ne fay quelque saillie.

SONETO XVIII

Beija, rebeija-me e torna a beijar:
Dá-me um daqueles teus mais saborosos,
Dá-me um daqueles teus mais amorosos:
Quatro eu te dou como brasa a queimar.
Queixas de mim? o teu mal vou sanar
Dando-te mais outros dez langorosos.
Assim mesclando tais beijos formosos,
Os dois gozemos o quanto bastar.
Vida dobrada teremos, amigo:
Um tem a si, mais o outro consigo.
Permite, Amor, sonhar tanta sandice:
Seria mau, viver discretamente,
Sequer teria um momento contente,
Se de mim mesma àsvezes não saísse.


* com um agradecimento a Eric Ponty, ainda devendo-lhe uma diérese. ahahahaha.

7 comentários:

Daud disse...

Dirceu, vc é o único cara que eu conheço que conhece essas coisas inauditas, traduz perfeitamente, e belamente, seja de que língua for, e ainda faz a referência que, imagina-se, o cara que fez todo o anterior nunca teria: o Boatman's Call.

Dirceu Villa disse...

Que é um dos melhores discos do Nick Cave, aliás, não é mesmo?

Pessoalmente, me parece que o disco perfeito dele seja o No more shall we part, creio que de 2000 ou 2001, mas o Boatman's Call é um dos melhores.

Abrazo, Daud,

D.

Janaína disse...

Delicioso excesso esse poema. AMEI a tradução.
bj
Jana

Dirceu Villa disse...

Obrigado, Janaína.

Um beijo,

D.

pedro furtado disse...

a tradução para o português ficou trop formal por um lado e troppo literal por outro.
Dá-me... dá-me, é coisa q talvez nem em portugal se usa mais.... e a gradação do verso inicial perdeu todo o movimento de vai e vem do original, que não é em "crescendo", detalhe q não escapou a Nick Cave.

minha opinião!

pedro furtado disse...

veja bem, refiro-me à tradução! no entanto parabéns pelo bom gosto da escolha e da bela página além da merecida homenagem a esse maravilhoso poema.

Dirceu Villa disse...

Señor Hurtado, caríssimo, tudo bem?

Por partes:

Formal demais não há como, se falamos de forma poética, que é simétrica à do original (pode ser formal de menos, onde o tradutor tenha falhado em reproduzir coisa técnica, ou tenha decidido sacrificar coisa técnica).

Se com formal demais se quer dizer o "dá-me", deve-se observar que a própria língua francesa de Labé não é a que se fala hoje. E que "fala" não é o mesmo que registro escrito, MESMO se somos todos mudérrnos. Um ou outro uso antigo na trad. em questão é até mesmo justo.

E, por fim, nem eu, nem o Nick Cave (como você notou ao menos no caso dele) sugerimos gradação, mas movimento, assim como no original. "Tornar a beijar" não sugere "com mais intensidade", mas "de novo", não é mesmo?

Leia de novo, releia & leia. Hahahaha.

E vai daqui un abrazo, pedro.

D.