sexta-feira, 5 de outubro de 2007

FAMA IMMORTALIS



Na palestra que dei semana passada na Faculdade Oswaldo Cruz uma aluna perguntou, a certa altura, por que na tradição da língua portuguesa havia triunfado um modo queixoso & murmurante ao invés do modo crítico & do assertivo.

Eu falava sobre a tradição, o "cânone", ou como queiram chamar os vultos, que assim defini na página do Thesaurus deste mês, dentro da revista digital Germina: "todos os escritores importantes estão mortos; todos os mortos são sombras; toda sombra é um vulto; todos os escritores importantes são vultos".

Respondi a ela uma porção de coisas tentativas, porque sua pergunta era mesmo muito boa: o fato de que nós detestamos o "não"; o catolicismo, que implica contrição, sofrimento & amargura para salvar a alma tão pecaminosa; o sebastianismo residual, que lamenta sempre uma condição de devir. Etc.

Tudo isso pode ser encarado como parte da questão.

Mas hoje a resposta mais simples, verdadeira & objetiva que se pode dar é: não lemos as Metamorfoses, de Ovídio. OU, quando lemos, lemos mal. Esse é um dado muito importante, explica a tacanhice de ATÉ HOJE não termos uma tradução completa & minimamente decente, do ponto de vista do verso, para o longo poema.

(O poema tem dois mil anos & uns quebrados, apenas para mantermos alguma idéia de proporção & perspectiva no assunto).

Mais uma contribuição para a solução futura do dilema: ofereço a minha tradução do epílogo do poema, no livro XV, em que Ovídio se volta para o leitor com sua própria voz.

Num lance de modéstia involuntária (porque Ovídio realmente não sofria dessa espécie de hipocrisia), ele vaticinou que seu poema duraria até quando houvesse Roma dominando o mundo. Daí, interpretei o vivam do final, pondo Ovídio em circulação novamente.

Das Metamorfoses

(XV, 871-875): EPÍLOGO

A obra agora se encerra, e nem a ira de Jove
nem ferro nem fogo,
e nem o tempo voraz poderão destruí-la.
Quando quiser venha o dia,
que força não tem a não ser sobre o corpo,
em que se ponha então fim
ao meu cálculo incerto dos anos:
Ainda, o melhor do que sou
perene estará entre as altas estrelas,
e o meu nome, indelével.
A toda parte onde estenda
Roma o poder sobre as terras,
os lábios lerão minhas palavras;
e sob a Fama por séculos,
se vale o presságio de poeta:
Estou vivo.

Um comentário:

Maiara Gouveia disse...

ai, obrigada dirceu, por apontar o fato de que a modéstia muitas vezes é tacanhice. Obrigada. De um certo modo, é distinguir a pretensão da arrogância: a primeira é nobre, a segunda (embora não necessariamenre ruim) é apenas uma característica e que não corresponde de modo algum à primeira. Epílogo excelente, mas dizer que Ovídio é excelente também é chover no molhado. Prefiro elogiar você que está vivo, é excelente poeta, traduz o químporta e tem cérebro funcianando a todo vapor para não ser hipócrita como a maioria. Céus!