terça-feira, 5 de julho de 2016

LEONARDO FRÓES NA FLIP

Quarto mês,
Ano I do Golpe de Estado: ditadura de Michel Temer



Leonardo Fróes é um grande poeta, coisa óbvia desde 1968, aquele outro annus terribilis da nossa triste vida pública em que fez sua extraordinária estréia em livro, o Língua Franca, que já começa com o ótimo "Homenagem a Louise Labé" (trecho final):

o coração range
         a raiva me cega, tropeço nos livros
antes talvez tomasse um drinque
mas não há tempo
                             não há misericórdia
um tigre ronda o quarto
j'ay chaut estreme en endurant froidure
           perdi todos os rumos e
nessa altura da vida, às três da tarde,
já não sou um misto de orgíaco e scholar
procuro uma emoção bem simples
                                          um rosto
              no qual me reconheça.

Longe do papo furado das grandes editoras & do jogo de cartas marcadas do circo literário, da crítica com a cabeça enfiada num buraco no chão, ele fez sua carreira em um silêncio que nada tem a ver com o fato de residir há mais de 40 anos em seu sítio afastado da estupidez brutal do correr atrás do próprio rabo das grandes cidades. Seu silêncio é o do topo de montanhas, com o que esse silêncio tem de grande eloqüência, também, se lembrarmos que os poemas de Chinês com Sono, seu livro de 2005, estão repletos dessa quietude enérgica, das palavras exatas de quem já escreve com um pensamento que é poesia. 

PROXIMIDADE

É madrugada e os braços da neblina,
com seus longos fiapos, me contornam.
Sinto-lhe os toques de carícia quando
a neblina se solidifica em meus ombros.
Ele é o real que me estreita em seus domínios
e o real que liberta.
Sinto-lhe as mãos, o rosto, as coxas
a roçar em meu sexo.
Sinto sua boca refrescando a minha.

E isso acontece com raros poetas, i.e, esse refinamento tão absoluto do processo que o próprio pensamento se torna poesia, a trama se torna inconsútil - como Jorge de Lima chamava aquela túnica. Aí está porque as pessoas no público estavam todas absortas, hipnotizadas, comovidas com esse tipo de integridade que dá a coesão total entre o homem & o poeta.

Alguns jornais trataram sua ovação em pé neste último sábado na FLIP - a Festa Literária de Paraty deste 2016 - como uma "redescoberta": & é como escreveu a poeta Julia Mendes na Revista Saúva, "onde é que estavam as pessoas nesse tempo todo?". Exatamente. Não se trata de uma redescoberta, mas de uma atenção tardia que não é culpa, em última análise, das pessoas. Costumo dizer que as pessoas não têm como saber de algo que existe se elas não sabem que existe. As pessoas estavam distraídas com outras coisas fracas & nocivas que a propaganda lhes faz descer goela abaixo (o mesmo esquema que se dá com a política, como temos visto).

As editoras brasileiras (assim como a crítica) têm um problema com literatura, particularmente poesia: dificilmente se acha quem entenda do assunto em posição de editoria, de escolher, do velho processo de krino, krineín, da palavrinha que deu em crítica, & que significa discernimento, o saber separar o joio do trigo. Com essa dificuldade peculiar, em geral se tem o velho esquema de gato por lebre.

No sábado passado o público na tenda dos autores pôde saborear diretamente a melhor poesia que tem sido escrita no Brasil & em qualquer parte deste planeta azul. Sérgio Cohn, editor da Azougue que é amigo de longa data de Fróes, & que também de longa data o tem impulsionado à atenção pública, orientou a conversa-leitura com a familiaridade de quem conhece uma obra até de trás para frente. A base de onde tudo saltou é a recente antologia de sua obra poética publicada pela Azougue, Trilha (poemas 1968-2015), que tem como capa a bela & muy significativa foto batida pela esposa do poeta, Regina.


Fróes deve ser lembrado também por ser uma referência quase onipresente na poesia brasileira escrita por poetas mais jovens, não importa que espécie de poesia escrevam, & isso é igualmente um atestado de sua vitalidade única. Se eu & o também poeta Ricardo Lima o entrevistávamos em 2006 para a revista online Germina Literatura (que traz também um especial sobre Fróes); a poeta Jeanne Callegari me pediu em 2014 que o entrevistasse para uma matéria na revista Vida Simples; Ricardo Domeneck escreveu um artigo sobre Fróes para a revista Modo de Usar, com pequena antologia de poemas em 2011, e convidou o poeta para o Festival Artes Vertentes de 2014; Reuben da Cunha Rocha prefaciou a reedição, pela Chão da Feira, em 2015, de um dos marcos da poesia de Fróes, Sibilitz (1981) - & lembramos que uma das editoras da Chão da Feira é a poeta Julia Hansen -, etc.

Gabriela Capper, Alberto Pucheu e Sérgio Cohn fizeram o ótimo documentário-depoimento de Fróes, Leonardo Fróes: Um Animal na Montanha, que vale a pena ver. Aqui:




Aquele começo de tarde em Paraty, ao lado do rio Perequê-Açu sob um céu todo azul & sol, os barcos coloridos às margens & aquele casario colonial que é a fama do centro histórico da cidade, restituiu às pessoas o seu poeta, como há muito tempo não se via acontecer nesta época em que o mais comum é a velha barreira. Quebrando o protocolo - & a imaginária barreira - Fróes dirigiu-se ao proscênio para se aproximar da audiência & agradecer a cada um pelo encontro. 

Um gesto cheio de poder simbólico, para renovar esperanças em tempos difíceis.

*

Em tempo, Augusto de Campos volta à esgrima com Ferreira Gullar, esgrima que não me interessava até agora, mas diria touché bem neste ponto, acompanhem:

"Para piorar, o Acadêmico Ferreira Gullar acena-me com um prêmio de R$ 300 mil da Academia Brasileira de Letras, que eu deixaria de levar, apesar do seu "placet", por ter criticado a entidade. Ora, somos mesmo pessoas completamente diferentes. Como somos poetas diferentes. Isso, sim, é um insulto. Jamais aceitaria qualquer prêmio, de que valor fosse, vindo dessa instituição, que considero inútil, caduca e até nociva, pelo mau exemplo que dá a cultura brasileira, acolhendo gente que nada tem a ver com literatura –velhos políticos, governantes, empresários e jornalistas conservadores– uma confraria de mediocridades que se chamam despudoradamente de "imortais", envergando fardões, espadas, colares e medalhas. Com raríssimas exceções.

Nego-lhes autoridade para conferir prêmios e prebendas. E encerro com as palavras de um poema instrutivo e fácil de entender: NÃO ME VENDO / NÃO SE VENDA / NÃO SE VENDE."

Xeque-mate.

É outra brisa de ar fresco alguém dizer em público, sem rodeios, o que é a Academia Brasileira de Lesmas. E está cheio de golpista lá dentro, como não poderia ser diferente.

Com raríssimas exceções. 

Um comentário:

Julia Bicalho Mendes disse...

perfeito e muito bonito, querido.

[muito certeiro também o augusto]

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