segunda-feira, 22 de novembro de 2010

LONDRES 1910 - LONDRES 2010

Eu, ao lado de Seated Woman (1914), de Henri Gaudier-Brzeska. Foto: chère Marianne.

Londres tem consciência de muitos de seus tesouros, & pretende cada vez mais ser uma cidade para ser apreciada em sua enorme variedade cultural & de atrações.

Isso é verdade.

MAS, bizarramente, eles não entendem ainda o potencial de seu único movimento vanguardista expressivo, o vorticismo. Na Tate Modern, prédio monumental da estação Bankside, irmã da Battersea, que está na capa de Animals, do Pink Floyd, é onde se lê q estão os vorticistas.

Mas a sala do vorticismo (junto com futuristas & cubistas), que vocês vêem em parte acima, resume-se a algumas pinturas de Bomberg & dois (excelentes) Gaudier-Brzeska. Onde estão Wadsworth, Epstein, Dismorr, Nevinson, Coburn &, sobretudo, onde estão os 24 Wyndham Lewis que sabemos que a Tate tem?

"They're not on display, sir, we apologise", diz um dos educadíssimos guias com o distintivo roxo da Tate.

As galerias têm muitas obras que não estão sempre presentes, manipula-se o catálogo até mesmo para evitar a monotonia do espaço expositivo & para se dar ênfase aqui ou ali, mas é muito peculiar que, na pintura inglesa, que no começo do século XX teve um movimento específico & notável como o vorticismo, a galeria que possui grande número dessas obras as exponha tão pouco.

É um tesouro moderno. Se diferenciavam dos futuristas, as melhores obras de Lewis & as de Giacomo Balla ou Boccioni são muito diversas: claramente, o vorticismo descende do futurismo, mas é um movimento de linhas definidas, de muita estrutura.

É curioso pensar que Londres se transformou, de 1910 a 1914 (qdo começou a Primeira Guerra), passando de vitoriana a moderna em 5 anos. É curioso vê-la nestes cem anos que o excelente livro de Ezra Pound, The Spirit of Romance, comemora, com aquela frase tão profética para o século, & ainda para nós: all ages are contemporaneous, "todas as épocas são contemporâneas".

Nossa mente não é cronológica, ela se guia por padrões que não são os de começo, meio & fim. Era uma nova percepção. E já é história.

14 comentários:

Rafael Daud disse...

Dirceu, essa foto tá demais!
Dá pra ver que vc tá feliz aí e se divertindo, maravilha.
E essa tela aí na foto, à esquerda, ao fundo, o senhor de terno sentado, de quem é isso hein?

Abraços./

Dirceu Villa disse...

Feliz de ver o Brzeska (havia o great horse do Duchamp-Villon & cento altri), mas com a inquietante questão me cutucando, anyway.

O retrato atrás me escapa de quem seja. Aquela parede ia do Bomberg aos italianos do futurismo, passando por umas duas pinturas da Goncharova.

Dando um pulo lá de nuevo escrevo informando.

Abrazo,

D.

Julia Filardi disse...

Aproveitando o ensejo dos 2 últimos posts, relacionados às artes plásticas, qual avaliação vc faz da dita 'arte contemporânea'? Quais artistas da atualidade despertam seu interesse? Se visitou a bienal de sp, o que achou?



Levando em consideração as colocações:

"todas as épocas são contemporâneas".

Nossa mente não é cronológica, ela se guia por padrões que não são os de começo, meio & fim. Era uma nova percepção. E já é história.




Neste sentido, acha que poderemos dizer daqui algumas décadas ou séculos que o que se produz hoje é contemporâneo? Ou, realmente estamos vivendo " a grande feira" como pensam alguns?

Dirceu Villa disse...

Julia,

na verdade "arte moderna" já é um título meio absurdo, não apenas porque arrola coisas díspares sob o mesmo nome, mas porque dota de uma qualidade temporal passageira essa pequena etiqueta artística.

Arte contemporânea, é claro, só piora a configuração. E nela cabem tanto pintores hiperrealistas quanto montadores de instalações efêmeras, quanto Damien Hirst.

Houve uma rachadura na idéia de arte quando desapareceu a noção do artesanato necessário para produzir um objeto de arte, que foi quando, simultaneamente, a sociedade se desfez do valor simbólico das coisas para ficar quase que simplesmente com o valor de compra e venda.

O aprendizado de uma arte desaparece, porque supomos hoje que a arte deve ter espontaneidade, e não conhecimento; desaparece a relação de atrito, mas também de criação, entre quem comissionava uma obra e o artista; desaparece, por fim, a função social do artista (qqer artista, plástico, da palavra, etc), porque, desaparecendo tudo aquilo q listei acima, desaparece o crítico de arte, como desaparece o diletante, aquele que ama a coisa por seu sentido de ampliar sentidos, refinar a inteligência.

Resta, enfim, socialmente, o bom truque, aquele que vai chamar a atenção de marchands, de galeristas, e uma relação próxima com curadores e pessoas ricas que vão fazer o artista ou vão relegar o camarada ao ostracismo em vida. Como o pressuposto da nossa época é o de q não temos tempo, ou q o tanto q dele temos deve ser convertido em dinheiro, apenas a arte com melhor propaganda, e a mais superficial, é a q interessa. Tem o efeito de um jingle de televisão. E vai parar na casa de quem tem dinheiro, movimenta leilões na Christie’s & tudo mais. Devemos lembrar q é um sistema auto-satisfeito: ninguém nele suspeita q existe algo de errado no esquema.

Não acreditamos na palavra qualidade, q deixou de ter qqer sentido. Qualidade em relação a q? E, como achamos q o regime democrático da vida política deva ser aplicado tout court à arte, todo mundo deve ter direito a voto igual, de modo q a baliza da nossa época é meramente o gosto indiferente de uma multidão sem rosto, para dizer q tudo se equivale &, logo, nada importa. Perceba: a noção de conhecimento em qqer setor da arte sumiu, seja na produção, seja na crítica, seja no público: não conhecer nada, apenas gostar ou não, de passagem, é o juízo final. Ou fazem uns discursos sobre Weltanschauung, ou qual é a ideologia de quem fez ou escreveu tal coisa, porque a obra em si é incompreensível. Maiakóvski chegou a perceber isso, q ruiu com seu sonho de uma arte paratodos.

Não estou dizendo q não sobrou nada, estou dizendo como a sociedade vê a coisa hoje, e as expectativas da sociedade. Obviamente, há artistas diferentes disso. Eu mesmo faço o contrário disso, mas é claro também q eu, como uns outros, sou exceção.

Dirceu Villa disse...
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Dirceu Villa disse...
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Dirceu Villa disse...
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Dirceu Villa disse...
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Dirceu Villa disse...

Ahora bien: não fui à Bienal. Já não ia faz algum tempo, pela inutilidade da minha visita, & por tentar evitar o insulto à minha modesta inteligência perpetrado por curadores q escreviam textos insanos para acompanhar & justificar as obras apresentadas. Não tinha vontade de apenas ser surpreendido (se tanto) por um novo truque sonoro, cinético, um novo trocadilho, ou ler, pela enésima vez, “sem título”, ou “composição número 2”, etc, o q se tornou o parnasianismo & a arte acadêmica de hoje, a coisa a ser combatida. Mas não fui à Bienal desta vez especialmente por não ter tido tempo, q no meu caso é tempo mesmo, & não dinheiro.

Creio que os melhores artistas em atividade hoje sejam aqueles que confrontam esse estado de coisas, & portanto são artistas, em geral, que ainda tiveram algum contato com um mundo regrado por convenções mais simbólicas do q as meramente estratégicas de laçar a atenção nômade e superficial das pessoas pra render dinheiro. E isso é raro. Aprecio também aqueles q, embora pertençam de certa forma ao esquema atual, praticam uma arte sutil de verdadeiro ultraje, tão verdadeira & tão sutil q quase ninguém percebe.

No primeiro caso, repito o nome de Enio Squeff, q é um artista fora do comum, não apenas de pintura a óleo em tela, mas em qqer coisa em q se meteu até hoje; no segundo caso, lembro o Chris Burden, com sua escultura objet trouvé Samson (1985) uns macacos industriais que vão de parede a parede do museu, sugerindo na velha história bíblica, q é essa mesma arte q deveria implodir o museu como um templo. Como os velhos futuristas, Burden faz isso com o uso de uma máquina. Mas ninguém dá por isso, entre os visitantes que passam por baixo ou por cima dele em Inhotim, em Minas Gerais: é uma ironia q, em geral, só se torna perceptível com alguma explicação.

Frans Krajcberg é outro artista inteligente: suas esculturas de natureza calcinada não aludem a nada, mas lembram o tempo todo a relação entre natureza e arte (mesmo se acusam a ação humana destrutiva sobre a natureza), sobretudo q a natureza fornece todas as idéias de forma q desenvolvemos artisticamente para nossos propósitos. E alguns de seus trabalhos lembram animais, pedaços de corpo humano, etc. Mas são sobretudo coisa.

Dirceu Villa disse...

Nelson Magalhães Filho, pintor baiano, é outro artista importante. Desenhista notável, suas telas são de cores fortes & dramáticas, & v vê sucessivamente nelas o caminho q tem Odilon Redon, Basquiat, expressionistas alemães, tudo junto, & isso ainda não resolve o assunto. É um daqueles raros casos em q as referências do aprendizado não poluem as obras: dão força para q ela recombine & reproponha aquelas habilidades. Magalhães Filho realmente merecia mais atenção, & boas mostras de sua obra.

É realmente muita pena q ele & Squeff não sejam mais conhecidos.

Enfim: há mais outros, evidentemente. Mencionei alguns outros artistas no texto anterior, q sofreram com o injusto ostracismo, como o Vieira. E há também aqueles q, como Siron Franco, já receberam reconhecimento digno de suas obras. É um equilíbrio difícil, especialmente mal feito por um país como o Brasil, embora o mecanismo seja semelhante em qqer lugar do globo. Subestimamos ainda o qto questões econômicas bastante rudes se tornaram o centro de qqer conversa q se pense séria, o q é um diagnóstico sinistro de onde está a mente coletiva.

Além da TV, é claro, q é onde está a maior parte da mente coletiva, & é de amargar. Se diremos no futuro q aquilo é contemporâneo: penso q diremos isso de alguns, mas a maioria é só o q passa, mesmo. Aqueles q são news that stays news são raros.

Sobre todos os tempos serem contemporâneos: a proposição de Ezra Pound não era algo a-histórico. Queria dizer simplesmente q, se v vive com as Metamorfoses de Ovídio na cabeça, por exemplo, isso é tão contemporâneo seu (ou mais) do q muita coisa q lhe é indiferente & está aí nas ruas. Q havia um sentido em compreender o fluxo mental para além de uma ordem imposta apenas para dar coerência de começo, meio e fim para as coisas, & q era possível estimar obras separadas no tempo numa mesma balança; q isso manteria inclusive ambas as coisas em perspectiva & proporção de engenho.

D.

Julia disse...
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Julia disse...

Oi, Dirceu. Muito obrigada pela extensa e detalhada resposta.

Vc acredita que o Salão de Arensberg tenha influência em tal democracia estendida às artes?

Realmente, o panorama das artes está um tanto quanto empobrecido. Assim como a metáfora de Chris Burden com Samsor, Duchamp propôs uma implosão do já estabelecido, mas as pessoas, parece-me, ficaram paralisadas no meramente conceitual, a ponto, de uma obra, apenas poder ser entendida se agregada à textos, em geral de péssima qualidade, como vc comentou sobre o q se apresenta nas Bienais.

Mas fico pensando tb,se não é melhor,tal excesso de liberdade,quase um vale tudo,assim como se configura o espaço cibernético, do que o inverso. Só é triste o saldo na balança, mais porcaria do q qualidade.

É até um pouco previsível no Brasil, exporta-se o q é tipicamente brasileiro, ou seja, estereotipado, alegre, carnavalesco, como as obras da Beatriz Milhazes, ou Vik Muniz, com suas obras pop. Não se valoriza a formação e nem os bem formados. É quase um jogo de azar.

Gostei muito de suas indicações.Não conhecia Nelson Magalhães Filho,excelente trabalho, particularmente sou inclinada ao expressionismo, então foi um deleite. Já o add no facebook, facilidades da era virtual,rs

Não encontrei um registro sequer sobre Arnaldo Vieira no Google. Vc sabe de algum link?

Sugestão que talvez agrade: Léo Brizola, artista mineiro.Conhece?
Outro pintor que tem chamado minha atenção é o Wilhelm Sasnal.

Peço perdão se me excedi com as perguntas, mas sua visão sobre arte é bastante aprofundada e despertou minha curiosidade.

Obrigada mais uma vez,

abraço

Dirceu Villa disse...

O Salão de Arensberg não tem nenhuma culpa nisso, assim como Duchamp não tem culpa por aqueles que o imitaram: Duchamp estabeleceu um ponto de dobra, não um modelo de exercício.

Esse é um equívoco que tem quase 70 anos de existência. Era um homem muy inteligente, & artista único.

Ele não tem culpa.

Qto à liberdade: cada época se permite um tipo de liberdade, porque não há liberdades incondicionais (como o Dr. House sabe). Mas a q escolhemos não é liberdade, é indiferença: qqer um pode fazer o q quiser porque ninguém liga pra arte, ela não tem efetividade no mundo pq as pessoas foram complemente anestesiadas, lobotomizadas por TV, trabalho, medo, herd behaviour.

Liberdade é sempre um acordo, sempre um "em relação a". O q temos é mera indiferença. É o triunfo da falta de interesse & imaginação, seja nas chamadas artes plásticas, seja na literatura, na música, etc.

E qdo digo “conhecimento”, não quero dizer habilidade de copiar a natureza. Conhecimento é o q todos os grandes artistas partilham num saber artesanal, nas proporções da representação, numa arte sempre interpretativa. O valor simbólico, em outras palavras. A crítica de arte do Apollinaire, por exemplo, deixa isso claro: o tipo de mente aberta q se deve ter ao olhar para algo cujo mecanismo é novo, & põe a mover a arte porque reinventa seus antepassados. Picasso foi um ótimo exemplo.

Dificilmente quem está fazendo esse trabalho pioneiro recebe atenção ao começar a fazê-lo. No Brasil a dificuldade adicional é justamente não haver um meio significativo para essas práticas.

Arnaldo Vieira não se pode achar em lugar algum, infelizmente. Embora tenha recebido atenção da crítica no começo da década de 80 & esporadicamente depois, desapareceu justamente pelo desastre completo do nosso sistema para artes & literatura. Morreu desconhecido.

Grazie pelas dicas, vou ver. E não há q pedir perdão por perguntas, são bem-vindas, é um prazer conversar.

D.

Julia Filardi disse...

Já que vc disse que perguntas são bem-vindas, aí vão mais algumas, mas prometo me conter,rs Se estiver sendo inoportuna, por favor, sinalize.

Bom...

Não que Duchamp tenha culpa, mas ao dizer: “o artista tem o direito de proclamar como obra àquilo que assim considerar.” E depois corroborado por Joseph Beyus,“todo indivíduo é um artista”, não acha que muitos podem ter entendido erroneamente o sentido da proposta dadaísta?

Daí, o conceitualismo ter virado febre e assim repetido inconsequente e exaustivamente.

Jamais desmerecendo o valor artístico de Duchamp, mas sim a forma como foi interpretado.

Outro aspecto que vem acontecendo é a fusão entre as anteriormente dististas áreas artísticas. A música, artes plásticas, teatro e dança, foram perdendo suas delimitações. Temos a poesia visual, a performance, vídeo arte etc. Se não me engano, Pound fala sobre a valorização do que só se pode dizer com maestria através de uma determinada linguagem, por exemplo, o que apenas o cinema pode expressar que outras linguagens não fariam com tanta propriedade. No ABC da Literatura, Pound diz: Em todos os casos o teste decisivo será "poderia o material ter-se tornado mais eficiente em algum outro veículo"?

Neste caso, me pergunto se os veículos anteriormente existentes estavam sendo insuficientes para o q se tem a dizer, já que precisaram se fundir, ou é a febre por novas formas, o novo pelo novo?

Como sua área de especialização é a literatura, poderia me falar um pouco mais sobre o que pensa sobre a poesia visual?




Muitíssimo obrigada...pelas respotas tão elucidativas e pela atenção!!