quarta-feira, 2 de junho de 2010

LO REIS RICHART D’ANGLATERRA


Já escrevi neste Demônio Amarelo sobre a poesia trovadoresca ocitânica, apresentando & traduzindo Peire Vidal & Sordello



(indico também ao leitor interessado os ótimos ensaio & tradução de Rodrigo Lobo Damasceno, postados na Modo de Usar, para uma cantiga de amigo escrita por Raimbaut de Vaqueiras,


sem esquecermos do trabalho ímpar de Ezra Pound com os provençais & das estupendas & várias traduções de Augusto de Campos).

Das canções provençais que conheço são da minha preferência: “Kalenda Maya” de Raimbaut de Vaqueiras; “Chanson do.il mot son plan e prim” e “Lo ferm voler q’el cor m’intra” de Arnaut Daniel; “Can vey la lauzeta mover” de Bernart de Ventadorn; & esta que vocês lêem abaixo, “Ja nuls hom pres non dira sa razon” de Ricardo Coração de Leão, ou Ricardo I de Inglaterra (c. 1157-1199).

Estou falando não exatamente dos poemas (há muitas outras canções trovadorescas que entrariam nessa lista, & em muitos casos não nos chegou a notação musical), mas especificamente da música, naquele preceito de motz e.l son, ou o casamento perfeito (se algum pode ser) entre as palavras & a música.

Lo reis Richart, que tinha possessões na região da Provenza & conhecia trovadores (Bertran de Born, Arnaut Daniel) teria escrito essa canção quando esteve preso na Áustria (1192-1194), mas nunca saberemos ao certo, como sói acontecer nesses casos de distância histórica a perder de vista: o fato é que é uma canção belíssima.

O poema, em si, não se pode comparar com a engenhosidade de Daniel, D’Aurenga ou Vaqueiras, ou com a riqueza de imagens inventadas que costumamos ler em Bertran de Born, Guillem de Peitieu, Peire Vidal, Marcabru, etc. As coblas doblas (ou estrofes duplas baseadas em uma rima) de “Ja nuls oms pres” são simples, os versos decassilábicos (com versos de seis sílabas ao fim de cada estrofe), sem contorções sintáticas nem aspectos lingüísticos de artesanato particularmente notável.

Mas nessa simplicidade absoluta & no modo direto da exposição é que está o seu charme para mim, pois foi escrito imitando (ou sendo de fato) um conciso & eloqüente apelo direto — sem contar, é claro, a melodia extraordinária em que se deve cantá-lo.

Seria interessante comparar este poema de Ricardo Coração de Leão com o que Afonso X, o Sábio, escreve contra a covardia de seus barões & sobre as aflições da cabeça coroada. Mas minha preguiça é terrível neste momento, um momento mais cigarra que formiga, ou o que quer que vos ocorra de semelhante a isso. Perdoai.

A canção, cogita Martín de Riquer & outros antes dele, com bons motivos, teria sido escrita antes em francês. É nessa versão, a francesa, que conheço a música para duas de suas estrofes. Não obstante, a versão provençal é igualmente cantável na mesma melodia: é, no entanto, duas estrofes mais curta (a francesa tem seis ao todo), & a tornada não reúne as rimas do poema, porque reproduz as da sexta estrofe inexistente.

Traduzi da versão provençal, encontrável na antologia de Martín de Riquer, de onde estampo o texto original após a minha tradução. Conheço & tive presente também a versão francesa &, naturalmente, a tradução ad sensum para o espanhol, acompanhada de notas, de Riquer.

Boa notícia: aqueles de vocês que tiverem a canção podem cantá-la também em português, a partir da minha tradução, feita para caber na música. Como a linha melódica é composta para uma estrofe & se repete nas demais, é possível cantá-lo todo.

Duas notas rápidas: o “senhor” de Richard é Philippe Auguste, então rei da França. Tomou Gisors quando Coração de Leão estava preso, em 1193.

A condessa em questão é Marie, condessa de Champagne, & meio irmã (por parte da mãe, Eleonora de Aquitânia) de nuestro Corazón de León.

Por fim, esta tradução é dedicada à minha amiga, a alaudista Carin Zwilling.

Gaudete.


QUAL HOMEM PRESO USARÁ SUA RAZÃO
Ricardo I de Inglaterra: tradução de Dirceu Villa

I

Qual homem preso usará sua razão
corretamente, não com aflição?
mas o consolo me pede a canção.
Rico de amigos, de pobre atenção:
tanta vergonha, não me livrarão?
dois invernos, e eu preso.

II

Pois saibam bem, bom soldado e barão,
inglês, normando, pictone e gascão,
não há parceiro, pobre ele ou não,
que eu deixasse, sem chance, em prisão.
E não digo isso como acusação,
mas ainda estou preso.

III

Sei muito bem, por ver tão claramente,
que preso ou morto é sem nome ou parente;
e se me deixam por ouro somente,
mal para mim, pior pra minha gente,
que à minha morte dirão negligente,
se eu ficar aqui preso.

IV

E põe minh’alma cansada e doente
que meu senhor minha terra atormente
sem se lembrar de uma jura recente
que nós fizemos aos santos, cientes;
mas eu sei bem que nem tão longamente
estarei aqui preso.

V

Condessa, vosso valor soberano
salve Deus, e guarde a bela sem dano,
a por quem estou preso.


JA NULS OM PRES NON DIRA SA RAZON
Lo Reis Richart d’Anglaterra

I

Ja nuls hom pres non dira sa razon
adrechament, si com hom dolens non;
mas per conort deu hom faire canson.
Pro n'ay d'amis, mas paure son li don;
ancta lur es si, per ma rezenson,
soi sai dos yvers pres.

II

Or sapchon ben miey hom e miey baron,
angles, norman, peytavin e gascon,
qu'ieu non ay ja si paure companhon
qu'ieu laissasse, per aver, en preison.
Non ho dic mia per nulla retraison,
mas anquar soi ie pres.

III

Car sai eu ben per ver certanament
qu'hom mort ni pres n'a amic ni parent;
e si.m laissan per aur ni per argent
mal m'es per mi, mas pieg m'es per ma gent,
qu'apres ma mort n'auran reprochament
si sai me laisson pres.

IV

No.m meravilh s'ieu ay lo cor dolent,
que mos senher met ma terra en turment;
no li membra del nostre sagrament
que nos feimes els sans cominalment
ben sai de ver que gaire longament
non serai en sai pres.

V
Suer comtessa, vostre pretz soberain
sal Dieus, e gart la bela qu'ieu am tan
ni per cui soi ja pres.


Para aqueles que gostariam de ler mais, seguem alguns livros de divulgação de poesia provençal disponíveis em português, no Brasil:

Campos, Augusto de. Invenção, São Paulo, Arx.

Campos, Augusto de. Verso Reverso Controverso, São Paulo, Perspectiva.

Saraiva, Arnaldo. Guilherme IX de Aquitânia: Poesia, Campinas, Editora da Unicamp.

Spina, Sigismundo. A Lírica Trovadoresca, São Paulo, Edusp.

Se você lê espanhol, os três volumes de Los Trovadores, de Martín de Riquer, são uma ótima pedida.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

CAT POWER ontem



Ela estava visivelmente cansada; mancando; o microfone falhou em “Ramblin’ Woman”: não importa. O concerto de Cat Power ontem no Bourbon Street, em SP, foi memorável.

O repertório é o das últimas apresentações, isto é, músicas de The Greatest (2006) & de Jukebox (2008), com um ou outro acréscimo de dentro & de fora de sua discografia.

“Metal Heart” quase levou a casa abaixo, em versão pesadíssima (aliás, ela está com uns músicos que gostam de tocar pesado. Achei que até aconteceria de ouvirmos algo de What would the community think?, 1996); “Sea of Love”, diáfana, na voz cada vez mais rouca & sussurrada de Chan Marshall. Ela suava & se curvava, bela & esbelta, sobre o único ventilador no palco.

É a anticelebridade, a antiestrela do rock: desfigura suas canções & as dos outros, impedindo a rotina catártica desse tipo de evento, que no caso dela se torna um ritual quase jazzístico das mais improváveis oportunidades de improviso, como aconteceu especialmente com “I can’t get no (satisfaction)” dos Stones, “I don’t blame you”, de seu álbum You are free (2003), para nem dizer a versão mais bizarra que já ouvi de “The house of the rising sun”, folk que os Animals gravaram & fixaram, por assim dizer.

Marshall dissolve as melodias & frases, fixando-se no núcleo de cada palavra, cantando sílaba a sílaba, no máximo de reinvenção engenhosa imaginável.

Se agita angulosa & irregular pelo palco, desajeitada & incrivelmente graciosa; levíssima, ontem, sobre sapatos brancos à la Julian Casablancas, dos Strokes. Grita, murmura, faz rápidos & quase inaudíveis comentários mordazes, sorri de modo luminoso, cutuca a garganta, reclamando, parece se incomodar com cada interpretação que faz.

(Por vezes, de perfil no palco, lembra ela-mesma, anos atrás: a peculiaríssima garota indie que gravou o vídeo de “Cross-bones style”, de 1998).

No fim, correu saltitante para o camarim & de lá voltou com uma enorme cesta de frutas, lançando uma a uma ao público: cachos de uvas, maçãs, peras, bananas passavam voando enquanto todos gargalhavam da idéia esdrúxula.

Ao meu lado, uma fã ardorosa tentava chamar-lhe a atenção. Cat Power, após lançar as frutas & uma porção de outras coisas, se aproximou.

— Give me something, please! — gritava a garota.
— Yeah, but what? — perguntou, solícita, a cantora.
— Anything.

Daí Chan Marshall, a.k.a. Cat Power, fez um gesto de aguardar com o dedo indicador, virou-se pro palco procurando alguma coisa. Achou o set list, que ofereceu à agradecidíssima fã.

E ela estava cansada.

domingo, 16 de maio de 2010

UNE SEMAINE DE BONTÉ, vários motivos



O título, mes amis, é uma brincadeira. Obviamente, quer também chamar a atenção para o fato de que as colagens de Max Ernst de que falei em dezembro aqui no DA:


estão com seus originais oportunamente expostos no MASP, & são uma obrigação de visita para QQER. interessado em arte. Provavelmente a obra-prima de Ernst, que fez da colagem uma possibilidade de narrativa figurada.

Vista de perto, a precisão dos recortes que faz em sua matéria-prima (ilustrações de contos & romances) & a inteligência em flagrar o subtexto social naquelas histórias burguesas de romances & almanaques, são coisas surpreendentes & notáveis.

Alguns recortes só se vêem se você se posicionar como um insano diante dos quadros, procurando fazer com que a luz ressalte algum milímetro na composição.

Mas esta é uma semana particularmente boa por ainda outras razões: expos. & lançamentos. Notem inclusive que os dias correspondem magicamente às horas de abertura, abaixo.

Enio Squeff, um dos maiores pintores & ilustradores brasileiros, terá exposição de seus óleos, xilogravuras, desenhos & aquarelas na Galeria PontoArt, com abertura no dia 18 de maio.

18 de maio, 18h
Rua Inácio Pereira da Rocha, 246,
Vila Madalena, São Paulo



No dia 19 de maio, Marcelo Sahea lança seu livro Nada a Dizer, da Annablume, na Biblioteca Alceu Amoroso Lima. Sahea estará em SP para o lançamento, que terá sua performance PLETÓRAX.

19 de maio, 19h
Rua Henrique Schaumann, 777
Pinheiros, São Paulo

E há, finalmente, a edição da aguardada antologia bilíngüe Canto desalojado, que compila poemas em mais de trinta anos da obra do grande poeta uruguaio Alfredo Fressia, que vive no Brasil & nunca antes apareceu em português, em livro.

A organização & a tradução são de Fábio Aristimunho Vargas, & o lançamento acontece no dia 20 de maio, na Casa das Rosas.

20 de maio, 20h
Avenida Paulista, 37
Cerqueira César, São Paulo


sexta-feira, 7 de maio de 2010

PASOLINI



Pier Paolo Pasolini (1922-1975) é mais conhecido entre nós como cineasta, de filmes como Teorema (1968), ou Decameron (1971), ou Salò, 120 Dias de Sodoma (1975). Colaborou em escrita de roteiro, com Fellini. Mas foi também ativista político na Itália, ensaísta, romancista &, sobretudo, poeta: "o maior poeta italiano da segunda metade deste século", no caso, o XX, como escreveu sobre ele o romancista Alberto Moravia.

Publicou seu primeiro livro em 1941, modestamente, de próprio bolso, com poemas escritos no dialeto friulano &, mesmo assim, vejam só, naquela época & país conseguiu chamar a atenção de um dos maiores críticos & eruditos italianos de então, Gianfranco Contini.

Tão notório crítico da corrupção na política italiana quanto notório homossexual, Pasolini foi morto em 1975 por um garoto de programa. Essa é a versão oficial das apurações da lei, obviamente contestada por pesquisadores, jornalistas & pelo filme Pasolini: um delito italiano, dirigido em 1995 por Marco Tullio Giordana. A hipótese mais forte é a de crime político, feito para parecer latrocínio, ou crime passional.

Tenho trabalhado na tradução de um longo poema, "Il Pianto della Scavatrice", de Le Ceneri di Gramsci (As Cinzas de Gramsci, 1957). Ponho, abaixo, apenas o início da primeira parte, como um aperitivo. É um poema em que Pasolini emprega uma adaptação engenhosa da terza rima do poema teológico de Dante, & da procissão amorosa dos Trionfi de Petrarca, trazida a representar um outro mundo, bem mais material, dos subúrbios romanos.


O Pranto da Escavadora (trecho inicial)

I

Só o amar, só o conhecer
conta, não ter amado,
não ter conhecido. Angustia

o viver um consumado
amor. A alma já não cresce.
Assim, no calor encantado

da noite que cheia desce
pelas curvas do rio e as súbitas
visões da cidade embaçada de luzes,

ecoam ainda as mil vidas,
desamores, mistério, e miséria
dos sentidos, tornando-me inimigas

as formas do mundo, que ontem eram
ainda a minha razão de existir.
Exausto, entediado, torno por negras

praças de mercados, tristes
estradas em torno ao porto fluvial,
barracos e armazéns mistos

com os últimos prados. Lá, mortal
é o silêncio: e ali, na Viale Marconi,
estação Trastevere, é doce o final

da tarde. E lá nos seus rincões,
nos subúrbios, ligam os motores
ligeiros — vestidos ou só de calções

de trabalho, num impulso de festivo ardor —
os jovens, com amigos na garupa,
rindo e sujos. Os últimos clientes

conversam em pé e em alta
voz à noite, aqui, ali, em mesinhas
de bares ainda luzentes e semivazios.

sábado, 1 de maio de 2010

SORRIA, VOCÊ ESTÁ SENDO SERIGRAFADO


Marilyn Monroe (1967)

Andy Warhol (1928-1987) foi um artista incomum, o que é um dos maiores elogios que se pode fazer a qqer artista. É certamente o único duchampiano que conseguiu sair da sombra de seu debochado mestre & produzir uma obra de brilho próprio.

Cricríticos o entendem mal: Fredric Jameson não compreende nada do que vê em Warhol — mas estou sendo pleonástico, porque Jameson em geral não compreende nada do que vê.

A exposição na Estação Pinacoteca é muito boa, & trouxe um pouco de tudo: as serigrafias (Marilyn, Mao, Geronimo, Campbell's, etc), a instalação das hipnóticas Silver Clouds (1964: alumínio & gás hélio, com vento movimentando as nuvens de prata no alto da sala), filmes como Blow Job, & aquele que filma o Chrysler Building por horas. E mais.


Geronimo (1966)

Estampa excertos de textos & entrevistas, às vezes apenas uma frase cortante & exata, de mordacidade & inteligência a toda prova, através das quais se percebe que Warhol foi realmente o único a de fato compreender o que são os EUA, qual é o cerne da cultura gerada pelo país.


"Sempre achei que políticos e atores resumissem o modo de vida americano", ou quando afirma que mesmo os bandidos se dão bem (sobre a série Most Wanted, em que reproduz os procurados, nesse hábil jogo de palavras), porque o que as pessoas querem são estrelas.

Um capitalista (ou capetalista, como escrevia o demente iluminado do Gentileza) com ponto de vista crítico? Todo esforço de redução de Warhol a algo sem ambiguidades falha miseravelmente, porque não dá conta de recobrir sua arte desconcertante, muitas vezes decididamente grotesca, mesmo qdo. parece adorar o star system.

"Acho que todo mundo devia ser uma máquina", ou "Olhe somente para a superfície, lá estou eu. Não há nada por trás daquilo".

Ambas as coisas são verdadeiras: suprimia espinhas de rostos, porque não é o que vale a pena fixar, & reduz o tridimensional a duas dimensões freqüentemente. Mas é um bidimensional ilusório.

Da série Electric chair (1964)

Por trás — nesse lugar que diz não existir — há uma porção de ambiguidades para o bom leitor. Na série Electric Chair (1964-1965) em que Warhol produz variações de cor & contraste sobre a foto de uma cadeira elétrica, escreve: "mas quando você vê uma foto horripilante muitas vezes ela realmente não tem qqer efeito".

Warhol adota sempre um tom ingênuo & direto para dizer coisas não apenas educadas, mas finamente perceptivas: ele sabe perfeitamente bem que a repetição brutal esvazia as coisas de sentido. É o mesmo mecanismo que emprega inúmeras vezes, & não apenas com coisas horripilantes.

Sua insistência é sempre paródica, deformante, entra no glamour & o desfaz inserindo nele uma tragédia de gestos marcados, de luz direta, de uma crueldade desumana, que mimetiza a publicidade, invertendo-a.

Race Riot (1964)

É engenhosíssimo ao retratar Nixon & nomear a obra "Vote McGovern", em 1972; seu Race Riot, de 1964, é poderoso & ecoa no tratamento que George Romero deu à questão racial no final de Night of the Living Dead, de 1968.


Basquiat



Warhol não foi importante apenas como artista, mas descobriu um dos grandes pintores dos últimos anos, Jean-Michel Basquiat, & não podemos esquecer do Velvet Underground, naturalmente (a capa & o esquema warholiano foi apropriado pelos Dandy Warhols, banda recentíssima. O vídeo de "You were the last high" é cheio de espírito oitentista & de esperto uso de montagem fragmentada, que produz o efeito repetitivo do glamour frio & estranho de Warhol). Apenas para citar duas de suas atividades fora do papel de artista.



Capa de Velvet & Nico por Warhol


Exposição que veio em excelente hora, & deveria ser um modo de começar a fazer com que houvesse um pouco mais de inteligência no modo de entender sua obra.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

FUNZIONA SENZA VAPORE


Yoko Ono & John Lennon, por Annie Leibovitz,
foto que foi capa da Rolling Stone em 1980


Ricardo Domeneck postou uma continuação daquela sua ótima postagem que derivou em um debate triangular, incluindo a mim & ao também poeta Érico Nogueira.

Ele levanta questões & muito sensivelmente as deixa em aberto, para a exploração. Eu estava para postar sobre o documentário em cartaz aqui em SP (com 4 anos de atraso) sobre a perseguição do governo Nixon a John Lennon, & creio que ambas as coisas são convenientes, ao que ajuntarei uma pequena observação que fiz, como poeta, em um outro debate recente.

EUA X John Lennon

Domeneck se pergunta sobre a possível inutilidade atual da poesia, & aventa a possibilidade de que esteja apenas “cansado de pertencer à classe dos artistas absolutamente inofensivos”.

Em princípio, eu diria ao meu caro Domeneck que não se preocupasse, que os bons poetas jamais são inofensivos. É preciso explicar como & por quê, mas, antes, a digressão John Lennon.

O documentário The U.S. vs. John Lennon [Os EUA X John Lennon, 2006], de David Leaf & John Scheinfeld, mostra como se pôs o FBI & o aparelho de Estado estadunidense contra aquele camarada finíssimo que cantava algumas das melhores músicas de sua época & falava insistentemente contra o crime descomunal sendo cometido no Vietnã.

Parece chocante a importância que aquele governo brucutu atribuía à arte de protesto de Lennon, que deve boa parte de sua energia performática a Yoko Ono — assim como Ono deveu a ele o escopo incomum a que sua arte performática foi levada, & a habilidade de se aproximar de um público vasto.

Lennon & Ono se utilizavam, basicamente, de estratégias postas em circulação pelos dadaïstas do Cabaret Voltaire: ao invés do ordinário esquema panfletário que todo mundo usava (de modo mais ou menos eficaz, dependendo da eloqüência flamejante), empregaram um método que consistia em atrair a atenção, não apenas pela imensa popularidade dos protagonistas à época, mas também por um pacifismo de “revolução pela alegria” (dixit Nietzsche sobre como deveria ser uma revolução), inventando atos desestabilizadores, como sugerir que as pessoas ficassem em suas camas, deixando, entre outras coisas, o cabelo crescer.

Ou espalhando outdoors com o dizer WAR IS OVER (reminiscente das manchetes de 1945) & de mínimo subtítulo if you want it; ou fazendo concertos perto de ajuntamentos republicanos; ou espalhando tiradas irônicas na imprensa; ou emprestando sua popularidade para os líderes dos protestos, ou para os Panteras Negras, etc.

Eles incomodaram o poder corrupto & sedento de sangue. Incomodaram a tal ponto que a delicada administração de então tentou expulsá-los do país; por sorte, eles podiam pagar advogados caríssimos, que criaram um meio de emperrar a determinação do governo.

Popularidade

Aí é que está: o que Lennon & Ono fizeram só foi possível porque eram extremamente populares.

Porque moviam milhões de fãs no mundo inteiro, tinham dinheiro & disponibilidade (além de extraordinárias coragem & inventividade), & a mídia corria atrás de qqer. coisa que lhes desse na telha lançar.

Uma efetividade da arte em seu próprio tempo & em dimensões palpáveis se dá apenas nessas condições ideais de temperatura & pressão.

A música popular catapulta alguns de seus artistas (mesmo assim poucos) a essas dimensões. Outras artes, como o cinema, também. A literatura, não.

(Se v. pensou em Paulo Coelho, pensou errado, que Paulo Coelho não é um escritor, mas um imenso conglomerado comercial, como o MacDonald’s).

Por que não?

A resposta mais simples & evidente, a primeira, é: porque é preciso ler a literatura. Mesmo a literatura, ou a poesia, exercida como performance vocalizada, não atinge um público enorme por suas naturais peculiaridade & dificuldade (ver o próprio caso de Yoko Ono performer pré-Lennon).

Para se ter um público & operar diretamente nele é preciso ter um trabalho popular. Para se ter um trabalho nesse nível de popularidade, a coisa não pode ser difícil, deve ser possível entendê-la quase de imediato, & em larga escala, cobrindo várias faixas de público ao mesmo tempo.

Os poetas querem ser difíceis? Eles querem afastar suas chances de ganhar uma fortuna & ser lidos pelo mundo?

Creio que não, creio que nem mesmo eles seriam tão estúpidos, mas penso na minha própria poesia, também: é como percebo a linguagem, como sou capaz de registrar determinadas coisas, ou padrões, é o sentido que tenho de um fazer, & nada faço para complicá-lo. É como é, ainda que as pessoas olhem & decidam que não entendem, nem querem entender.

Qui possum facere? disse o cordeiro ao lobo na fábula antiga — e aqui já deslizei sem querer para um latim, bobo & elementar, mas que atrai narizes torcidos & torcicolos.

Ainda assim, uma performance vocal tem mais chance de chegada em um público mais vasto. Um trabalho plástico, mais ainda; música popular, ainda mais; cinema estadunidense: v. é um deus nesta terra liliputiana.

Alcance & escopo

Mas tem o seguinte: não é pela falta de popularidade, da efetividade in loco, que uma arte como a poesia pode ser imaginada como algo inofensivo.

Em um debate sobre poesia, faz pouco tempo, surgiu essa questão muito normal de para quê a poesia? O pressuposto era o contingente minúsculo de leitores dessa arte, prima pobre das outras artes bacanas.

Se a poesia exige tanto & atinge tão poucos, não seria algo realmente inútil, fútil, ineficaz, talvez mero efeito de inércia cultural, & anacrônico?

Foi aí que eu entrei. Não pelo meu envolvimento hipoteticamente emocional como poeta moi-même, mas porque me parecia que as pessoas estavam agindo — embora com a justiça de querer saber — meio ansiosamente.

Daí eu disse que parassem para pensar em como concebem a realidade à volta. A quem devemos nossas idéias de como é o mundo? A filósofos & a artistas de toda espécie.

Nossa imaginação & mesmo nossa consciência formal do mundo é continuamente moldada pelas artes & pela filosofia (laica ou religiosa).

O que os impenetráveis poetas modernos inventaram está cada vez mais se tornando o modo como pensa & age mesmo a mais desligada pessoa imaginável. As concepções de uma percepção fragmentária, cumulativa, poliglota & descentrada estão virtualmente por toda parte, hoje, embora fossem coisas muitíssimo recessivas quando surgiram.

Com “recessivas” quero dizer: meia-dúzia de pessoas estava atenta a essa arte QUANDO ela acontecia. Os demais liam sonetos de almanaque, escandidos nos dedos, com rubim aqui & ali & com verso d’oiro no final — isso qdo. quando liam alguma coisa.

Zero de percepção.

A percepção de uma vanguarda perceptiva demora a ser incorporada, assimilada. Não se pode esperar que essa arte, por melhor que seja (& sobretudo se for a melhor), tenha um efeito muito definido na realidade do momento em que se faz.

Onde estão as pessoas para notá-la? Elas ainda não existem. Ou estão sob a anestesia social que torna o mundo manipulável por políticas (o q. não vai mudar, porque o acomodado é o acomodado & disso todos sabem).


"Your own, personal Jesus, /someone to hear your prayers/, someone who cares".


Lennon, Depeche Mode, poesia

Voltando a Lennon: ele teve de se tirar da proporção humana para enfrentar algo igualmente desproporcional. Para isso, sua peculiaridade natural teve de tomar contornos mais largos, inclusivos, ele teve de se tornar uma bandeira onde coubesse muito, & um alvo para uma bateria antiaérea que ia de governos poderosíssimos ao anônimo idiota com uma arma na mão.

É a proporção do mártir, & um mártir achata suas próprias ambigüidades humanas & artísticas porque serve a uma causa, em geral a mais nobre possível, uma causa límpida, justíssima, sem sombra.

Um artista tem seu direito à ambigüidade & ao sombrio, tem seu direito de não ser seguido por quem quer um messias, ou um personal Jesus, como o Depeche Mode já descreveu tão bem (& que agradou de Johnny Cash a Marilyn Manson).

Por mais que uma ação nobre tenha repercussão, o artista está tensionando uma corda muito delicada, algo de que ele mesmo entende pouco, porque está fora de seu alcance, & do alcance de qqer. um.

A abnegação exigida para isso é sempre um desafio notável & em geral trágico, mas o contorno desproporcional de pureza que isso exige juntamente é falso, é um efeito de veracidade produzido circunstancialmente & que produz depois sudários & peregrinos.

Um artista — ou este artista — desconfia.

E, desconfiando, pensa numa arte de efeitos talvez mais modestos a curto prazo, mas mais complexa em sua natureza ambígua, & com mais raízes nas consciências a longo prazo.

Eu diria, simplificando: a poesia nunca é inofensiva. Ela é a maior força da História, a mais complexa & arcaica. E ela plasma a vida mental mais repleta de energia, que por sua vez plasma a realidade.

A poesia é discreta, em geral, não faz fumaça, mas o que é poesia hoje é realidade amanhã.


But all this is folly to the world.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

De leões japoneses, Anne Carson & mulheres

A poeta canadense Anne Carson

Anne Carson (1950) escreve coisas peculiares, muito complicadas às vezes. Às vezes formalmente, nessa pele intrincada da poesia, mas sobretudo no modo de significar. Cruza áreas sem contato, enfia o ensaio na poesia, mescla um estilo fake de reportagem, adota o poema em prosa, etc. etc.

Professora & tradutora dos velhos gregos (sobretudo Safo), alcançou fama, ou o quanto disso exista em poesia, apreciada por um espectro de gente que vai de Susan Sontag a Nicole Kidman. Nem sempre acerta, mas seus erros são instigantes porque são fruto de uma verdadeira inquietação, de um empurrar de limites.

Sei que esse não costuma ser um argumento muito persuasivo, mas ninguém é de ferro. Ponho abaixo um poema que traduzo de um de seus livros, Men in the Off Hours (2001). Carson costumava ser retirada, silenciosa. Parece que agora tem uma faceta performer também. Não sei, nunca vi. Mas sua poesia me parece ter a medida justa de alguém que se entupiu da arte antiga, & que é não obstante novíssima.

Ponho um poema dos menos esquisitos dela, mais por sua extrema força advinda da simplicidade & da exatidão, que mimetizam a delicadeza certeira de seu tema plástico & metafísico.

Katsushika Hokusai (1760-1849) é o maravilhoso gravador, do século XIX, do ukiyo-e japonês, aquela xilogravura especializadíssima, que exige nada menos do que um mestre, & ele deixou obras-primas, como a famosa série de 36 vistas do monte Fuji [Fugaku sanjurokkei], além da grande onda, & além de sua série de flores, seus pássaros, quedas d'água, os poemas explicados, o surimono, etc.

Nesse caso, Carson se remete a seus anos finais, em que passou a desenhar um leão por dia. Esses leões eram crença de combater o mal & a falta de paz. Diríamos que, artisticamente, estava matando um leão por dia.

A sanidade pode custar mais. A arte, não menos.

PS: aproveito o ensejo & reforço a sugestão de leitura de Ana Rüsche em seu blog Contrabandistas de peluche, & aponto os leitores na direção da revista Modo de Usar & Co., onde Ricardo Domeneck põe o ensaio & antologia "A textualidade em algumas poetas brasileiras do século XX e início do XXI". Ici:



HOKUSAI

Raiva é um fecho amargo.
Mas é possível abri-lo.

Hokusai aos 83
disse,
É hora de fazer meus leões.

Toda manhã
até morrer

219 dias mais tarde
ele fez
um leão.

O vento vem numa lufada a noroeste.

Os leões oscilam
e saltam
dos topos

dos pinheiros
para

a neve da estrada
ou colidem
um com o outro
sobre sua choupana
suas patas brancas

esmagando estrelas
caminho abaixo.

Continuo a desenhar
na esperança
de um dia pacífico,

disse Hokusai
enquanto rugiam ao fundo.