sábado, 25 de setembro de 2010

CHARLOTTE GAINSBOURG . IRM


Terceiro disco de Charlotte Gainsbourg, IRM, de 2009 (em parceria com Beck), é algo a se ouvir: ou seja, ela não sai por aí apenas barbarizando como no Antichrist do Lars von Trier, nem é aquela manjada caricatura da "cantriz": é ouvi-la cantando "in the end", par exemple.

Herdou coisas boas, a gente percebe, dos pais Serge Gainsbourg & Jane Birkin.

E Beck curiosamente soa como David Bowie na desde já obrigatória "heaven can wait".

Disco redondo.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

IL MAGNIFICO & lançamento duplo

Andrea del Verrocchio, Busto de Lorenzo de' Medici (c. 1480, terracota), National Gallery de Washington

É claro q quase me esqueci de uma porção de coisas. E ainda outro dia falava sobre a memória, etc.

Aqui vão duas delas: Victor del Franco, editor da revista digital Celuzlose, me pediu um texto com traduzioni sobre um poeta das antigas, à minha escolha. Pensei & decidi q seria Lorenzo de' Medici, seja porque sua poesia sempre for importante para mim, seja porque é uma beleza, ou porque — va savoir — pense q há algo ali necessário hoje.

"Necessário" é algo bem diferente, no meu dicionário, do q costumam dizer por aí.

A quantidade de poetas soi-disant q escreve poemas sobre a linguagem — ou a poesia, em abstrato — é tão grande q suponho seja educativo ler um desses ancestrais escrevendo poesia até mesmo filosófica com atenção para as coisas, & não atenção na pose existencial de boina & mole discurseira balofa.

Escrever sobre qqer coisa NÃO É POESIA, é um catálogo de intenções.

O parnasianismo de hoje — digo, aquilo contra o q qqer poeta com um mínimo de miolos se insurgiria, se de fato houvesse algo parecido com a velha vanguarda — é realmente a conversa fiada sem forma q quer ser bacana.

Esse é o parnasianismo de hoje, tão oco & tão clichê qto seu tolo ancestral fin-de-siècle. A única diferença é q hoje a lengalenga está empoleirada na bandeira do "plus quam modernus", & as pessoas costumam engolir porque, ora essa, como saber o q realmente presta?

É como aquela luta q retrata tão bem o estilo bronco da nossa época, o vale-tudo.

Deixo o link da Celuzlose número 6, & um dos sonetos de Lorenzo, infra. De qdo o soneto, aliás, não era ainda mero tique q acionava os, ah-ham, poetas a pôr a massa naquela fôrma comprada na 25 de março, como acontecia com, entre inúmeros outros, Antero de (re)Quental.

Lorenzo: "Lascia l'isola tua tanto diletta".

Deixa aquela ilha tua tão dileta,
deixa o teu reino belo e delicado,
Ciprina deusa: vem sobre o relvado
suave e verde em que um riacho deita.
Vem a esta sombra que a brisa espreita,
fazendo murmurar todas as árvores
ao som doce e amoroso de suas aves
e que esta por sua pátria seja eleita.
E se tu vens a estas claras linfas,
traz teu amado e caro filho contigo,
que aqui não se conhece o seu valor.
E tolhe a Diana as suas castas ninfas,
que agora seguem leves, sem perigo,
pouco prezando a virtude do Amor.


Enquanto isso, madre de dios, amanhã haverá o lançamento duplo dos livros de Ana Rüsche & Fábio Aristimunho na Casa das Rosas. Eu & outros leremos poemas dos dois autores, & después haverá, por supuesto, os autógrafos & toda a coisa convival no café ao lado.

"Nós que Adoramos um Documentário", de Ana Rüsche
"Pré-Datados", de Fábio Aristimunho Vargas

16h APRESENTAÇÃO DOS LIVROS
Mediação: Beatriz Galvão
- Renan Nuernberger
- Silvana Pessoa

LEITURA DE POEMAS
- Andréa Catropa
- Berimba de Jesus
- Dirceu Villa
- Maiara Gouveia
- Paulo Ferraz
- Rafael Daud
- Roberta Ferraz

18h Autógrafos no Café

Os livros serão vendidos a R$ 22,00.

Casa das Rosas - Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura
Av. Paulista, 37. Estação Brigadeiro do Metrô, próxima ao Shopping Paulista
Tel.: (11) 3285.6986 / 3288.9447,
contato.cr@poiesis.org.br

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Nogueira, Rüsche & FLAP


Acabo de ler dois livros recém-lançados: Dois (é Realizações), de Érico Nogueira, & Nós que adoramos um documentário (Ourivesaria da Palavra), de Ana Rüsche. Na verdade, li o primeiro antes de sair, pq escrevi o prefácio, ou a apresentação.


Érico Nogueira nasceu em 1979, & a gente supõe q desde lá está bebendo latim & grego, como aqueles garotinhos bebiam da loba romana. Nos conhecemos, como ele mesmo descreveu elsewhere, em 2005, corrigindo redações do ENEM.

(O ENEM seria, naquela época, um ótimo mapa da educação SE alguém no governo quisesse os resultados de tanto dinheiro empregado como um roteiro do que fazer para pôr a casa em ordem. Mas eles queriam números para estatísticas, os velhos & imortais burrocratas).

Papeamos então sobre uns dramaturgos gregos, talvez também Orazio ed Ovidio; Nocaria já era do tipo que diferencia grego ático de eólico facilmente, embora muy jovem. Ele havia escrito uns sonetos ingleses q tinham, na verdade, uma nervura horaciana, & q apreciei, pq lá estava alguém q escrevia algo vivo, com tantas camadas de sombra.

Camarada realmente esperto, & ótima conversa fluida & fácil, com q v simpatiza de imediato.

Después publicou seu primeiro livro, o de Scardanelli, o pseudônimo daquele demente, o Hölderlin (escreveu aqueles fragmentos inacreditáveis de hinos qdo, dizem, estava louco, Goethe & Schiller não entendiam nada), q E.N. emulava nos poemas q começam o volume (& reaparece no novo livro no diálogo com o poema "Pão & Vinho"). Podia parecer aprendizado, mas a verdade é q já era mais do q aprendizado. D’accordo, havia alguma roupa de época na coisa, MAS o fato é q estava claro q daria em mais do q isso.

Dois, q Érico me enviou para ler, já é o “mais do q isso”: notável a energia dos seus versos, notável a linguagem elástica, notável a velocidade de associação, sem nem dizer um estilo próprio de notação fragmentária do diálogo em um poema como “Deu Branco".

Aprendeu com Horácio a medida, mas não para repetir Horácio; Basil Bunting (mais moderno impossível) havia aprendido la stessa cosa com o velho Horácio, q resultou em algo igualmente diverso.

O novo livro é um prazer de leitura, informada ou desinformada: ágil, de versos sólidos, & v aprende coisas pq ele tem o gosto da sentença, da sugestão gnômica, & isso desde o primeiro livro. É muito raro de se achar. E é difícil encontrar um uso mais decididamente atual de uma maestria tão evidente na métrica regular (de octossílabos, decassílabos, alexandrinos, várias formas estróficas), algo para q muitas pessoas torcem o nariz. Como já escreveu Machado de Assis, endireite o seu nariz.

Estou atento ao q Érico faz, & sugiro o mesmo às leitoras & aos leitores (todos igualmente raros) de la poésie. Um trecho de "Deu Branco":

3.

Dizer “yo tengo miedo” ou “no, no puedo, gracias”
não vai salvar-te por estar em espanhol,
não vai mudar bulhufas: sim, tá sim chovendo
e tu parado aí, com tudo por fazer,
pensando – logo tu – “sou um torrão de açúcar”;
sair de casa, então, que outro remédio, e ali
na esquina “um táxi, um táxi, um táxi” é como um mantra
até que um táxi passa, “aonde? – aeroporto”;
“pra Roma agora – o próximo demora ainda,
Atenas serve? – agora? – neste mesmo instante,
embarque imediato e, ah, incondicional –
ah, sei, internacional – cada um ouve o que quer –
(mulher maluca) – (otário) por aqui, senhor”;
aqueles versos alemães ’tão na maleta:
é só abrir e ver o mar socando a escarpa,
e aquele monte, ou aqueloutro, de coroa
de neve na cabeça, e muita uva e o brilho
da Grécia de presépio desses alemães.



Conheci Ana Rüsche (nascida em 1979, também) qdo. entrou em contato comigo, por e-mail, também em 2005, para q eu participasse da FLAP, um festival de poesia aqui de SP q não era (logo percebi) a estupidez rotineira onde v põe enfileirados uns idiotas midiáticos, dublês ruins de escritores. Só o fato de alguém bizarramente entrar em contato comigo para participar já mostrava certo comportamento recessivo na lit. bras.

A FLAP, percebi, chamava escritores & críticos (muitos deles jovens, mas não só), reunia essas pessoas em mesas, inicialmente lá nos Satyros da Praça Roosevelt, esquema grego de anfiteatro, direto diante do público q entra gratuitamente, & pronto.

Temas polêmicos, discussões verdadeiras, uma variedade de orientações, leituras memoráveis. Fiquei muito bem impressionado: falei o q quis & me chamaram para outras edições do festival, o q me deixou chocado com a disposição dos organizadores.

Trocamos livros naquela ocasião, eu & a Srta. Rüsche, & foi assim q descobri na poesia da jovem autora coisas ótimas: uma audácia engenhosa, epigramas, poemas dramáticos, ironia fina. Se v encontra inteligência de linguagem, uma desconfiança saudável & velocidade mental, v deve continuar lendo. Rasgada era um livro de estréia, sin duda, mas um livro de estréia q mobiliza o leitor. Havia algo século XVIII reinventado lá, algo germânico, q ainda não sei explicar direito, talvez a malícia formal & a objetividade.

Publicou depois, em 2007, Sarabanda, um livro ácido, muitíssimo divertido, especialmente o louco poema do Unabomber. Cheguei a traduzir para o inglês alguns de seus poemas, incluindo o “lugar-comum 10: Salomé”, do primeiro livro, para a publicação na revista novaiorquina Rattapallax.

Enfim: este novo livro tem alguns de seus melhores poemas. O documentário do título, q pega uma adjacência irônica de como situar realidade & ficção a partir da memória, & do registro da memória, é uma piscadela para quem lê.

São poemas belos, comoventes, nunca piegas. Há uma tristeza naqueles poemas de linguagem conversacional (curiosamente um outro estilo de registro da língua falada, paralela & diferente da de Nogueira), q destilam o estilo pontudo e incisivo dos outros livros num verso mais longo, & em simpatia humana, q me lembra aquele dictum cervantino q achamos no Don Quijote: “aprendi a paciência na adversidade”.

Dividido em três partes, ligadas pela cidade de Ubatuba (com caiçaras, turistas, a água & Mnemosyne auxiliando a poeta), finge uma biografia q é & não é, o familiar estranho daquele sábio Heráclito. Aparecem motoboys, pesadelos hospitalares, a laranja solar de Louis Zukofsky, Alberto Guzik in memoriam no Monólogo da Velha Apresentadora, de Mirisola.

O livro é a resposta da vida à morte. Um poema, exemplum:

II, 3

caminhava por onde não devia
em hora ingrata, coisas que surgem,
coisas que acontecem, que criam vida
já morta e te engolem mastigadinho.
e vc caminha por onde não devia
com aquele medo idiota de vítima de uns trocados
tua sorte está na avó das tempestades essa noite
toró que assopra o frio onde jamais haveria
soterra os trópicos e suas felicidades em água negra.
agora patinhando nas poças que crescem em agressivos
vazios de câncer, metástases do esquecimento fuligem,
nenhuma malfeitora agora colocaria as mãos em vc
poderia cruzar intacta uma torcida enraivecida,
com seu ônibus a naufragar num ódio estranho,
caminharia entre árvores escurecidas e lameosas
escuridão tão inócua quanto a nota de um real
quando nunca mais circulará, moeda fora de um país,
mas que veio do pó dos ossos serra pelada
que comprará pó de osso branco de menino que avoa, aviõezinhos
os seguranças também voam, voam rasantes em capas de chuva
os únicos que realmente sabem o que significa um terno preto
e você caminharia por onde não devia
a tremeluzir de frio e segura, tão segura na sopa de água negra
mastigando os dentes e bendizendo a sorte
e agradecendo, a gente tem que sempre agradecer

eeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee***


Não falo do livro de Donizete Galvão pq, hélas, ainda não o tenho.

eeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee***

Notícia: a FLAP 2010 já está para começar. No blog do evento se podem achar um texto de abertura de Alfredo Fressia, informações dos organizadores Maiara Gouveia & Rafael Daud, & uma retrospectiva. Aqui:

http://naflap.wordpress.com/


sábado, 28 de agosto de 2010

nós, os mentirosos



os dedos de ambas as mãos como em argamassa
ou mesmo em bronze convertidos pedem, imploram
sob a voz uma crença, um sicut, um amen, etc.
tramam o terror na toalha quadriculada,
apontam os lápis com estiletes, como armas.
a delicadeza dos verdadeiros gestos falsos
comove:

eeeeeehá os que mentem em proveito
próprio, os que mentem por amor, os mentirosos
da malícia ou da miséria; os alegres mentirosos
da invenção hipnotizam a dor em prazer,
sopram flores refeitas das pétalas perdidas,
cantam o suplício dos dias com doçura.
eeeeeea mentira me ama e acaricia; a mentira, minha dama,
minha droga, me dá mil vezes mais
do que lhe dou: dança demorada, dourada
de prazer e vida, como amante nua que diz
que lhe quer agora para sempre e nunca mais,
lhe dá e lhe deixa para depois voltar
como mau hábito renovando o ardor
em dias mornos, de caneta em calendário.

eeeeeecultivar a invenção para viver, e inventar
planos e mapas de um lugar a conhecer;
os mentirosos são mais que humanos, ou menos,
se mesquinhos. mas mentira, se arte, escreve sobre
a convenção como, num papel, a invisível tinta de limão:
quem lê a vida sempre ao fogo, e que o fogo a leve.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Butter & Bread


Eu, após um pouco de ópio numa alcova oriental. Como sair dessa vida?


Julia Santini fez um ótimo trabalho: quase pensei em me aposentar do espaço depois de ler sua postagem. E ela não me deixava em paz, também.

Mas Donizete Galvão vai lançar livro novo em breve, a Bienal do Livro bate recordes neste país que não quer nem sabe ler, foi lançado o Almanaque Lobisomem, & a revista Épouca em desespero de causa lançou um daqueles dossiês “Dilma: quem te viu, quem te vê”, etc.

A baderna usual, q põe uma pessoa pensando sobre o peso relativo q a realidade (ou aquilo que um garoto de dez anos aprende a chamar “realidade” abstratamente) deveria desempenhar na vida comum do honesto & modesto cidadão brasileño.

Q pobre a nossa definição de realidade, a coincidir com debilóides vespertinos na TV. Um tempo sem filosofia, o nosso. O osso, o nosso.

Arredondando o assunto, escrevo algumas linhas a partir deste meu bunker florido, bibliotecado, com um computador respirando soturnamente na escuridão.

***
O único stand que achei interessante na Bienal do Livro; um tédio, o resto

Não é possível — embora pudesse ser desejável no mundo imaginário do Dr. Pangloss — postar com muita freqüência, pq sou uma daquelas pessoas insanas, cheias de teorias da conspiração, & desconfio discretamente do jornalismo.

“O q isso tem a ver, pazzo?”

Não acho possível algo de qualidade aparecer com freqüência semanal, ou quinzenal. Freqüência diária é simplesmente um modo humorístico muito espirituoso de apresentar o assunto para as pessoas educadas rirem de se mijar. Não é possível. Artisticamente falando, ao menos, não.

(Excluímos as notáveis exceções q podem ser exemplificadas com Rainer Maria Rilke escrevendo pilhas de poemas em 1923, se bem me lembro, tomado de um espírito de época cheio de belas frases evocativas & úmidas apóstrofes românticas).

Nós vivemos um período muito ansioso, um período de roedores de unha.

Mal as pessoas começaram a pensar numa coisa (a gente supõe q às vezes o façam) vem outra em cima, attention span de porcentagem desanimadora.

Aquele velho chato, rancoroso, vadio, solitário & misógino do Schopenhauer tinha razão em ao menos 1 coisa, q vem a ser: “Para esquecer um livro, nada melhor do q ler outro em seguida”. (Pra q ninguém diga futuramente q só falei mal do Schopenhauer, q, aliás, tem uma boa dialética erística disponível no mercado).

Ou se pode comprar um monte de 15 livros para tapar uns buracos na parede, & não ler nenhum, o q chega a dar melhor resultado & faz bonito nos números de pagantes de uma bienal do livro. Ou comprar duas dezenas de livros q não têm 1 milímetro cúbico da dignidade da árvore sacrificialmente cortada (ainda o fazem ou é tudo de plástico já?) para editá-lo.

Esses a pessoa pode ler à vontade: não aprenderá nada com eles, não correrá o risco de vir a ser outra após a leitura.

Anyway.

***


Donizete Galvão lança novo livro de poemas no dia 26 deste mês frio de agosto em SP, & convida todas as simpáticas pessoas ao lançamento, naturalmente, q vai acontecer na Livraria da Vila. Q vila? Nenhuma, a da Al. Lorena, dear ones.

D. Galvão é um dos melhores poetas brasileiros em atividade. Seu escopo de simplicidade não deve enganar o bom leitor, q deve ler textos pelo q são.

D. Galvão nunca se meteu a bancar o bacana da moda, ou a escrever besteiras estilosas & vazias como alguns pastéis de feira.

Sua dicção é discreta, a do registro da atenção detida.

***


"Oh ... meu Deus, não, não, você não entendeu... eu juro q não sou um crítico literáro". Too late, buddy.



E sai o Almanaque Lobisomem, com 300 pp. q deverão, suponho, levar 1 ano para se ler decentemente SE se quiser digerir a coisa direito, & não como o apressado homem lobo dos bosques costuma fazer com sua fast food.

Publicaram uma entrevista comigo (segue abaixo uma prévia), alguns poemas meus inéditos q se seguem ao Icterofagia, um artigo q escrevi sobre o cinema de Lars von Trier & + um ensaio & tradução q fiz de Peire Vidal, trovador-lobo.

Diversão garantida & seu dinheiro nada tem a ver com isso: ponho abaixo a lista de outros ilustres escritores presentes no almanacão de férias para ustedes, & o link pra baixar a coisa no estilo guerrilla — ora, direis, gratuitamente.

Lobisomem:
Qual a função do uso, em seus poemas, de extenso vocabulário em latim, francês, alemão, italiano, grego etc. Qual o motivo do português brasileiro nunca ser suficiente? Teremos sempre que usar o Google para ler um poema de sua autoria e entender as citações?

Dirceu Villa: O português não é suficiente porque sou lingüisticamente promíscuo. Tentei clínicas de reabilitação, mas foi tudo inútil.

Não creio que diria a palavra “extenso” para o uso de língua estrangeira nos meus poemas, e isso pode ser uma afirmação até estatística: é um emprego ocasional, que obviamente tem a ver com a função que a coisa desempenha lá.

Até o século XVIII, quando o Ocidente partilhava inteiro um mesmo princípio de composição poética, um poeta como Gregório de Matos podia emular retoricamente Góngora porque isso seria percebido (às vezes, os espíritos de porco o acusavam de roubo, porque ainda não pensavam em plágio) como um engenho, uma qualidade que punha em circulação a cultura poética.

Incorporar uma referência hoje funciona de maneira completamente diferente, e faço isso de modos muito diversos: escrevo o poema discretamente na mesma forma, mas com as minhas palavras, uso o mesmo ritmo, emprego uma palavra que remete a um poema ou poeta específico, uma epígrafe, ou mesmo, como você assinala, enfio trechos em língua original no meio. E de outros modos, cuja lista exaustiva nos deixaria exaustos.

Cada um desses modos tem um sentido pontual para cada poema, e ler isso a rodo não funciona. Muitas vezes distorço o significado original, ou modifico algumas palavras.

Às vezes, porque é mais dramático acertar o leitor direto na fonte lingüística de um conceito, ou porque é preciso deslocar seu ato de leitura com a intromissão da língua estranha; outras, porque não seria possível conseguir o mesmo efeito simplesmente traduzindo, ou fazendo uma paráfrase, como por exemplo, das palavras musicais em latim no relevo “Cantoria”, de Luca della Robbia, em Florença, que aparecem em “Multis per maribus”, um poema inteiro de referências greco-latinas, e mediterrâneas, que se abriram a partir de uma observação muito direta da vida e que têm seu sentido nela. Etc.

E isso é também o sentido desses poemas: perceber que muitas vezes aquilo que pensamos com distanciamento meramente museológico ou geográfico é, na verdade, vida tão palpitante e presente quanto algo muito intenso percebido em experiência quotidiana.

O que não há é gente para dar por isso, como diria o Fernando Pessoa. E, para ser muito franco, esse modo de registro da referência que você comenta nos meus poemas é apenas mais explícito, mas se se quer ler poesia, é preciso estar atento: não se lê Pessoa, Drummond, Sá de Miranda, nem qualquer outro grande poeta se não se percebe o uso que fazem de suas referências.

Pessoa faz um heterônimo inteiro responder passo a passo às Odes de Horácio, e se você não lê isso, não leu os poemas; Drummond escreve a “Máquina do Mundo” com múltiplas remissões de técnica do verso a Dante, à tradição italiana, a Camões, usa imitação de ablativo absoluto do latim, usa a escala da magia natural para o mundo sublunar (e é apenas 1 dos numerosos poemas dele a integrar um poderoso esquema de referências articuladas para um sentido); Sá de Miranda propõe diversos enigmas de sentido que vão de notações astronômicas a antigas cartas de baralho milanesas, antecessoras do tarô. Se você não percebe, não desfrutou tudo o que o poema oferece.

Grandes poetas, mesmo quando parecem muito simples e pedestres, são complicados. Ler bem é ler essas sutilezas de dicção, essas aproximações técnicas, o sentido da orquestração de múltiplas camadas de sentido e referência. Senão é como ler propaganda de banco num cartaz ordinário, é um trapo imprestável de linguagem, informação oca e sem vida.

Por isso não adianta usar o google para ler os poemas. O google é um instrumento útil, mas preguiçoso e pobre, da chamada “era da informação”, que baniu o conhecimento (a gente supõe que se entenda a diferença entre uma coisa e outra). E, muitas vezes, infelizmente para vocês, leitores, desfiguro as citações além do que se pode achar com proveito explicativo no google.

Almanaque Lobisomem: você pega o seu aqui:

http://rapidshare.com/files/412611585/lobisomem.pdf.html

ADBUSTERS + ALBERTO MARTINS + ALFRED DÖBLIN + ANDRÉ FERNANDES + ANDRÉA CATRÓPA + ANNE SEXTON + ARNALDO ANTUNES + AVELINO DE ARAUJO + BANKSY + CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE + CARLOS MARIGHELLA + CHRISTIAN MORGENSTERN + CORINGA + DIEGO DE SOUSA + DIEGO VINHAS + DINIZ GONÇALVES JÚNIOR + DIRCEU VILLA + EDUARDO GALEANO + E.E. CUMMINGS + ÉRICA ZÍNGANO + FABIANO CALIXTO + FABIO CAMARNEIRO + FABRÍCIO CORSALETTI + FABRÍCIO MARQUES + FERNANDA SERRA AZUL + FLÁVIO RODRIGO PENTEADO + FLORA ASSUMPÇÃO + GABRIEL PEDROSA + HEINRICH BÖLL + HELIO NERI + HERIBERTO YÉPEZ + HERSCHEL PINKUS YERUCHAM KRUSTOFSKI + JEAN STAROBINSKI + JOHN ASHBERY + JOHN ZERZAN + JIM MORRISON + JULIANA AMATO + JULIANA MARKS + JÚLIO BARROSO + KAREN REVISITED + LAURA WITTNER + LAURIE ANDERSON + LEANDRO RODRIGUES + LEDUSHA + LEONARDO MARTINELLI + LETÍCIA COSTA + LILIAN AQUINO + MARCELLO VITORINO + MARCELO FERREIRA DE OLIVEIRA + MARCELO MONTENEGRO + MARCELO SAHEA + MÁRCIO-ANDRÉ + MARIANO MAROVATTO + MARÍLIA GARCIA + MÁRIO BORTOLOTTO + MARIO SAGAYAMA + MARCO BUTI + NICK DRAKE + NICOLAS BEHR + NÍCOLLAS RANIERI + PABLO ORTELLADO + PAULO RODRIGUES + PAULO STOCKER + PATRÍCIA AUGUSTA CORRÊA + PEDRO GALÉ + PRISCILA MANHÃES + QORPO-SANTO + RENAN NUERNBERGER + R. PONTS + RICARDO DOMENECK + RICARDO SILVEIRA + ROBERTO BOLAÑO + RODRIGO LOBO DAMASCENO + ROGÉRIO SGANZERLA + SAPATEIRO SILVA + SÉRGIO RAIMONDI + SYLVIA BEIRUTE + THAIS MONTEIRO + THE BEATLES + TIAGO PINHEIRO + TOM VIOLENCE + TOM WAITS + WILLIAM SHAKESPEARE + ZHÔ BERTHOLINI


***


A revista Errática publicou oito poemas de Jules Laforgue, traduzidos por André Vallias. Laforgue foi muito pouco traduzido, NÃO OBSTANTE o fato de q é um poeta fundamental.

Se v. lê apenas os brasileiros, é bom lembrar q Manú Bandeira & Carlitos Drummond aprenderam uma porção de truques com ele. Augusto de Campos, Nelson Ascher & Régis Bonvicino já o traduziram antes.

Um escritor ou poeta pouco traduzido revela q o país q tão pouco o traduziu ainda não foi capaz de incorporá-lo.

É o q significa.

Pense agora no verdadeiro ABISMO de autores fundamentais ainda não traduzidos no Brasil & v. terá a dimensão do desastre na educação do país. Educação? O quê? (o cara ou a garota não ouvem nada na multidão da Bienal do (sic.) Livro).

Então vamos dar uma espiada séria nessas oito gentilezas de Vallias, shall we?


http://www.erratica.com.br/

***

Caixa de livros belos & bons (kalós kai agathós) do selo Demônio Negro da Annablume. Infra:






***



Fui perguntar ao Maquiavel o q ele achou de ser prefaciado pelo ex-pres. FHC. Foi durante a visita do autor italiano à Bienal do Livro, muito rápido, até porque, se bem me lembro, a Monica Iozzi do CQC disputava a atenção do cara comigo. O finíssimo finório me disse o seguinte:

DA: Niccolò caro, buon giorno, scusa: che cosa... che cosa tu pensi della introduzione che ha scritto FHC per il tuo libro del Principe?

NM: Ma dai, ho scritto sopra uomini come Caesar Borgia e Lorenzo de’ Medici. E per me hanno adesso fatto questa porca miseria: è come Bozo scrivendo un prefazione per Woody Allen!

DA: È proprio una sfortuna. Grazie mille & una buona Biennale per te.

NM: Dove si può mangiare una sogliola alla fiorentina qui? Lo sai?

***


A propaganda política te persegue em tudo que é canto: "Você precisa votar em CALIGARI".


Política: sem comentários. Basta dizer q o circo já está visitando a cidade com sua feira de aberrações com alto-falante.

A gente podia ter uma arena, ouvir um morituri te salutant desses imbecis de Brasília & arredores, lá entre os leões. Isso sim seria circo para nosso pouco pão. Pão para os leões, essa seria a minha plataforma.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

FREE LANCE nel Diavolo Giallo

Reality is almost always wrong.


Sem publicar por mais de um mês, este demônio alheio: sou Julia Santini, e Dirceu Villa me permitiu, após alguma insistência minha, editar esta postagem. Ele me pediu apenas que pusesse o Dr. House de Hugh Laurie como a imagem para ilustrar.

Sem ansiedade, o autor deste blog me diz que está, neste momento, se divertindo com o circo do meio literário no Brasil, mesmo que a última expressão pareça se contradizer nos termos empregados. "E House contra os filósofos; hoje, meros acadêmicos: quem lhe diria que, se v. quer justiça, escolheu a espécie errada?". É um modo barato de me provocar.

Reclamei com Villa que ele deveria voltar a escrever no blog, e etc., mas apenas me mostrou duas notícias e riu.

As notícias eram: a FLIP (Villa disse que as letras significam Farsa Literária Internacional de Paraty) abrindo com as asneiras de costume de FHC, ex-presidente que as pessoas não deixam descansar em paz em seu apartamento em Higienópolis, ou em Paris; e um poema de Armando Freitas Filho, publicado na Ilustríssima da Folha de SP (caderno que substitui aquele que a revista Ácaro satirizava em seu hilariante caderno Menas!).

Era um poema (melhor dizendo, notícia longa tentativamente versejada, pelo que pude perceber) escrito para ecoar jornalecos sensacionalistas já há mais de mês falando sem parar sobre um goleiro assassino — mas não sou especialista em poesia: sou formada em grego e filosofia.

Em todo caso, não vi a graça que Villa achou nessas coisas. Me pareceu um negócio melancólico. "Aos vinte e seis anos v. não tem o direito de achar nada melancólico", ele disse.

Pedi que então me desse algo que servisse a este espaço, ao menos ... ao menos como manutenção. Gostava de ler o Demônio de vez em quando (quando Villa postava coisas interessantes, traduções e poesia autoral, não qdo. postava arame farpado).

Ele acha que me preocupo à toa, e que ajo como velhos medievais que tinham aquele horror vacui (horror ao vazio). E disse: "Está bem: mas não vou escrever nada. Ponha os seguintes links (me passou uma pequena lista) & não esqueça de mencionar o artigo de Damasceno sobre Oswald & o novo blog de Lins".

Foi o que fiz. Abaixo, os links para textos dos poetas Érico Nogueira e Ricardo Domeneck, que recentemente escreveram, de pontos de vista diferentes, sobre Icterofagia, livro de Villa. Mais uma página da revista desenredos que estampa três inéditos do poeta.

Perguntei se ele não gostaria de acrescentar algumas palavras sobre os textos ou os inédtos, ou dar uma entrevista, e ele me disse isto, ou algo mais ou menos como isto:

"Icterofagia já acabou, para mim. Faz dois anos que o publiquei. Amigos o comentam agora, os comentários são deles, muito bem-feitos, a propósito. Nogueira lê muito bem, & me torna muito mais simpático do q sou; Domeneck lê igualmente muito bem, & pensa q em uns poemas não resolvo o imbróglio vida/texto, mas ele se esqueceu da coisa fundamental da refração ... a refração...".

"Você está caçando uma palavra?"

"Eu pareço caçar palavras?"

"Honestamente..."

"Honestamente, creio q estou lembrando de uma piada para a punchline."

Achei que ele zombava de mim e resolvi encerrar aí mesmo, grata pela possibilidade de postar em seu blog semimorto. Abaixo, o texto de Érico Nogueira, no Ars Poetica:


O de Ricardo Domeneck, na revista Modo de Usar & Co.:


E o endereço dos poemas inéditos de Villa na desenredos:


É também na desenredos que se acha o ensaio de Damasceno, que Villa me sublinhou como "notável. A prosa brasileira não é tão mal escrita quanto costuma ser mal lida. Damasceno nesse texto sobre Oswald paira além das trincheiras críticas, concentrado no Miramar e em retificar confusões de terminologia. É exemplar".


Também vai aqui o endereço do novo blog de Thiago Lins, com Cortázar, Bolaño, Gógol, caricaturas, etc, etc, etc.




— Julia E. Santini, para o Demônio Amarelo.

PS: Villa chama também a atenção dos leitores para o excelente título & a postagem de Ana Rüsche "são paulo é de quem está aqui", contra os imbecis xenófobos.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

LO REIS RICHART D’ANGLATERRA


Já escrevi neste Demônio Amarelo sobre a poesia trovadoresca ocitânica, apresentando & traduzindo Peire Vidal & Sordello



(indico também ao leitor interessado os ótimos ensaio & tradução de Rodrigo Lobo Damasceno, postados na Modo de Usar, para uma cantiga de amigo escrita por Raimbaut de Vaqueiras,


sem esquecermos do trabalho ímpar de Ezra Pound com os provençais & das estupendas & várias traduções de Augusto de Campos).

Das canções provençais que conheço são da minha preferência: “Kalenda Maya” de Raimbaut de Vaqueiras; “Chanson do.il mot son plan e prim” e “Lo ferm voler q’el cor m’intra” de Arnaut Daniel; “Can vey la lauzeta mover” de Bernart de Ventadorn; & esta que vocês lêem abaixo, “Ja nuls hom pres non dira sa razon” de Ricardo Coração de Leão, ou Ricardo I de Inglaterra (c. 1157-1199).

Estou falando não exatamente dos poemas (há muitas outras canções trovadorescas que entrariam nessa lista, & em muitos casos não nos chegou a notação musical), mas especificamente da música, naquele preceito de motz e.l son, ou o casamento perfeito (se algum pode ser) entre as palavras & a música.

Lo reis Richart, que tinha possessões na região da Provenza & conhecia trovadores (Bertran de Born, Arnaut Daniel) teria escrito essa canção quando esteve preso na Áustria (1192-1194), mas nunca saberemos ao certo, como sói acontecer nesses casos de distância histórica a perder de vista: o fato é que é uma canção belíssima.

O poema, em si, não se pode comparar com a engenhosidade de Daniel, D’Aurenga ou Vaqueiras, ou com a riqueza de imagens inventadas que costumamos ler em Bertran de Born, Guillem de Peitieu, Peire Vidal, Marcabru, etc. As coblas doblas (ou estrofes duplas baseadas em uma rima) de “Ja nuls oms pres” são simples, os versos decassilábicos (com versos de seis sílabas ao fim de cada estrofe), sem contorções sintáticas nem aspectos lingüísticos de artesanato particularmente notável.

Mas nessa simplicidade absoluta & no modo direto da exposição é que está o seu charme para mim, pois foi escrito imitando (ou sendo de fato) um conciso & eloqüente apelo direto — sem contar, é claro, a melodia extraordinária em que se deve cantá-lo.

Seria interessante comparar este poema de Ricardo Coração de Leão com o que Afonso X, o Sábio, escreve contra a covardia de seus barões & sobre as aflições da cabeça coroada. Mas minha preguiça é terrível neste momento, um momento mais cigarra que formiga, ou o que quer que vos ocorra de semelhante a isso. Perdoai.

A canção, cogita Martín de Riquer & outros antes dele, com bons motivos, teria sido escrita antes em francês. É nessa versão, a francesa, que conheço a música para duas de suas estrofes. Não obstante, a versão provençal é igualmente cantável na mesma melodia: é, no entanto, duas estrofes mais curta (a francesa tem seis ao todo), & a tornada não reúne as rimas do poema, porque reproduz as da sexta estrofe inexistente.

Traduzi da versão provençal, encontrável na antologia de Martín de Riquer, de onde estampo o texto original após a minha tradução. Conheço & tive presente também a versão francesa &, naturalmente, a tradução ad sensum para o espanhol, acompanhada de notas, de Riquer.

Boa notícia: aqueles de vocês que tiverem a canção podem cantá-la também em português, a partir da minha tradução, feita para caber na música. Como a linha melódica é composta para uma estrofe & se repete nas demais, é possível cantá-lo todo.

Duas notas rápidas: o “senhor” de Richard é Philippe Auguste, então rei da França. Tomou Gisors quando Coração de Leão estava preso, em 1193.

A condessa em questão é Marie, condessa de Champagne, & meio irmã (por parte da mãe, Eleonora de Aquitânia) de nuestro Corazón de León.

Por fim, esta tradução é dedicada à minha amiga, a alaudista Carin Zwilling.

Gaudete.


QUAL HOMEM PRESO USARÁ SUA RAZÃO
Ricardo I de Inglaterra: tradução de Dirceu Villa

I

Qual homem preso usará sua razão
corretamente, não com aflição?
mas o consolo me pede a canção.
Rico de amigos, de pobre atenção:
tanta vergonha, não me livrarão?
dois invernos, e eu preso.

II

Pois saibam bem, bom soldado e barão,
inglês, normando, pictone e gascão,
não há parceiro, pobre ele ou não,
que eu deixasse, sem chance, em prisão.
E não digo isso como acusação,
mas ainda estou preso.

III

Sei muito bem, por ver tão claramente,
que preso ou morto é sem nome ou parente;
e se me deixam por ouro somente,
mal para mim, pior pra minha gente,
que à minha morte dirão negligente,
se eu ficar aqui preso.

IV

E põe minh’alma cansada e doente
que meu senhor minha terra atormente
sem se lembrar de uma jura recente
que nós fizemos aos santos, cientes;
mas eu sei bem que nem tão longamente
estarei aqui preso.

V

Condessa, vosso valor soberano
salve Deus, e guarde a bela sem dano,
a por quem estou preso.


JA NULS OM PRES NON DIRA SA RAZON
Lo Reis Richart d’Anglaterra

I

Ja nuls hom pres non dira sa razon
adrechament, si com hom dolens non;
mas per conort deu hom faire canson.
Pro n'ay d'amis, mas paure son li don;
ancta lur es si, per ma rezenson,
soi sai dos yvers pres.

II

Or sapchon ben miey hom e miey baron,
angles, norman, peytavin e gascon,
qu'ieu non ay ja si paure companhon
qu'ieu laissasse, per aver, en preison.
Non ho dic mia per nulla retraison,
mas anquar soi ie pres.

III

Car sai eu ben per ver certanament
qu'hom mort ni pres n'a amic ni parent;
e si.m laissan per aur ni per argent
mal m'es per mi, mas pieg m'es per ma gent,
qu'apres ma mort n'auran reprochament
si sai me laisson pres.

IV

No.m meravilh s'ieu ay lo cor dolent,
que mos senher met ma terra en turment;
no li membra del nostre sagrament
que nos feimes els sans cominalment
ben sai de ver que gaire longament
non serai en sai pres.

V
Suer comtessa, vostre pretz soberain
sal Dieus, e gart la bela qu'ieu am tan
ni per cui soi ja pres.


Para aqueles que gostariam de ler mais, seguem alguns livros de divulgação de poesia provençal disponíveis em português, no Brasil:

Campos, Augusto de. Invenção, São Paulo, Arx.

Campos, Augusto de. Verso Reverso Controverso, São Paulo, Perspectiva.

Saraiva, Arnaldo. Guilherme IX de Aquitânia: Poesia, Campinas, Editora da Unicamp.

Spina, Sigismundo. A Lírica Trovadoresca, São Paulo, Edusp.

Se você lê espanhol, os três volumes de Los Trovadores, de Martín de Riquer, são uma ótima pedida.