quarta-feira, 24 de junho de 2009

IMAMU AMIRI BARAKA (1934)


EM MEMÓRIA DO RÁDIO

Quem já parou pra pensar na divindade de Lamont Cranston?
(Só Jack Kerouac, que eu saiba: & eu.
Já vocês é provável estavam na WCBS ou na Kate Smith,
Ou em algo igualmente sem graça.)

Que posso dizer?
É melhor se apaixonar e perder
Que passar linóleo nas suas salas de estar?

Sou um sábio ou algo do tipo?
Mandrake e o truque hipnótico da semana?
(Lembrem, não tenho os poderes de cura de Oral Roberts …..
Não posso, como F.J. Sheen, te dar salvação
& dinheiro!
Não posso sequer te mandar prum satori na câmara de gás
[como Hitler ou Goody Knight

& Amor é quase a morte
Mais duas letras/ e o que dá?
A morte, além do mais
Quem entende isso?
Eu é que não ia querer andar nessa corda bamba.

Sábado de manhã a gente ouvia o Lanterna Vermelha e sua turma
[submarina.
Às 11, Faz de Conta/ & a gente fazia/& eu, o poeta, ainda faço,
[Graças a Deus!

O que ele dizia mesmo (já transformado, seguro & invisível & os
[descrentes não podiam tacar pedras?) “Heh, heh, heh,
Quem sabe o mal que se esconde no coração dos homens?
[O Sombra sabe.”


(tradução de Dirceu Villa)


____________________________
AIDE-MÉMOIRE

Lamont Cranston era a identidade secreta do Sombra, herói das HQs e do rádio na década de 1940.
WCBS: Rádio nova-iorquina.
Kate Smith (1907 – 1986) foi uma cantora típica da era do rádio, veiculada pela rede CBS na década de 1940.
Oral Roberts: Evangelista televisivo dos EUA.
F.J. Sheen: Bispo norte-americano. O primeiro pregador televisivo a se tornar famoso.
Satori: “Iluminação”, termo do zen budismo.
Goodwin Knight (1896 – 1970), do Partido Republicano, foi governador da Califórnia na década de 1960, e praticou, como uma porção de outros, a pena de morte em câmara de gás, incluindo um episódio famoso, em que tentou deter uma execução: seu telefonema chegou dois minutos atrasado. Baraka pode estar jogando com o trocadilho sonoro do nome do governador, que poderia ser ouvido como good night, ou seja, “boa noite”.
Red Lantern, programa de rádio da década de 1940 que contava aventuras marinhas.
Let’s Pretend, programa de rádio da CBS, década de 1940.
"(...) o Sombra sabe": essa era a frase inicial do programa, e a frase que diziam sobre o Sombra nas HQs.

sábado, 13 de junho de 2009

Como diz o tenente Columbo: I’m just tying up some loose ends here, that’s all

Peter Falk, na pele do sagaz detetive

Algumas confusões, remediadas

Há alguns problemas de sintonia quando se fala atualmente de poesia no Brasil & em muitas outras partes. Abordo este inicialmente: abstração ou, por oposição, poesia feita de coisas.

Nem concretista, nem solene

Vamos retirar, logo de início, algumas encrencas do caminho: poesia feita de coisas não é concretismo, & abstração não tem a ver com ser solene (assim como concisão não significa escrever pouco nem miúdo).

Um poeta, que se ache muito material & sólido, pode estar se enganando, pelo seguinte: discurso não é poesia. Ainda que se discurse de modo apontativo, nomeando coisas, pode se fazer discurso puro & simples.

E por que essa abstração, que é discurso, é ruim como poesia? Porque pode ser exercida de modo muito mais convincente em outros gêneros de escrita. Porque um ensaio recebe isso de modo mais adequado, ou um tratado, uma tese, uns capítulos graciosamente filosóficos & especulativos, cheios de circunvoluções excruciantes sobre Sein und Zeit.

A poesia precisa da energia de dizer, da velocidade de pensamento & conexões, que o discurso, por melhor que tenha sido contado & rimado (or whatever), não tem.

Pode ser esperto, mesmo erudito, mas é má poesia, &, obviamente, não dura. A poesia precisa de uma infusão mística que Rimbaud, aquele desordeiro ordenadíssimo, chamou alchimie du verbe.

Rochester: "coroemos de louros este macaquinho"

Rochester, Boileau

Voltaire percebeu isso comparando dois horacianos: Rochester & Boileau. Rochester é imprevisto, veloz, sagaz, aproxima coisas distantes, surpreende o leitor, tem essa energia mental poética, que o irmana além do tempo com Maiakóvski, Ovídio, Rimbaud, ou master William, ou Sá de Miranda, Sousândrade, ou ainda outros numerosos bons exemplares que a leitora ou o leitor certamente terão o prazer de lembrar.

Boileau tem o andamento de suas parcas idéias filosóficas, tiradas de outros, é moroso, mal consegue nos dizer algo que sabe, & não imagina. Faz um esforço, põe tudo em metro, regra, mas discursa para o tédio mortal da nossa inteligência poética & o cataclisma ecológico das fontes da Castália, que secam nem bem ele abre o bico de corvo, vaidoso de sua voz.

Fato?

Isso é um fato? Sim, é, mas um fato em arte. Ninguém aponta cientificamente as armas do crime & a linha funesta que liga o criminoso a ele. Um fato poético exige o nosso ouvido, exige habilidades raras de saber diferenciar sutilmente entre uma inteligência de brilho poético (a poesia “com duende”, que Lorca disse) & um arremedo bem construído & empolado.

Não deixa de ser fato, mas os preguiçosos lhe dirão fay ce que voudras, sem o tom distintamente rabelaisiano que adorna essas palavras.


Justificar um versejador como poeta é simples.

Basta destacar sua habilidade formal nos usos conhecidos, & louvar parafrasticamente o que ele diz, em geral coisa supostamente complexa & filosófica (mas ínfima se posta junto de seus paralelos daqueles gêneros). E naturalmente exigir, para criticá-lo, a leitura dos cinco tomos de suas obras completas, sob olhos lacrimejantes não de comoção, mas de desespero.

A um poeta nada disso interessa. Interessa notar como sua percepção molda a coisa em palavra, o “como” sendo o “quê”, a velocidade de suas conexões mentais que exclamariam, como Arquimedes de Siracusa terá exclamado ao perceber/descobrir o empuxo na banheira, quando seu corpo deslocou a água pra fora: eureka.


Longos discursos abstratos, metrificados regularmente ou não, sempre foram feitos & sempre serão feitos, recheados de muita, com o perdão da palavra, filosofia, & de, ah-ham, “imagens”.

Nota bene

Dante Alighieri, que escreveu seu poema teológico em três divinas partes, escreveu-as sem discurso (que aqui quer dizer aquela conversa fiada, versificar um assunto). Onde um versejador despejaria matéria logorrágica, Dante figurava. E ler a Commedia exige algum empenho, o de conhecer uma porção de coisas: o sistema retórico que Dante utilizou, parte da história de Florença & da Europa, alguma teologia patrística, questões de verso.

Mas quando queria discursar, buenas, escrevia um tratado, em latim ou italiano, como quiseres.

O caso hoje é: não se sabe diferenciar uma coisa da outra. Nos EUA, Europa, em toda parte como aqui em casa, os mais radicais poetas ultracontemporâneos fazem discurso. Picotado & exíguo, para parecer que estão fazendo aquela outra coisa enfeitada de louros, a poesia; se esforçam para aquilo ser mais ou menos o encontro de uma tese de doutorado em lingüística (ou estudos culturais) & uma sessão de psicanálise.

Os carolas da forma também: compõem longos tralalás que dariam um mau ensaio filosófico ou estético, ou estético-filosófico, muito atentos às regras antigas de composição metrificada, & ficarão deslumbrados quando alguém disser que notou uma variação métrica (colocar o nome técnico) usada apenas no século de (colocar o nome do cavalheiro ou da dama) .

E há os preguiçosos, que se acham, não obstante, inspirados. Para eles, qualquer poesia que não comunique diretamente é uma farsa, um engodo acadêmico, porque em sua opinião os poetas devem ser uma espécie de demagogos.

Uma poesia que envolva algo desconhecido é uma ameaça, porque, se pegar, será a prova de que não passam de impostores os que escrevem meros diários (de suas vidas ordinárias ou de suas idéias vagas) recortados em algo que nos lembra, de longe, versos (é, especialmente, uma poesia de adjetivos).

E há também aqueles que querem dizer uma coisa mas, para parecerem misteriosos, põem uma bruma ordinária de imagens, gelo seco, na frente dos olhos do leitor & da leitora. Ridiculus mus, como dizia o velho Horácio.

Pas possible, n’est pas? E, no entanto.


Uma horda de maus poetas tenta espetar Dante

Velhacos & velhuscos

Os modernos sabiam que, pela necessária ruptura (que se tornou tradição da, como Paz diligentemente explicou) com os condicionamentos antigos de como escrever & como ler, apareceriam duas coisas:

a) os aproveitadores: pessoas que não têm a mais vaga noção do que estão fazendo, nem desejam ter, mas fazem assim mesmo;

b) os antiquados: que, percebendo o apagamento da antiga maneira, fariam tudo a seu alcance para tentar instituir outra vez o que historicamente se fora, & desqualificar o que quer que viesse de novo, pondo todos os praticantes de uma arte que já não reconheciam dentro da hipótese a), acima.

Que essas duas categorias impediriam de ver com clareza quem não é uma coisa nem outra: quem dá nova vida às formas anteriores, ou quem traz formas novas à vida. Esses, a despeito do dispersivo ruído em volta, são os poetas.


Sol Robeson diria (Mark Margolis em π, de Darren Aronofsky): "You're not a poet any longer, you're a numerologist!"

De traseiros & imortalidade

Uma “antologia de antologias” provou, por estatística, que reproduz-se no Brasil o que o antologista prévio fez, com ligeira distinção aqui ou ali.

Sempre imaginei os autores mortos perfilados, &, quando acontecesse de se pôr um novo no panteão, todos os velhos se moveriam de lado, olhando rasteiro & de lábios curvos para baixo, para fazer caber o novo na galeria.

É um incômodo.

Tanto quanto ter de substituir o imortal (sic.) na Academia. O escritor pleiteante obviamente quer entrar para o clube, mas tem de aguardar, como na grande festa do Oscar, que o ocupante da cadeira se levante para “ir ao banheiro”: daí ele povoa aquele angustiante vazio com o seu traseiro substituto.

Ego sum papa

Existem várias pessoas inteligentes que deploram a idéia de um cânone. Existem várias pessoas morosas que impõem umas idéias de cânone.

Harold Bloom, notório canonizador, usa as papilas de seu gosto pessoal romântico (& indisfarçavelmente de foco anglófono, provinciano) que se empapa de Wordsworth, Shelley & derivados. Poderíamos ouvi-lo dizer, como o papa disforme de um panfleto antipapista do século XVI: ego sum papa.

(Não porque o simpático Sr. Bloom seja disforme, tome tento: trata-se de uma alegoria, onde lê-se que aquele invoca um poder sem na verdade fazê-lo com propriedade, por lhe faltarem qualidades essenciais ao tal uso).

Então, sinto-me no dever de, por respeito às pessoas inteligentes, & por justiça com os morosos, explicar porque me dou ao trabalho, para aqueles ocioso, para esses indigno, de discutir e repropôr o cânone de poesia neste país tropical, abençoado por Deus & bonito por natureza.

Algo sempre será proposto, mesmo que gente como eu cruze os braços & torça o nariz — a menos que chegue-se à idiocracia de nas escolas se ensinar apenas a contar números, como em Fahrenheit 451 —, então realmente acho mais simples sugerir umas coisas
.

O “típico”

A peculiar infelicidade, no Brasil, quando pensamos (supondo que se pense nisso, que alguém o faça) numa educação literária, poderia ser, de início, o fato dela simplesmente não existir.

Mas vou evitar toda espécie de fatalismo, & direi que é, em uma palavra, o culto do típico.

Indiferente, mecanicamente turístico

Funciona da seguinte maneira: retrospectivamente, olha-se para os escritores de ― digamos ― um século atrás, e pensa-se neles como algum tipo de grupo, dotado, em geral também retrospectivamente, de um nome.

Acha-se o que os caracterizaria como grupo, normalmente puxando as referências européias do mesmo período. Selecionam-se, a partir das características, as mais freqüentes & gerais. O escritor que, no período considerado, for o que mais características apresentou do período, & as mais gerais, esse é o escritor.

É muito útil fazer isso, porque, do contrário, nos cansaríamos de ler cada um em suas particularidades. Distinguir por qualidade também é muito cansativo, primeiro porque não temos critérios, segundo, porque seria claramente antidemocrático, além de penoso aos nossos hábitos de abanador. Além do mais, assim lêem-se dez, quinze ou vinte escritores absolutamente medíocres de uma tacada só.

Portanto, à volta dele — escritor do período — juntam aqueles que não puderam aplicar tudo, os que não se meteram a empurrar para dentro dos textos todo o monte de dispositivos reconhecidamente “românticos”, “realistas”, & assim por diante & antecedente.

Times completos, penduramos cada pacote de escritores numa linha temporal imaginária, com o rótulo pronto, e os observamos na sucessão teleológica do tempo, como quem observa a troca da guarda no Palácio de Buckingham: parece interessante no começo, mas acaba entediando.

É só um registro de “ter estado lá”: algo indiferente, mecanicamente turístico, o modo de ler literatura no Brasil.

Lembretes:

A poesia foi nomeada a partir do grego poiésis, que significa um “fazer”: devemos então reter em nossas mentes essa qualidade singular & primordial de uma habilidade quando começamos a pensar no assunto.

A palavra que Aristóteles usa para arte é tékhne, de onde tiramos o conspícuo “técnica” hoje em português — porque então não havia nenhum tipo de conversa fiada que se intrometesse entre uma coisa & outra — mas que certos hábitos silvestres muito em moda assemelham a ou identificam com “tecnicismo”.

Aliás, há esse problema delicado no Brasil, apenas esboçado supra. Vejam só.

Appendix Probi

Um dos modos mais sacados de se defender o indefensável é adotar um limite do campo semântico. Exemplos.

“Popular” não deveria significar ignorante ou limitado; ruim ou fácil. “Formal” não deveria significar “formalista” nem “mecânico”, ou “frieza matemática”.

Por exemplo: usa-se “popular” para implicar: “o povo gosta”. Com “o povo” adota-se uma coletividade imaginária, à qual normalmente se atribui uma estupidez inebriante. E um gosto: coisa, como sabemos, que não se discute. O pessoal velho de Roma já dizia, frasista: de gustibus disputandum non est.

Ou se diz que "a voz do povo é a voz de Deus", & graças a ela & Ele, louvemos as celebridades.

E aí temos a coisa pronta juridicamente. Dá um ar democrático. O que é ainda mais gozado: é possível atacar, com isso, os “impopulares”, já que ser “popular” (ignorante, limitado, ruim & fácil) é o melhor que se pode querer para a arte.


Appendix Probi II

Os parnasianos deram um ótimo exemplo de definição confusa, também: buscavam usar a chamada “língua castiça”, “sem jaça”, “a última flor do Lácio, inculta e bela”.

Pois bem: talvez não tenham percebido (presume-se sempre a inocência) que usavam “castiça” em lugar de “castrada”.

Invenção

Giraut de Riquer, trovador provençal, escreveu o seguinte na persona de Afonso X, o Sábio:

segon proprietat
de lati, qui l'enten...
son inventores
dig tug li trobador.

Uma das acepções da palavra provençal trobar é “encontrar”, porque a invenção não sai do nada (como a inventio antiga demonstra).

Isidoro de Sevilha escreveu: “A poesia é uma arte porque tem regras”; séculos depois, Maiakóvski complementaria, sem sequer ter lido Sevilha: “O poeta é aquele que cria suas próprias regras”.

Complementaria é a palavra-chave, acima. Temos de parar de pôr biombos separando coisas que deveriam estar juntas, porque o ar está ficando irrespirável.

Apropriações

Abel Gance usou a técnica alegórica da ode XIV de Horácio, “Ad Republicam” em seu filme Napoleon (1927), quando figura por imagens compostas da Assembléia & do mar tempestuoso, numa montagem/colagem, a abrasão política.

Velhas técnicas podem ser reinventadas com proveito (Ted Berrigan escreveu um excelente livro de sonetos, mas redesfazendo, ou desrefazendo o soneto), & as artes se correspondem mais do que apenas superficialmente.

A Marquesa de Alorna sorri

O abismo olha de volta

É mais do que bizarro que Odorico Mendes não esteja em antologias de verso de língua portuguesa com suas traduções; que o Sapateiro Silva seja ignorado no meio de um bando de fingidos pastorinhos neoclássicos; que se joguem todos os poemas da Marquesa de Alorna naquele mesmo saco, ignorando a sua notável "musa que teme o dia"; que se conheça, quando muito, um poema de Maranhão Sobrinho; que não se saiba de Dom Tomás de Noronha; que não se saiba dos epigramas mineiros do fim do século XVIII, ou de dois poemas bons de Sousa Caldas; que se desconheçam pelo menos dois poemas de Marcelo Gama; que se trace uma interrogação quando se diz Martim Moya; ou que não se saiba do Cocktails de Luís Aranha; do soneto neoplatônico de D. Manuel I; dos poemas satíricos de Garcia de Resende; que nunca se tenha ouvido falar de Gomes Leal; que não se leia Camões a não ser com o amparo de uma lista de notas para uso em vestibular; que se ignore as grandes descobertas dos concretos: Sousândrade e Kilkerry; etc. etc. & etc.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Chega de saudade: os anos de chumbo estão de volta

1968, ou ontem na USP: a mesma coisa

Isto sai do propósito deste blog, que é civilizado & simpático, mas nós não escolhemos as ocasiões da vida, não é mesmo?

A vergonhosa violência ontem, na Cidade Universitária, cruzou essa linha até a qual alguém pode apenas aguardar que os eventos tenham um desfecho por si mesmos.

A televisão, que está povoada de todo tipo de estupidez crassa & impenitente mostrou, a um exame breve, de que tipo infecto de sujeira é feita.

O esgoto a céu aberto dos, ah-ham, “jornais”, usou seus âncoras como alguns usam bolas de boliche: aproveitando que são em geral redondos, os canais puseram suas bolas de boliche para terminar a destruição começada à tarde.

Um balofo vespertino disse que os alunos deveriam “estar estudando”.

É evidente que, se ele não fosse mero boneco de sua emissora, o amendoim que tem no lugar da massa cinzenta não lhe permitiria ligar duas idéias elementares: que esses alunos prefeririam estar estudando com ótimos professores ao invés de receber gás na cara, tiros de borracha & porretes na pele.

Mas que as salas estão lotadas. Que não estão contratando professores. Que levam anos para construir um adendo ordinário de três salas. Que as prerrogativas de excelência do ensino estão sendo ameaçadas com burocracia crescente para os poucos docentes, redução de tempo de pesquisa para docentes e discentes, aulas à distância.

Tudo feito legalmente, como política de Estado.

A sugestão daquela âncora pesada seria a de que esses alunos, sabendo disso, simplesmente deixassem acontecer, de bico calado na sala de aula?

Talvez o âncora devesse estudar um pouco, nos intervalos de suas refeições, ao menos. Poderíamos começar seu curso com um abc de lógica.

Bolas Casoy, outra dessas bolas de boliche da TV, fingiu não perceber a desproporção da força de violência sobre os alunos. Ou o excessivo tempo trabalhando na TV encolheu seu pequeno pensador ao tamanho exibido por seus colegas vespertinos.

Qualificou a coisa com o velho, banal & abusadíssimo clichê (que é simples porque poupa-lhe o penoso esforço de pensar): “baderna”.

E é isso que chamam por aí "informação". Mas é o poder televisivo de espalhar mentiras hitlerianas (aquela mentira que, quanto maior, mais crível).

Sim, baderna, a promovida por aqueles que tinham o poder de exercer mais violência. Um deles usou seu amendoim para dizer: “greve pode, mas ordeira & pacífica”.

É outro clichê estúpido. Uma greve só será totalmente ordeira & pacífica se a mesa de negociação não for uma mesa de ameaças unilaterais.

Ou seria ordeira na hipótese de os grevistas serem criaturas acéfalas que acatam & executam ordens estúpidas, por seguir uma hierarquia de comando, normalmente estúpida, sob governo conivente.

“Só estava cumprindo ordens”. Já ouvimos isso. Nuremberg?

E as cenas de ontem eu me lembro bem de quando vi.

Os governos no Brasil não eram chamados pelo gracioso nobilitante de “democráticos” & gente de inteligência necrosada, do naipe daqueles âncoras, já chamava os estudantes de “baderneiros”.

Nada de novo sob o sol, diria Salomão. É apenas o velho Brasil mostrando as presas.

PS (17 de junho): agora que as coisas realmente ficaram cabeludas, os jornais acordaram daquele torpor antinotícia. Na primeira página da Folha está Antonio Candido, em debate na USP, ontem.

Não é a primeira vez que Candido intervém como reserva moral em favor dos princípios do conhecimento na Universidade. Reproduzo abaixo o parágrafo impecável dito por ele, que a Folha anotou no caderno Cotidiano, página 5:

"Estou aqui por uma simples razão: para fazer um protesto veemente contra a intervenção da força policial no campus universitário. [Isso] é um atentado aos direitos mais sagrados que as pessoas têm de discutir, debater e agir sem nenhuma pressão do poder público".

Ninguém teria dito melhor, nem com maior força moral.

No entanto, Marcelo Coelho diz besteiras em sua coluna, sobre o mesmo assunto, no mesmo jornal. Diz que 'pessoas respeitáveis acabam achando que "só a PM resolve essa baderna"' .

Que ele nomeie uma dessas suas "pessoas respeitáveis".

Eu só vi ratos dizerem isso, para promover o candidato Chupacabra a presidente. E não estavam numa fábula.

Nessas crises é que se vê quem é feito de quê. Antonio Candido, 90 anos, não se intimidou: he has his heart in the right place.

sábado, 6 de junho de 2009

Queres um gelado?

O realizador, argumentista, actor & louco português, João César Monteiro (1939-2003)


O Cinusp, cinema que fica nas famosas Colméias da USP, apresenta uma mostra do cinema de João César Monteiro, há muito necessária; seus filmes, aliás, sempre passaram em mostras (não me recordo de algum que tenha entrado em cartaz), &, embora seja uma obra muito peculiar & importante, em geral se ignora sua existência.

São películas satíricas & excêntricas, que impiedosamente atacam provincianismos portugueses, mas também elaboram uma complexa visão de correspondências: provavelmente sua obra-prima (que recomendo ver, se forem ver apenas 1 dos filmes) é a Comédia de Deus, em que o hilariante personagem malandro, João de Deus (César Monteiro lui-même, no papel que manteve por três filmes, a "Trilogia de João de Deus"), se mete em encrencas sexuais para montar seu ritual erótico com garotas.

É sátira, mas é também uma curiosa associação de sexo, conhecimento & as velhas estruturas propostas entre deus & os homens. Buenas, mesmo se você não fizer nenhuma dessas conexões, o efeito de riso me parece garantido. A cena da disputa de cigarros com o açougueiro é antológica.

A grade da programação se acha no site do Cinusp, aqui: http://www.usp.br/cinusp/.

domingo, 31 de maio de 2009

Amor, agridoce: um breve gabinete de curiosidades

E. J. Bellocq, sem título

(Este texto foi redigido no espírito nômade de Kunst und Wunderkammer)

Susan Sontag escreve, em um texto sobre E. J. Bellocq (1873-1949) — o hoje célebre fotógrafo então secreto das prostitutas de New Orleans — que considera painful (doloroso) olhar para as 11 fotografias em que o rosto das mulheres foi riscado, talvez pelo próprio autor; e que não vê nada de romântico na prostituição — como muitos homens vêem, afirma.

Devemos lembrar que Bellocq também mascara com gosto algumas de suas prostitutas, o que é um modo fantasioso de tirar o rosto a, emprestando-lhes o mistério dúbio (entre atração & repulsa) de um corpo sem identidade.

Mas, ela diz, as fotos são "inesquecíveis": é evidente que sim. Se os corpos docemente eróticos trazem esse amargo do apagamento do rosto, é possível também pensar, por outro lado, na própria condição das modelos, como se disse antes, & dos lugares ordinários em que muitas das fotos foram tiradas.

Há o fascínio de base na idéia de proibição, que exibe por um lado o belo & prazeroso, & por outro, a experiência do perigo, ou do limite.

O erotismo não apresenta uma versão pacífica do mundo também porque a intensidade de sua experiência marca, dessa forma, um limite na vida & no prazer, & assim funciona como um memento mori, uma lembrança da finitude, & não é por acaso que os franceses chamam ao orgasmo petite morte, uma “pequena morte”.

É um ápice de experiência, um máximo de vida, que aponta para o seu contrário, já que, por definição, os opostos se espelham &, do espelhamento, a identidade.

Diferente de um conto de fadas, onde a história é suspensa no judicioso casamento idealizado, a sexualidade tem essa força imaginativa & rebelde justamente porque não se rende à contemporização social. Sente-se que é algo à parte, que deve ser controlado por pertencer, sobretudo, ao instinto.


Agostino Carracci, Baco e Ariadne

Mas é precisamente nas artes, que representam não apenas o socialmente aceito, mas o que potencialmente ressoa, que encontramos essa coisa inquietante & magnética, livre de condicionamentos exteriores ao fato em si.

E assim é fácil encontrar, lá, as vulnera amorum, ou as "feridas de amores” (em que devemos sempre perceber a duplicidade da idéia de "ferir", que é empregada também com conotação sexual). Alguns as recebem de bom grado; outros, se lamentam. O amor é doce em seus encontros & fere por seus desencontros.

Daí, em um poema de Ausônio, Cupido Cruciatur ("O Cupido Crucificado"), lemos que os amantes míticos, injuriados com o pequeno filho de Vênus & as ações de seu arco com flechas — flechas que conduzem a tanto prazer infeliz — pegam-no, amarram-no numa árvore, & passam a castigá-lo.

Chega sua mãe, mas não para salvar sua delicada pele: lembrando de que ele é culpado de seu adultério com Marte, também ela o pune. Como? batendo-lhe com um relho feito de roseira, que tem a bela & atraente flor perfumada, mas cujos ramos são espinhosos: como, suspeitamos a essa altura, seja também o amor (& assim sua punição é contrapasso).

Há no MASP uma gravura de Agostino Carracci, “Vênus punindo Cupido”, na qual vemos o moleque, vendado & seguro por outro, levando uma surra de Vênus, que ergue o relho no alto.



Agostino Carracci, Vênus punindo Cupido (1590-95)

Carracci é conhecido por suas gravuras eróticas, & aqui não passa despercebido o potencial de fantasia do episódio, diferente do aspecto moral que poderíamos ver na gravura de Albrecht Dürer, em que Cupido, metendo a mão no mel, é picado pelas abelhas & talvez então dissesse, como Safo disse aliterativamente em grego: μήτ᾽ ἔμοι μέλι μήτε μέλισσα, “a mim nem mel nem abelha”.


Albrecht Dürer, Vênus e Cupido, o ladrão de mel (1514)

O poema de Ausônio nos propõe o que Marsilio Ficino atribuiria, na Florença do século XV, a uma tradição órfica, que terá lido também em Safo: o amor é glukúpikron, ou "agridoce", que platonicamente mata aquele que ama, uma vez que quem ama não vive mais em si, vive em outro.

E isso também foi, antes de Ficino, Petrarca: Guerra è il mio stato d’ira e di duol piena/E sol di lei pensando ho qualche pace.//Così sol d’una chiara fonte viva/ Move ‘l dolce l’amaro ond’ io mi pasco.

Se aceitamos o engenho de Edgar Wind ao ler o Hypnerotomachia Poliphili (1499), de Francesco Colonna, entendemos que as escolhas formais dentro da obra também figuram o dolce/amaro. O livro foi escrito como um código alegórico: místico, artístico & filosófico do que se chamava religio amoris, ou religio Veneris, a religião do amor, a religião de Vênus.

O personagem, Poliphilo, passa por diversas experiências amorosas, que vão da contemplação de uma arquitetura projetada com a geometria divina até o contato físico com ninfas que alegorizam diversos estágios dos mistérios.

Wind argumenta que a escolha da língua em que Colonna escreveu, uma mistura da estutura italiana com léxico do latim, configura também, por si, a aspereza na leitura daquela imensa doçura.

De modo que, tardiamente, no século XVIII, poderíamos ouvir o mesmo conceito no contraste entre o tema grave do Notturno per i morti & sua execução doce & ligeira, na música dúctil & elegante de Nicola Porpora.

Gravura do Hypnerotomachia Poliphili, de Francesco Colonna (1499), apresentando Poliphilo curvando-se à rainha Eleuterylida (livre-arbítrio) diante de suas ninfas.


Nota-se que o bem colocado adjetivo painful, que Sontag deu por outros motivos às fotos agridoces de Bellocq, estabelece uma antiga linhagem erótica de variados sentidos sutis que se hipertrofiou, mais tarde, no sadomasoquismo.

Mas, antes disso, a idéia dos libertines do século XVIII seria a de um hedonismo erótico que pouco conhece o desprazer, porque desconhece implicações morais do cristianismo & desconhece travas sociais que resultam em psicanálise.



O traço fino & requintado do Barão von Bayros em suas ilustrações pornográficas de imaginação inesgotável, que emulam, no começo do século XX, as delicadezas pornográficas dos libertinos do século XVIII.

As proezas de jogo, pornográficas & mesmo intelectuais de Giacomo Casanova são as de um bon vivant aventureiro, que não acredita na melancolia. E isso desde a sua proposição:

Cultiver les plaisirs de mes sens fut dans toute ma vie ma principale affaire; je n'en ai jamais eu de plus importante. Me sentant né pour le sexe différent du mien, je l'ai toujours aimé, et je m'en suis fait aimer tant que j'ai pu. J'ai aussi aimé la bonne table avec transport, e passionnément tous les objects faits pour exciter la curiosité.

Sem culpa ou qualquer sentimento de pisar em território duvidoso, seja o sexo, seja a "boa mesa", ou os objetos feitos para excitar a curiosidade (a definição do que um mau humor moral chama "frívolo").

E lemos esse mesmo esporte amoroso na recusa sedutora & falsa da longa sedução de boudoir do soneto glosado de Dom Tomás de Noronha, “Do Gosto dos Namorados” (estrofes V-VII):

V

Um chegar para a cama recatada,
fazendo mil meneios de escapar-se,
um pedir que a luz seja apagada,
um dizer que aos pés quer acostar-se,
um tirar o mantéu quase enojada,
um vagaroso e tardo descalçar-se,
um culpar de apetite tão ousado,
um ai que nos ouviram! que é pecado!


VI

Um ferrar e dizer senhor, deixai-me!
deixai-me, não me atrevo, i-vos embora!
não posso fazer tal, antes matai-me!
outro dia vireis, não posso agora!
fazei-me este favor, e contentai-me,
outra cousa farei por vós outra hora!
(e um dar com ela logo sobre a cama)
um ai que minha Mãe nos ouve, e chama!


VII

Um dizer senhor, mal me tratais!
um suspirar contínuo e afligido,
um retirai-vos lá, que me matais,
deixai-me erguer, senhor, que sois sentido!
um valha-me o Senhor! que rijo estais!
já tenho o corpo como sal moído,
um ai de mim, que soa muito a cama!
um ai de mim, que perco a honra e fama!

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Um anátema moral, antigo, se opõe a essa tradição do prazer exercido como arte desde a Ars Amatoria de Ovídio (ou mesmo antes), & foi cristalizado na Idade Média na figura da Frau Welt, a “Senhora Mundo”.

As imagens da Frau Welt (ou a Vanitas latina) mostram uma mulher que, de frente, é jovem & desejável, mas, às costas, leva todo o tipo de horrores & imundícies, comida de vermes, propondo que o reverso do prazer mundano é a morte.

(O que encontramos explorado cinicamente por Rimbaud, na “Vénus Anadyomène”).

A Frau Welt

Os livros de Sacher-Masoch & do Marquês de Sade hipertrofiam a idéia neoplatônica de glukúpikron. Neles, o sofrimento desempenha um papel mais óbvio, explícito, ao invés de ser uma sutileza ambígua, & desaparece a interpretação metafísica da sexualidade, restando a mecânica do ato em si para operar essa natureza agridoce percebida na sexualidade, agora cruel.

É também a exploração daqueles limites da sexualidade, que buscam o seu avesso.

O castigo deve parecer prazer, & vice versa, como vemos naquele polêmico quadro pintado pelo brilhante Balthus, “La leçon de guitarre”, que funciona mais dentro de uma hipótese de fantasia do que propriamente sadomasoquismo. É quase alegórica a superposição de sentido entre imagem & título.

Balthus, La leçon de guitarre (1934)


Mas é, evidentemente, a recente angústia já psicanalítica da sexualidade, praticada como doce provocação. O fundamental, me parece, é perceber nas representações que a variedade das idéias reconduz a um mesmo princípio.

E daí temos, por fim, a fotografia recente de Joel-Peter Witkin, que faz referência direta à de Bellocq numa chave de perversidade, ou de inversão ou confusão explícita de um acordo social entre os lugares do prazer, do horror, da morte, da própria sexualidade, freqüentemente representada em corpos femininos com pênis (como a Vênus transsexual, a partir de Botticelli), homens com seios, etc.

Witkin parafraseia a fotografia do século XIX, mas também a parodia, encontrando nela as “peculiaridades a se olhar com lupa”, como escreveu Rimbaud na “Vénus Anadyomène”. Witkin é como o dramaturgo John Webster, segundo o verso de Eliot: much possessed by death. E pratica um contraste/combinação entre beleza & deformidade, misturando-as sem propor-lhes hierarquia alguma, moral ou estética.

Joel-Peter Witkin, Poussin in Hell (1999)

É amor já dentro do seu oposto: o que antes nada mais era que um instante singular de contato, agora torna-se identidade pela força moderna da aproximação do distante.

Mas outros, como Ellen von Unwerth, vêem o amor também como um “segredo deleitoso” à la Milo Manara.


.Silêncio.




Ellen von Unwerth, sem título

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Um anarquista & outros contos


O autor de A Set of Six, em seis retratos

Saiu pela editora Hedra a tradução que fiz de quatro dos contos do excelente volume A Set of Six, que Joseph Conrad publicou em 1908.

Escrevo também uma breve apresentação ao livro de Conrad, que é um precioso artigo da arte do conto: o polonês estava já de posse de todas as suas muitas habilidades como narrador, & propôs pequenas narrativas que ao mesmo tempo prendessem seu leitor & sugerissem, no apurado uso da linguagem, outras camadas de leitura.

Ficaram de fora apenas os dois mais longos, "Gaspar Ruiz" & "O Duelo" (que Ridley Scott adaptou em 1977 no filme The Duellists, com Harvey Keitel). No livro traduzido estão: "O Informante", "Il Conde", "A Bruta" & "Um Anarquista".

Abaixo, a capa da Hedra.


terça-feira, 19 de maio de 2009

CULTURA AGORA, EM QUATRO NOMES


Há autores fundamentais & idéias fundamentais sobre cultura, recentes, que ainda não tiveram o impacto necessário: não são obscuros, é evidente, mas a verdadeira dimensão de suas contribuições está muito longe de ter atingido um nível condigno de aplicabilidade.

São idéias acháveis em livros cuja importância parece se projetar no futuro, porque propõem algo melhor, ou mais amplo, ou mais generoso do que o que se vive. Têm todos aquele aspecto humanístico que é comum ver pronunciado extinto por todo lado.

Não está. E não apenas não está como também apresenta o resultado extraordinário de algumas mentes em ação: são todos autores que conhecem o mundo moderno, mas já são capazes tanto de criticar com precisão os equívocos modernos, quanto de incorporar essa experiência, reinventada.

Comento alguns muito brevemente — quatro aqui —, indicando edições em português & acessíveis.


a) Paolo Portoghesi (1931- )



O grande arquiteto italiano — na minha opinião, o maior arquiteto vivo — é também um pensador seminal.

Após as paisagens modernas terem surgido em metrópoles industriais, infladas & desordenadas, nas quais a qualidade de vida é o que já sabemos, assim como há um vazio na ética da construção (para não falar do aspecto meramente prático ou, por oposição, espetaculoso, de seu design), Portoghesi rediscute a arte da arquitetura no livro Depois da Arquitetura Moderna (aqui no Brasil, pela Martins Fontes).

Estudioso da arquitetura do Renascimento & pouco posterior (dedicou-se especialmente a Borromini), Portoghesi rediscute a questão dos materiais usados, questões de forma & paisagem, uma concepção ecológica do uso de arejamento natural & a utilização de fontes naturais de iluminação, também. Associa, num livro belíssimo, Natura & Architettura, formas encontráveis na natureza & formas históricas da arquietura.

É o oposto daqueles monstros de vidro e concreto, que arruínam o horizonte, escondem o sol, irrespiráveis & cinzentos. Sua obra de arquitetura compõe passado & presente. Repõe a arquitetura no centro do pensamento sobre a vida humana, & como força viva & imaginativa na organização dos espaços públicos.

Um arquiteto que saiba que a ética vitruviana não é mero papel para traças é algo muito, muito raro.


b) Murray Schafer (1933- )


O canadense Murray Schafer repensou o sentido do som, contextualizando-o no espaço & no tempo: aplica suas idéias à paisagem histórica, num conceito chamado soundscape, ou "paisagem sonora", em que aborda o significado do som dentro da vida diária, os sons a que estamos expostos (aviões, carros, rádios, telefones, o zumbido da eletricidade), & pretende reproporcionar a leitura que fazemos do som em sociedades do passado, que não tinham motores ou eletrodomésticos rugindo a toda hora.

É evidente que Schafer parte de outro músico & pensador recente, John Cage, que terá sido o primeiro a pensar nos termos de uma sinfonia de ruídos. Schafer, justamente por esse complexo sonoro inconsciente que foi se juntando à vida, procura torná-lo consciente numa idéia de ecologia sonora.

Um de seus livros mais importantes é O Ouvido Pensante, da década de 1960 (publicado aqui pela editora da Unesp).


c) Jerome Rothenberg (1931- )




O poeta estadunidense, ligeiramente posterior aos beatniks, desenvolveu o conceito de etnopoesia, isto é, aplicar os mecanismos do que chamou "tradução total" para traduzir não apenas o que diz um poema de uma sociedade, por exemplo, indígena, mas também tudo o que concorre para sua produção original.

E assim, por exemplo, na tradução das Horse Songs, Rothenberg também adapta o recitativo encantatório Navajo original para o inglês.

Partindo das muito amplas & variadas hipóteses de tradução poética de Pound, Rothenberg acrescenta uma nova dimensão a essa experiência pela hipótese de que a mera literalidade na tradução de textos (de qualquer espécie) de outra cultura rouba-lhes aquilo que fazia deles poderosos mecanismos de geração de sentido coesivo.

Seu trabalho devolve aquele equilíbrio desejável que se observa nas melhores traduções de poesia, entre a forma & o sentido (porque sentido é forma & viceversa, como sabeis).

Não apenas isso, Rothenberg também reuniu antologicamente a tradição moderna (um contrasenso já resolvido por Octavio Paz) nos três enormes volumes de Poems for the Millennium, que põem todo o modernismo de vanguarda sob nova perspectiva, facilitando o estudo de suas proporções.

No Brasil podemos ler Rothenberg na edição da Azougue (Etnopoesia no Milênio), com poemas & ensaios traduzidos por Luci Collin.


d) João Adolfo Hansen (1942- )


Muito provavelmente o maior crítico literário brasileiro, seus livros — & ensaios ainda não coligidos, o que é lamentável — são, para se ter uma idéia, indispensáveis para a leitura informada de Gregório de Mattos, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade & João Guimarães Rosa.

O que fez não é pouco: restituiu, com uma leitura eruditíssima, a complexidade latente (porque não lida pela crítica anteriormente) nesses autores. Discutiu o caráter anacrônico da maior parte das leituras modernas de obras anteriores ao século XIX & demoliu alcunhas retrospectivas que se penduram na linha do tempo — como, por exemplo, Barroco — & assim expande a discussão de seus autores para um âmbito que retraça formas mentais.

Hansen, muito ao contrário do que possa parecer, é menos um fruto da universidade brasileira do que uma grata anomalia dentro dela. Sua seriedade investigativa & o alcance de sua memória (para sequer mencionar o volume de leituras aproveitadas) são únicos, & não apenas no Brasil, é necessário frisar.

Livros seus: A Sátira e o Engenho (com nova edição da Unicamp + Ateliê), que estuda Gregório de Mattos, ou Alegoria: construção e interpretação da metáfora (em nova edição da Unicamp + Hedra).