segunda-feira, 5 de outubro de 2009
Literatura brasileira perde importante tradutora
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
CEFALÓPODE

leio que o polvo gigante é silencioso,
fluindo sem ossos em noite profunda;
sem corpo: cabeça e tentáculos só.
hectocótilo, o seu sexo imóvel;
& comer, um plano de lentas ventosas:
alcança, então prende, consome e se move.
produz uma tinta e escreve com ela
arabescos ilegíveis no oceano,
água que os esquece quando estão impressos
[se diz: rapida scribere oportet aqua]
na melancólica tinta que o camufla.
também os zoólogos comem sua carne?
— imenso, mas sem corpo, o mole covarde
escreve apenas quando foge ao que não sabe.
pegajoso, e o que expele suja o azul.
terça-feira, 22 de setembro de 2009
HOJE

Não é preciso dizer mais nada.
Quer dizer, fora o fato de que custa uma pequena fortuna. Cela va sans dire.
terça-feira, 15 de setembro de 2009
O pequeno (grande) milagre

É a melhor leitura que um poema meu já teve, & leitura muitíssimo peculiar, essa que reinventa num ora vacilante ora articulado diálogo de timbres & instrumentos, as hipóteses que a mera palavra se esforçava por sugerir antes.
"Signo Sopro II" é uma surpresa sonora que mimetiza & expande, num discurso instrumental, as sugestões de "memória", "linguagem", "Babel", "milagre", que percorriam o poema. Isto é: a obra musical resultante é mais ampla & mais complexa do que o modesto poema que lhe serviu de impulso.
Mas ecoa igualmente as antigas versões da cosmogonia, como Hesíodo, a partir dessas sutis articulações que querem ser coincidência, ou amor (como Empédocles diz), ou acorde. Como um prenúncio de Pitágoras & da música das esferas, esta música é também poética & filosófica.
Grato & admirado pela obra extraordinária, posto aqui o link para a página com o MP3 da faixa.
A gravação está disponível no CD Música Plural (capa acima), em que vai registrada essa obra de Marcus Siqueira & as de outros músicos brasileiros contemporâneos, também acháveis na página acima, que proponho à leitora & ao leitor (ou ouvintes, em que se convertem imediatamente).
O belo trabalho é da Percorso Ensemble, sob a direção & a regência de Ricardo Bologna.
Gaudete.
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Barbara Morton, Gil, Yeats & um lembrete
Daddy doesn't mind a little scandal. He's a senator
É o que diz sábia & humoradamente Barbara Morton, filha de personagem senador, em Strangers on a train (1951). Patricia Hitchcock (acima) faz o papel de Barbara Morton no filme dirigido por seu pai, o nunca assaz louvado mestre Alfred Hitchcock (acima de qualquer suspeita de nepotismo, no entanto).
É claro que o grito de “Fora Sarney” não foi nem será atendido.Na opinião deste modesto cidadão — que cumpre há pouco mais de 15 anos seu dever cívico (não riam, por favor) de votar — o problema é alguém supor que a reivindicação contida no grito se materializasse com, no mínimo, esses 24 anos de atraso.
O assunto é um ponto morto de discussão, & apenas constato, acima: I think it better that in times like these/ A poet's mouth be silent, for in truth/We have no gift to set a statesman right.
Escreveu nosso caro William Butler, como sabeis.
Mais interessante, porque menos abertamente discutido, talvez seja o fato de Gilberto Gil, agora ex-ministro, artista rico & muito popular, ter se metido a conseguir o apoio da Lei Rouanet (quase meio milhão de reais). E conseguiu.
E não apenas conseguiu como, tendo conseguido & tendo sido perguntado sobre o assunto pela Folha de S. Paulo, desconversou: “Me incomoda ter que especular sobre correção, incorreção, ético, não ético...”, respondeu, & perguntou se, por ter sido ministro, estava impedido de participar por “alguma quarentena”.
Não é questão de alguém ou alguma lei o impedir de.
Pergunto-me se desconversou porque sabe, no fundo, de duas coisas:
1) que é rico & notório, & pode captar dinheiro para um show & um DVD sem ajuda pública, daí tardiamente lhe tenha ocorrido um repente de vexada consciência;
2) que, sendo rico & notório, & embora legalmente nada o impeça de participar da brincadeira, talvez perceba que a desnecessidade completa do ato (sem discutirmos a coisa de um rico passar o chapéu pelo dinheiro público) lhe deu um dinheiro que poderia vantajosamente ter ido a artista ainda jovem, desconhecido & sem os recursos sobrantes de sua riqueza.
Dear ole Billyum
Em todo caso, isso me lembrou uma historinha de 1913, tendo os protagonistas William Butler Yeats & Ezra Pound. Como um contraponto.
A revista Poetry, em 1913, decidiu dar seu Guarantor’s Prize a Yeats, que, na época, era um poeta já mundialmente famoso & homem de meia-idade. O prêmio totalizava 50 libras. Yeats pegou elegantemente dez libras para uma placa comemorativa, em gratidão pelo prêmio (que não vinha de dinheiro público, & do qual não tinha ido atrás).
As restantes 40 libras Yeats pediu que dessem a Ezra Pound, jovem poeta vinte anos mais novo. E, sobre o gesto, Yeats disse à editora da revista, Harriet Monroe:
“Sugiro-lhe Pound porque, embora eu realmente não aprecie com todas as minhas forças os experimentos métricos que ele fez para a sua revista, creio que esses experimentos mostram uma mente de vigorosa imaginação. Ele é certamente uma personalidade criativa de alguma espécie, embora talvez seja muito cedo para dizer qual espécie. Seus experimentos talvez sejam erros, não saberia dizer; mas daria antes os louros a um erro vigoroso do que a qualquer ortodoxia sem inspiração”.
Isso é caráter.
Yeats também tentaria demover Pound de se meter em política, dizendo-lhe, a partir de sua própria experiência como senador, que nenhum artista consegue penetrar a escuridão da mente de um político.
Machado de Assis, incomodado com alguém que não pára quieto, fora do enquadramento.
E, estando por lá, leitora & leitor caríssimos, convém uma passeada pelos outros textos, igualmente perspicazes & importantes. Crítica literária mais do que digna do nome.
terça-feira, 18 de agosto de 2009
Soldado, raso

E ele enfiou as peludas patas no cavalo e puxou o perpetrante penetrante fora como um galo de briga nesse gesto esfrega-esfrega sem-vergonha. Lembrava a mina de ouro, brilho algum nem lâmpada, mas os montes recobertos de veludo, o delta arborizado e a montaria — galope ligeiro valente corcel — aquele dia colorido remembravam.
um pente pro tenente
Escova a cova, soca as ovas, bem batidas: dry, on the rocks. Um maço de cigarros, um amasso nos esbarros, o tenente, se bem quente, bem comia. Fuzil na mão, caiu no chão, soldado bonito do meu coração. Uma vara salta tripas, bota sete léguas, sebo nas canelas, quando despencaram-no de sobre um bem contente incontinente. Verga, o seu nome codinome.
Já gostava de ser D. Sebastião, levava a tropaputaquipariu. Louco de dar nós, louco de enrolar com tal balela: "V. é um desajustado e tem deixado a desejar: some dinheiro, some roupa, some tudo, quando o soldado cabeça de papel está solitário. Aproveitando, uma semana". Solitária, como o verme branco que mentalizou semana inteira. Bate continência, bandeira independência, camaradagem tiroteio, volta às ruas.
— E as tuas, a quantas andam?
Não responde nem sorri, com o saco cheio. Homúnculos. Malacheia, o bom ladrão ladrava, caserna uma bigorna! que se dane! Vender uns pares de botas, botões e botar em algum lugar o resto, o rosto entre as mãos. Meter o malho. Numa zona de baixo meretrício. Laticínios, p.f., e bem gostosos. Mamas? O leite numa bacia despejado fumegante, mãos louçãs. A grande mãe úbere despeja sob a luz do sol as glabras tigelas e um salta pra fora recomposto em gesto grácil. Mama. Mama a noite inteira, remembrado dormamindo. Zona de baixo meretrício.
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
Hardy Har Har
"Oh, dia, oh, céus, oh, azar, Lippy: isso não vai dar certo"É um gênero exercido por cricríticos (talvez se sentindo subitamente cheios de importância, já que grandes festivais de literatura chamam sobretudo cricríticos para falar abobrinhas sobre o assunto) ou poetas de quinta categoria que supõem que, declarando uma incompetência geral, se sentirão melhor acompanhados.
E então a poesia está "em crise"; os poetas "não surpreendem"; a poesia brasileira hoje é um "lugar-comum": a velha conversa.
Como a coisa é semanal, comecei a perceber que, mais do que uma evidência em textos para essas pessoas, o negócio se tornou uma espécie de credo, que é tanto mais verdadeiro quanto mais repetido (& elas devem ter colares de contas em que repassam essas frases diariamente).
Repetir que tudo está perdido é um método interessante, porque a crítica é um dos poucos meios em que a rabugem é vista como qualidade altíssima.
E é um tipo de mesquinhez que parece elevada, também, porque implica uma escolha: a de falar sobretudo do que não aprecia. É mesquinho porque faz da incapacidade de apreciar o seu principal argumento, & parece elevado porque soa a grandes exigências.
Mas é fumaça nos olhos: não é uma questão de apreciar a arte & querer o melhor. É usar esse argumento de fundo nobre para generalizar sobre o que, na verdade, se desconhece.
É óbvio que se critica o que não presta (& o que não presta é farto, se se quiser remexer em lixo), porque ninguém sensato postula uma indiferenciação de vale tudo. Mas o constante foco no que não presta, amplificado em generalidades, é uma prática velha & comprovadamente inútil.
Sobretudo porque, passada essa fumaça ordinária, os grandes autores de todo & qualquer período saem ilesos, & ri-se futuramente desses monotemáticos repetidores, que teriam emprego melhor na coluna de necrológios de qualquer jornal diário.

