domingo, 11 de dezembro de 2016

PARA RESUMIR

Nono mês,
Ano I do Golpe de Estado: ditadura de MiSheLL Temer


Em política não há salvadores nem gente pura; não que haja disso em qualquer outra parte da vida humana, mas em administração pública, como também no mundo dos negócios, isso é muito pior. 

Dilma Rousseff cometeu muitos erros & muitos aspectos de suas políticas foram criticáveis: em um ambiente institucional normal é possível que a sociedade civil, organizada, critique, faça suas reivindicações, & mesmo que se arbitre o conflito de opiniões. É a hipótese de uma sociedade organizada como uma democracia representativa.

O Brasil não sabe o que é isso; em parte, porque sobretudo muito pobre, com quase nenhuma educação que fortaleça nas pessoas o pensamento crítico, a consciência de direitos & deveres, uma concepção de coisa pública & o entendimento do que signifique uma idéia de coletividade, especialmente uma que ultrapasse o efeito imediato de qualquer ação. Digamos: o pensar da coletividade, com um ou mais planos.

Ninguém se faz a pergunta essencial: o que se deseja como civilização? Não para que a resposta seja como a que Sir Kenneth Clark definiu naquele velho programa de TV, que Clark era demasiado Sir para que seu ponto de vista sobre essa palavra tivesse seu centro longe da Europa, ou, de modo bem mais apto, tivesse seu centro em toda parte.

Daí que o vídeo acima seja, inevitavelmente, redutor; mas é uma redução necessária, porque estamos falando de um país que demonstrou claramente não ter perspectiva alguma que permita a quem seja pensar com um pouco mais de detalhe, um pouco mais de ambição construtiva: fomos devolvidos à estaca zero.

E, como eu dizia já no começo do nosso presente desastre, lá estava a classe endinheirada nos estádios da Copa gritando insultos rudes, distintivamente machistas, à presidente. Pior, a uma presidente a quem não se pode acusar de sujeira alguma, como vimos nos 9 meses desse processo desonesto, nojento, estúpido, corroído pela caricatura daquilo que é o pior que o Brasil como coletividade foi capaz de produzir.

Para comparação, a Temer, que tem uma lista assombrosa de citações em esquemas de corrupção, grita-se apenas "Fora, Temer". Temer, que demonstrou repetida & profunda covardia; que informou o exterior secretamente sobre aspectos delicados, internos, da tessitura do poder brasileiro; que atraiçoou sua presidente auxiliando golpistas como ele a pô-lo no poder; que articulou sem vergonha alguma a derrubada da democracia com gente mais esperta que ele; que se mostrou mesquinho contra quem quer que se lhe opusesse, & mesmo com a presidente afastada.

Uma criatura moralmente inexistente, politicamente desastrosa, de uma vaidade ridícula & incompatível com sua vacuidade pessoal, intelectual & administrativa. A ele, aqueles que gritam contra o fazem com o "Fora, Temer": talvez porque as pessoas contra o infame sejam significativamente mais dignas do que aquelas que queriam derrubar a presidente democratiamente eleita. É bem provável.

E então, nesta estaca zero tenta-se recuperar o básico, o mais elementar da civilidade, & olhar novamente o percurso que se fez de um momento de continuidade democrática, de melhora de todos os índices do país, até o presente momento de uma gangue golpista & corrupta instalada no poder pela mídia, pelo grande empresariado, por interesses econômicos estranhos aos interesses coletivos do país &, mais importante, por todos aqueles cidadãos deste mesmo país que seguiram a cenoura à frente do nariz direto para o abismo.

Para recuperar o básico, & para o tipo massa de manobra, o tipo que se tornou um dos zumbis do Golpe, um dos escravos dos grupos de protesto comprovadamente comprados por partidos & empresários, um do "efeito manada" de que falou um dos donos da TV Golpe, o vídeo repassa, com ênfase na oposição entre as duas coisas, o tipo de escolha que se fez & se permitiu fazer. 

Cedeu-se à destruição do país, imediata & a longo prazo, apenas para se contemplar a variedade de interesses do grande empresariado brasileiro, que são tipos predadores sem consciência social; dos políticos corruptos, que agora julgam que é sua hora de impunemente saquear tudo (como o provam saqueadores já defenestrados do governo golpista); das grandes empresas de capital transnacional, que queriam o espaço da construção civil, do petróleo & da água, além de mão de obra em regime de semi-escravidão, o que as "reformas" na educação, na saúde & nos gastos públicos (incluindo a previdência) fornecerão; dos juízes que, ligados a interesses de política externa de outros países, ligados a interesses de empresas de petróleo, ligados a interesses de partidos políticos dispostos a doar o Brasil, & por interesse próprio no poder, foram instrumentais para se conseguir essa violência contra a democracia.

Retornamos então à estaca zero, para se identificar o que se fez, &, como já escreveu Chico Buarque na vez anterior em que o Brasil se meteu nesse mesmo buraco da ditadura, para que quem inventou a tristeza "tenha a fineza de desinventar".

O pedido de desculpas - composto no vídeo demonstrativo - pela múltipla agressão cometida sem motivo contra Dilma Rousseff & seu exercício de presidência, é portanto mais do que isso, naturalmente: é uma revisão do transe pelo qual a terra passou, & um clamor para a volta da democracia. Mas, acima de tudo, penso que o vídeo, de texto bem articulado, bastante exato, mire mesmo na volta de uma civilidade perdida, expressa na cena com que se inicia.

Foi lá que a hipnose promovida pela TV Golpe & pela mídia impressa, de massas, como também a da classe mais endinheirada do país, mostrou que começava a fazer verdadeiro efeito. É para lá que se deve voltar para um reexame de rumo, para uma recuperação de sentido coletivo & para que, se se conseguir retomar a democracia, se possa até mesmo voltar a criticar governos de fato representativos, & com civilidade, com inteligência, com exigências que não venham dos preconceitos nem da violência fascista, mas daquele projeto que pretendia trazer a definitiva inclusão dos excluídos, a verdadeira partilha - ética - de recursos & oportunidades.

É um projeto antigo, que teve muitas versões, & que vem no mínimo das muitas revoltas populares de séculos anteriores, & da campanha do abolicionismo. Enfrentar a exclusão, o preconceito, a concentração absurda de renda, o monopólio da mídia, o latifúndio, o descaso com a questão ambiental. 

O caminho em que a jovem democracia brasileira ia era em parte criticável, mas era um caminho efetivo, com conquistas fundamentais já alcançadas & prontas para facilitar conquistas futuras. Agora é lutar por um retorno, no mínimo, àquele ponto - se possível, que a destruição dos últimos nove meses não foi só grande & profunda, como continua ativa, com grupos muito poderosos entusiasmados o suficiente para não parar por nada.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

"E A GENTE AINDA VAI SER OVACIONADO POR ISSO"

Nono mês,
Ano I do Golpe de Estado: ditadura de MiSheLL Temer

Pela justiça & contra a corrupção? Haha.
Mas que divertido: a gente pode falar
qualquer coisa que vai colar.

Novamente, o vosso Demônio já sabia, porque era, além do mais, óbvio. Mas agora vem numa figurinha para todo mundo ver & rever, para todo mundo colar no álbum de cromos do Golpe de Estado.

Como diz o outro: precisa desenhar? 

Se precisava, aí está o desenho. E diante da cara de todo mundo. 

Enfim.

E o fedor do Golpe é cada vez pior, mas explicável: os bueiros, como o vosso Demônio previu com sua certeira bola de cristal, estão abertos para todo mundo cheirar.

Vou andar por aí como o pessoal andava na Idade Média durante a peste negra: com um lenço sob o nariz. Não resolve, mas abranda o fedor.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

O FIM DE UM PAÍS, E A DISTOPIA

Oitavo mês,
Ano I do Golpe de Estado: ditadura de MiSheLL Temer


Brasília, ontem, em foto de Adriano Machado (Reuters)

Ontem, o Brasil deixou de existir como um país. 

Nada mais resta fazer, &, por isso, estamos começando a ver o conflito se transformar em confronto aberto. 

O governo ditatorial, já por ser ditatorial, obriga que aqueles que discordem da unilateralidade de suas decisões escravocratas passem a adotar estratégias diretas para demonstrar o nível de discordância com um projeto de poder que tem duas chaves: completa ilegalidade & completa imposição.

A PEC 55, que torna este país em um grande ajuntamento de escravos para o grupo de Brasília & alguns empresários, é obviamente a pior coisa que alguém pode imaginar para uma nação, porque a partir do desmantelamento da Constituição (de início no Golpe de Estado que destituiu a presidente eleita Dilma Rousseff, ainda no nosso breve período democrático), tudo se torna possível. 

As coisas vão piorar, & a violência vai crescer. 

O Brasil já foi um país: tinha grandes dificuldades, mas era um país. Hoje é só um território dominado por uma gangue de políticos instrumentalizada por parte do Judiciário a cometer todo & qualquer crime que sonhar + um imenso contingente virtual de escravos para ser explorado por seus associados nacionais & estrangeiros, os grandes empresários.

O Brasil não é mais um país, é um episódio bem terrível de Black Mirror

O Brasil, hoje, não passa de uma distopia, um anúncio sombrio de mais sombras.


Por fim, o Estado psicopata do totalitarismo

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

IMPLOSÃO DA DITADURA TEMERÁRIA

Oitavo mês,
Ano I do Golpe de Estado: ditadura de MiSheLL Temer


Tira de Laerte mostra o liliputiano golpista 
inundado num mar de vômito



EXATAMENTE como dizia este Demônio, como todas as pessoas de bom-senso neste & em outros países, nesta semana o caso de Geddel provou que o Golpe aconteceu para retirar do poder uma presidente honesta, eleita democraticamente, &, em seu lugar, meter uma gangue do PMDB que, nas palavras do jornalista Glenn Greenwald, "reúne os líderes políticos mais descaradamente criminosos do continente".

A devastação da queda do sexto infeliz dos quadros da camarilha golpista em meros oito meses se faz sentir de modo tão absolutamente acachapante que ATÉ MESMO a imprensa golpista reagiu contra, e tanto a Não Veja quanto as Organizações Golpe atacaram o Temerária. Até o Partido Safado Do Brasil, criador do Golpe, saiu metendo a boca. 

Ironia? 

O mundo inteiro repercutiu. 

Faço uma lista abaixo, só para que se sinta o drama. Começamos com o esplêndido & completo artigo de Greenwald, traduzido para o português em The Intercept Brasil:

"Novos escândalos de Temer comprovam que o impeachment visava proteção de corruptos"


The New York Times: "Presidente do Brasil, Michel Temer, envolvido em novo escândalo de corrupção" 


BBC News: "Ministro de Michel Temer renuncia por corrupção no Brasil"


Reuters: "Ministro no centro do mais recente escândalo brasileiro renuncia"


Le Monde: "Desestabilização do poder em Brasília"


O nojo desses tipos que estão ATIVAMENTE destruindo o Brasil se pode notar no vídeo abaixo, em que uns servos do poder golpista sorriem com a propaganda prestada, no esquema admitidamente cara-de-pau:

"E até cumprimento você por mais esta propaganda".

Bem que eu recomendava um bom óleo de peroba para o jornalismo brasileiro de massa. Espero que o carregamento de umas boas toneladas esteja a caminho.

Que chegue antes de se chutar o liliputiano da cadeira usurpada.



Aproveitando: quer saber mais? no filme de Oliver Stone, Snowden (2016), mostra-se, com o inacreditável sacrifício de Edward Snowden, a brutal generalização da espionagem no mundo, o que sobretudo está aniquilando os direitos civis & tem servido, entre outras coisas, para desestabilizar lugares-chave no mundo.

Um exemplo? o Brasil. Mostram-se de passagem imagens de líderes mundiais, incluindo Dilma Rousseff, & mostra-se que um dos objetivos, no Brasil, era desestabilizar a Petrobrás.

Para quê?

Ora, pergunte ao golpista MiSheLL, que está doando uma das maiores companhias de petróleo do mundo à iniciativa privada estrangeira. 

Se você acha que é mero acaso, o Papai Noel está vindo te pegar.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

LEONARD COHEN (1934-2016)

Oitavo mês,
Ano I do Golpe de Estado: ditadura de MiSheLL Temer



Considero que o annus terribilis de 2016 começou com a morte de David Bowie & está oficialmente encerrado com a morte de Leonard Cohen, incluindo os não poucos terrores entre um & outro.

Gostaria de imaginar que, na fantasia da mudança de ano, 2017 se torne um ano melhor, mas é bastante óbvio que a coisa não aponta para isso. 

Vamos no entanto lembrar do homem extraordinário:



Brace yourselves, winter is coming, mesmo com o derretedor verão brasileiro.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

15 ANOS DE UM PLANO LENTO, MAS SEGURO, PARA O MUNDO

Oitavo mês,
Ano I do Golpe de Estado: ditadura de MiSheLL Temer

Há quinze anos, um plano de recondução do mundo ocidental para as mãos da direita (na maior parte dos casos, não uma direita esclarecida, mas a extrema direita, ou simplesmente os debilóides já conhecidos, por exemplo, no Brasil) foi posto em prática, porque notou-se que a via eleitoral, naquelas condições, seria impossível & continuaria dando vitória ao que se chama centro-esquerda.

Direita, vamos esclarecer: o favorecimento dos privilégios & dos ricos; o preconceito contra cor de pele, sexualidade, religiosidade, preconceito de classe, a xenofobia, etc, porque permite juntar os iguais; a farsa do "mercado livre" que se "autorregula", mas que na primeira encrenca pede para o Estado vir em socorro (os riquíssimos bancos de investimento na crise de 2008, empresas como a Oi no Brasil, hoje); a receita da violência, ao invés da diplomacia; o uso da classe média & dos pobres como massa escrava, que vive da ilusão hipnótica de um dia ascender socialmente ao topo da sociedade de consumo; a restrição das liberdades & direitos civis; espionagem, agora facilitada pelas telecomunicações velozes, cujo conteúdo está nas mãos de grandes empresas; o conservadorismo dos costumes em público, mas total imoralidade quando longe das câmeras; concentração de poder & renda; lavagem mental das massas por meio da mídia, para resultar no que Étienne de la Boétie já havia definido no século XVI como "servidão voluntária".

Suas armas: fraude; a nova palavrinha mágica da hipnose pública, "terrorista"; guerra; propaganda midiática do medo, seja o medo do estrangeiro, seja o medo de perder o emprego, seja o medo da oscilação das bolsas, seja o medo da violência urbana, do terror, de uma pandemia, etc; & por fim, manipulação do caldo de medo em ódio fascista.

Foi um plano bem executado, mesmo que partes dele fossem escancaradas como mentira diante dos olhos do público mundial. A mentira das armas de destruição em massa no Iraque, a mentira do Estado Islâmico, a mentira, já aqui na nossa casa, do "crime de responsabilidade".

Tudo rapidamente esquecido, porque há muita TV depois, avalanches de notícias idiotas, o tocar a vida.

Fomos levados, nesses 15 anos, a uma condição semelhante à que deixou o mundo à beira da Segunda Guerra Mundial, no fim dos anos 1930, com o mundo tomado por ódio chancelando o totalitarismo. O objetivo? Lucro & domínio político.

Se houve a crise de 1929, agora tivemos a crise de 2008; se havia a perseguição aos judeus, agora há aos muçulmanos; se havia o ódio econômico aos estrangeiros, há o ódio econômico aos estrangeiros; se havia tipos de extrema direita chegando ao poder no mundo todo, há tipos de extrema direita chegando ao poder no mundo todo.

A tensão era palpável, & hoje também é.

Nos EUA, hoje, realiza-se hoje uma eleição presidencial marcada sobretudo pela disputa grosseira & por um candidato tão extremo que a candidata de que todos desconfiam se tornou o único meio de não pôr no poder alguém que odeia explicitamente a diferença.

O que sairá disso? 

Penso que pouco, porque é um espetáculo para os olhos públicos. O que na política tem se tornado cada vez mais importante é o que se passa por trás desse circo, quando ninguém está olhando: o que não está nem em declarações abusivas para a multidão, nem no fuçar de e-mails. 

E o que está nesse escuro é o plano de 15 anos, que veremos se desdobrar nos próximos anos a despeito do que aconteça hoje nos EUA. No Brasil nota-se como é simples pôr algo assim em ação: quem tem poder puxa as cordas para obrigar, a quem queira sobreviver, que não pise fora da linha, & a intimidação vai do emprego à segurança pessoal.

Talvez seja oportuno, então, assistir novamente a Fahrenheit 9/11 (2004), documentário de Michael Moore, sobretudo porque sinto que a maior parte das pessoas, mesmo as de bom-senso, perdeu de vista muito do que o filme demonstrou sobre como o poder - lá como aqui & em toda parte - se faz. 

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

R$ 37.476,93, BRUTO

Oitavo mês,
Ano I do Golpe de Estado: ditadura de MiSheLL Temer


Na verdade ele está triste


O que vocês lêem no título desta postagem é o valor bruto que recebeu, no mês de outubro, como ministro do Supremo Tribunal Federal, o juiz Enrique Ricardo Lewandowski, o que se pode achar no portal de consulta de remuneração do site do STJ. Nem estamos falando, por exemplo, que Lewandowski também é professor da USP.

Ele, no entanto, parece achar tudo isso pouco para as despesas.

Como noticia o site Brasil 24/7, Lewandowski defende o aumento de seu salário com o seguinte argumento: "não há vergonha nenhuma nisso, porque os juízes, no fundo, são trabalhadores como outros quaisquer, e têm seus vencimentos corroídos pela inflação"; "Condomínio aumenta, IPTU aumenta, a escola aumenta, a gasolina aumenta, o supermercado aumenta, e o salário do juiz não aumenta? E reivindicar é feio? É antissocial isso? Absolutamente, não".

Isso dá o que pensar.

Consideremos: o salário mínimo praticado atualmente é de R$ 880. Segundo o IBGE, no Censo de 2010, mais de 46% da população trabalhadora do Brasil ganhava no máximo 2 salários mínimos. Quem ganhava 5 salários mínimos não chegava a 6% da população.

E nós nem mencionamos a quantidade bizarra de gente sem vencimentos de espécie alguma. O desemprego, sob o golpista, chegou a 12 milhões de pessoas nos números oficiais.

Ahora bien, eu julgo que essas pessoas também "têm seus rendimentos corroídos pela inflação"; acho que também para elas "condomínio aumenta, IPTU aumenta, a escola aumenta, a gasolina aumenta, o supermercado aumenta". 

Ou não? Ou algo me escapa?

O mínimo que se pode dizer da disparatada & graciosa declaração do juiz é que está em franco contraste com qualquer definição, por menos filosófica que seja, de realidade. 

Por que, de fato, o ministro Lewandowski teria qualquer vergonha ou acharia feio pedir ainda mais para si, uma vez que há tantas despesas para o seu limitadíssimo salário líquido de R$ 24.062, 21?

O único que consigo imaginar seria de natureza ética. Imaginemos alguém consciente da abissal desigualdade no país, & que ganhasse perto de 40 mil mensais, no bruto. 

Essa pessoa deveria realmente sentir uma bruta duma vergonha de querer aumento de um centavo que fosse. Deveria, eticamente, repensar os próprios ganhos & considerar seriamente reduzi-los, iniciar campanha para esse efeito, se preciso. Sobretudo se o governo, além de golpista, vem cortando dinheiro de políticas sociais essenciais para os mais pobres. Congelando gastos em saúde, educação & cultura por 20 ditatoriais anos.

Esse pudor, ou vergonha, é o que se chama comportamento ético, aplicado à coisa pública. 

Mas, como lemos na velha frase de George Orwell, "uns são mais iguais que os outros": deve ser essa a lei que o juiz conhece tão bem, em sua estratosférica, suprema igualdade, dentro do contexto de quanto tem para tentar sobreviver a maioria esmagadora dos brasileiros.

Democracia, isto é, governo do povo; plutocracia, ou seja, governo dos ricos. 

O vosso demônio pergunta: qual dos dois casos vocês aí acham que é o do Brasil?

Nada feio, juiz. Justíssimo, o seu aumento. Inteiramente condizente, na opinião deste poeta, com o tipo de governo instalado neste país. 

Mas talvez o melhor jeito mesmo seria perguntar ao juiz quanto acha que deveria ganhar, se os R$ 37.476,93, no bruto, estão assim defesados, a ponto de comprometer-lhe a vida. 

A gente certamente não quer que um juiz do Supremo viva na miséria. E o brasileiro - como eles sorrindo sabem - é um povo obediente, dócil.