Oitavo mês, Ano I do Golpe de Estado: ditadura de MiSheLL Temer
Tira de Laerte mostra o liliputiano golpista
inundado num mar de vômito
EXATAMENTE como dizia este Demônio, como todas as pessoas de bom-senso neste & em outros países, nesta semana o caso de Geddel provou que o Golpe aconteceu para retirar do poder uma presidente honesta, eleita democraticamente, &, em seu lugar, meter uma gangue do PMDB que, nas palavras do jornalista Glenn Greenwald, "reúne os líderes políticos mais descaradamente criminosos do continente".
A devastação da queda do sexto infeliz dos quadros da camarilha golpista em meros oito meses se faz sentir de modo tão absolutamente acachapante que ATÉ MESMO a imprensa golpista reagiu contra, e tanto a Não Veja quanto as Organizações Golpe atacaram o Temerária. Até o Partido Safado Do Brasil, criador do Golpe, saiu metendo a boca.
Ironia?
O mundo inteiro repercutiu.
Faço uma lista abaixo, só para que se sinta o drama. Começamos com o esplêndido & completo artigo de Greenwald, traduzido para o português em The Intercept Brasil:
"Novos escândalos de Temer comprovam que o impeachment visava proteção de corruptos"
O nojo desses tipos que estão ATIVAMENTE destruindo o Brasil se pode notar no vídeo abaixo, em que uns servos do poder golpista sorriem com a propaganda prestada, no esquema admitidamente cara-de-pau:
"E até cumprimento você por mais esta propaganda".
Bem que eu recomendava um bom óleo de peroba para o jornalismo brasileiro de massa. Espero que o carregamento de umas boas toneladas esteja a caminho.
Que chegue antes de se chutar o liliputiano da cadeira usurpada.
Aproveitando: quer saber mais? no filme de Oliver Stone, Snowden (2016), mostra-se, com o inacreditável sacrifício de Edward Snowden, a brutal generalização da espionagem no mundo, o que sobretudo está aniquilando os direitos civis & tem servido, entre outras coisas, para desestabilizar lugares-chave no mundo.
Um exemplo? o Brasil. Mostram-se de passagem imagens de líderes mundiais, incluindo Dilma Rousseff, & mostra-se que um dos objetivos, no Brasil, era desestabilizar a Petrobrás.
Para quê?
Ora, pergunte ao golpista MiSheLL, que está doando uma das maiores companhias de petróleo do mundo à iniciativa privada estrangeira.
Se você acha que é mero acaso, o Papai Noel está vindo te pegar.
Oitavo mês, Ano I do Golpe de Estado: ditadura de MiSheLL Temer
Considero que o annus terribilis de 2016 começou com a morte de David Bowie & está oficialmente encerrado com a morte de Leonard Cohen, incluindo os não poucos terrores entre um & outro.
Gostaria de imaginar que, na fantasia da mudança de ano, 2017 se torne um ano melhor, mas é bastante óbvio que a coisa não aponta para isso.
Vamos no entanto lembrar do homem extraordinário:
Brace yourselves, winter is coming, mesmo com o derretedor verão brasileiro.
Oitavo mês, Ano I do Golpe de Estado: ditadura de MiSheLL Temer
Há quinze anos, um plano de recondução do mundo ocidental para as mãos da direita (na maior parte dos casos, não uma direita esclarecida, mas a extrema direita, ou simplesmente os debilóides já conhecidos, por exemplo, no Brasil) foi posto em prática, porque notou-se que a via eleitoral, naquelas condições, seria impossível & continuaria dando vitória ao que se chama centro-esquerda.
Direita, vamos esclarecer: o favorecimento dos privilégios & dos ricos; o preconceito contra cor de pele, sexualidade, religiosidade, preconceito de classe, a xenofobia, etc, porque permite juntar os iguais; a farsa do "mercado livre" que se "autorregula", mas que na primeira encrenca pede para o Estado vir em socorro (os riquíssimos bancos de investimento na crise de 2008, empresas como a Oi no Brasil, hoje); a receita da violência, ao invés da diplomacia; o uso da classe média & dos pobres como massa escrava, que vive da ilusão hipnótica de um dia ascender socialmente ao topo da sociedade de consumo; a restrição das liberdades & direitos civis; espionagem, agora facilitada pelas telecomunicações velozes, cujo conteúdo está nas mãos de grandes empresas; o conservadorismo dos costumes em público, mas total imoralidade quando longe das câmeras; concentração de poder & renda; lavagem mental das massas por meio da mídia, para resultar no que Étienne de la Boétie já havia definido no século XVI como "servidão voluntária".
Suas armas: fraude; a nova palavrinha mágica da hipnose pública, "terrorista"; guerra; propaganda midiática do medo, seja o medo do estrangeiro, seja o medo de perder o emprego, seja o medo da oscilação das bolsas, seja o medo da violência urbana, do terror, de uma pandemia, etc; & por fim, manipulação do caldo de medo em ódio fascista.
Foi um plano bem executado, mesmo que partes dele fossem escancaradas como mentira diante dos olhos do público mundial. A mentira das armas de destruição em massa no Iraque, a mentira do Estado Islâmico, a mentira, já aqui na nossa casa, do "crime de responsabilidade".
Tudo rapidamente esquecido, porque há muita TV depois, avalanches de notícias idiotas, o tocar a vida.
Fomos levados, nesses 15 anos, a uma condição semelhante à que deixou o mundo à beira da Segunda Guerra Mundial, no fim dos anos 1930, com o mundo tomado por ódio chancelando o totalitarismo. O objetivo? Lucro & domínio político.
Se houve a crise de 1929, agora tivemos a crise de 2008; se havia a perseguição aos judeus, agora há aos muçulmanos; se havia o ódio econômico aos estrangeiros, há o ódio econômico aos estrangeiros; se havia tipos de extrema direita chegando ao poder no mundo todo, há tipos de extrema direita chegando ao poder no mundo todo.
A tensão era palpável, & hoje também é.
Nos EUA, hoje, realiza-se hoje uma eleição presidencial marcada sobretudo pela disputa grosseira & por um candidato tão extremo que a candidata de que todos desconfiam se tornou o único meio de não pôr no poder alguém que odeia explicitamente a diferença.
O que sairá disso?
Penso que pouco, porque é um espetáculo para os olhos públicos. O que na política tem se tornado cada vez mais importante é o que se passa por trás desse circo, quando ninguém está olhando: o que não está nem em declarações abusivas para a multidão, nem no fuçar de e-mails.
E o que está nesse escuro é o plano de 15 anos, que veremos se desdobrar nos próximos anos a despeito do que aconteça hoje nos EUA. No Brasil nota-se como é simples pôr algo assim em ação: quem tem poder puxa as cordas para obrigar, a quem queira sobreviver, que não pise fora da linha, & a intimidação vai do emprego à segurança pessoal.
Talvez seja oportuno, então, assistir novamente a Fahrenheit 9/11 (2004), documentário de Michael Moore, sobretudo porque sinto que a maior parte das pessoas, mesmo as de bom-senso, perdeu de vista muito do que o filme demonstrou sobre como o poder - lá como aqui & em toda parte - se faz.
Oitavo mês, Ano I do Golpe de Estado: ditadura de MiSheLL Temer
Na verdade ele está triste
O que vocês lêem no título desta
postagem é o valor bruto que recebeu, no mês de outubro, como
ministro do Supremo Tribunal Federal, o juiz Enrique Ricardo Lewandowski, o que se
pode achar no portal de consulta de remuneração do site do STJ. Nem estamos falando, por exemplo, que Lewandowski também é professor da USP.
Ele, no entanto, parece achar tudo isso pouco para as despesas.
Como noticia o site Brasil 24/7,
Lewandowski defende o aumento de seu salário com o seguinte argumento: "não
há vergonha nenhuma nisso, porque os juízes, no fundo, são trabalhadores como
outros quaisquer, e têm seus vencimentos corroídos pela inflação";
"Condomínio aumenta, IPTU aumenta, a escola aumenta, a gasolina aumenta, o
supermercado aumenta, e o salário do juiz não aumenta? E reivindicar é feio? É
antissocial isso? Absolutamente, não".
Isso dá o que pensar.
Consideremos: o salário mínimo
praticado atualmente é de R$ 880. Segundo o IBGE, no Censo de 2010, mais de 46%
da população trabalhadora do Brasil ganhava no máximo 2 salários mínimos. Quem
ganhava 5 salários mínimos não chegava a 6% da população.
E nós nem mencionamos a
quantidade bizarra de gente sem vencimentos de espécie alguma. O desemprego, sob o golpista, chegou a 12 milhões de pessoas nos números oficiais.
Ahora bien, eu julgo que essas
pessoas também "têm seus rendimentos corroídos pela inflação"; acho
que também para elas "condomínio aumenta, IPTU aumenta, a escola aumenta,
a gasolina aumenta, o supermercado aumenta".
Ou não? Ou algo me escapa?
O mínimo que se pode dizer da
disparatada & graciosa declaração do juiz é que está em franco contraste
com qualquer definição, por menos filosófica que seja, de realidade.
Por que, de fato, o ministro
Lewandowski teria qualquer vergonha ou acharia feio pedir ainda mais para si,
uma vez que há tantas despesas para o seu limitadíssimo salário líquido de R$
24.062, 21?
O único que consigo imaginar seria de natureza ética. Imaginemos alguém consciente da abissal desigualdade no país, & que ganhasse perto de 40 mil mensais, no bruto.
Essa pessoa deveria realmente sentir uma bruta duma vergonha de querer aumento de um centavo que fosse. Deveria, eticamente, repensar os próprios ganhos & considerar seriamente reduzi-los, iniciar campanha para esse efeito, se preciso. Sobretudo se o governo, além de golpista, vem cortando dinheiro de políticas sociais essenciais para os mais pobres. Congelando gastos em saúde, educação & cultura por 20 ditatoriais anos.
Esse pudor, ou vergonha, é o que se chama comportamento ético, aplicado à coisa pública.
Mas, como lemos na velha frase de
George Orwell, "uns são mais iguais que os outros": deve ser essa a
lei que o juiz conhece tão bem, em sua estratosférica, suprema
igualdade, dentro do contexto de quanto tem para tentar sobreviver a
maioria esmagadora dos brasileiros.
Democracia, isto é, governo do
povo; plutocracia, ou seja, governo dos ricos.
O vosso demônio pergunta:
qual dos dois casos vocês aí acham que é o do Brasil?
Nada feio, juiz. Justíssimo, o
seu aumento. Inteiramente condizente, na opinião deste poeta, com o tipo de
governo instalado neste país.
Mas talvez o melhor jeito mesmo
seria perguntar ao juiz quanto acha que deveria ganhar, se os R$
37.476,93, no bruto, estão assim defesados, a ponto de comprometer-lhe a
vida.
A gente certamente não quer que um
juiz do Supremo viva na miséria. E o brasileiro - como eles sorrindo sabem - é
um povo obediente, dócil.
Sétimo mês, Ano I do Golpe de Estado: ditadura de MiSheLL Temer
Bob Dylan diz ao pessoal lá na Suécia como quer receber o prêmio
BOB DYLEMA,
ou "before you can call him a man"
Quando soube que Bob Dylan havia recebido o Nobel de Literatura achei que eu mesmo havia estado muito enganado todo esse tempo a respeito da velha academia sueca, & ela, na verdade, tinha senso de humor.
Um senso de humor afim daquele de Kurt Schwitters, Francis Picabia, Hans Arp, Tristan Tzara, Marcel Duchamp & até mesmo, va savoir, Groucho Marx.
Na verdade, não: quando Dylan não deu um pio sobre o assunto, & há séria dúvida de que vá receber o prêmio com um discursinho puxa-saco, a academia já resolveu dizer que o grande Mr. Tambourine Man é "arrogante" & outras coisas do mesmo cariz.
Sempre penso que o velho deitado é quem sabe mais. O velho deitado diria pro pessoal empertigadinho do Nobel que "quem não pode com mandinga não carrega patuá".
E, como diria o vovô Pound, "o resto é literatura". Espero que António Lobo Antunes nunca ganhe esse prêmio, porque, como uma vez nos lembrou Erik Satie a propósito de Ravel ganhar a Légion d'honneur francesa & rejeitar o prêmio: "ele pode ter rejeitado, mas toda a sua obra o mereceu".
E se alguém ainda quer sátira, que ouça Hugh Laurie, "Protest Song":
All we gotta do is...all we gotta do is...
***
DE LA POÉSIE,
ou o lançamento de L'Azur Blasé,
de Guilherme Gontijo Flores
+ Retendre la corde vocale
E há a poesia brasileira, em pleno funcionamento, & em geral longe dos holofotes.
Flores é uma caso raro: já ganhou o Jabuti & outros prêmios prestigiosos; é um dos nossos melhores tradutores em atividade; & lançou mais uma parte de sua tetralogia iniciada com Brasa Enganosa (2013), o que vocês vêem acima, L'Azur Blasé (Kotter + Ateliê, 2016).
Autor jovem, professor & tradutor de latim (deu-nos o presente da tradução completa & anotada das Elegias de Propércio, coisa que eu não achava que veria em vida), publica o novo livro de poemas sob o signo bastante oportuno da farsa, da sátira: do humor, de um modo geral.
Há coisas excelentes no livro. Uma delas deixo aqui para atiçar o gosto do leitor & da leitora em busca de um exemplar:
tese segunda - como contar a história
como contar a história
sem história sem
erfahrung
(c'est très chic!)
pra contar
se bombas sobre bombas são também
as metabombas
são milagres no ar
que
cataplof
explodem sem ninguém
que possa testem-unha-teste-mar
mas como imaginar
uma pós-bomba
a bomba pra acabar com toda
bomba?
Poésie brésilienne vivante
E acaba de sair na França, organizada & traduzida por Patrick Quillier, Retendre la corde vocale: Anthologie de la poésie brésilienne vivante (Le Temps de Cerises éditeurs, 2016), que inclui 24 autores contemporâneos a partir de Augusto de Campos, passando por este Dirceu Villa que vos escreve.
ou por que o Brasil deveria ler MacBeth, de Master William,
a peça sobre usurpação & ambição desmedida
"Querem formar um exército de não-pensantes",
diz Ana Júlia, 16 anos, que pensa bem mais
que a maioria de gente bem mais velha que ela
Ana Júlia, menina de 16 anos, estudante secundarista de colégio público no Paraná, foi à Câmara Legislativa falar aos deputados sobre a legitimidade das ocupações das escolas, promovidas por estudantes, porque tanto os ratos da política quanto os ratos da mídia (haveria ratoeira para todos?) atacam aqueles que lutam por seus direitos, que lutam por educação.
Deputado se irritou quando a menina, articulada, mas jovem, & sem papas sociais na língua, soltou que eles, os políticos, tinham sangue nas mãos pela morte do garoto Lucas, das ocupações.
O irritado prosseguiu tentando aproveitar o fato de que a menina corajosa & muito jovem estava lutando com as próprias emoções para estar diante daqueles marmanjos tipos sinistros, & tentou desestabilizá-la de vez: mas ela driblou o deputado, reafirmou a responsabilidade social deles, essa responsabilidade que muitos tipos públicos esqueceram que deveriam ter.
Uns cretinos de rotina da internet saíram dizendo que o menino foi morto por outro menino, sem pensar que o pretenso fato de um menino ser morto por outro nesse nível de desastre público arquitetado pelo esgoto vivo do país tenha qualquer coisa a ver com a sujeira bruta & as políticas de injustiça postas em prática por aqueles bueiros vivos da vida pública.
Mas os cretinos da internet estão naquele mesmo cercadinho com lama em que passam o dia rolando suas panças.
"Escola sem partido", defendida, por exemplo, pelo grande intelectual brasileiro Alexandre Frota, é o título que apenas tenta driblar o nome que a coisa realmente tem, e que Ana Júlia sublinhou em sua fala, a "Lei da Mordaça".
É para calar quem discorda. Isso nunca funciona, ou veja-se no que deu a censura da nossa outra ditadura, aquela militar: é hoje notório o que então se escondia. Até a TV Golpe saiu pedindo desculpa (esfarrapada) por ter inventado a tristeza, sem a fineza de desinventar.
E, como soube MacBeth, não é com gritos nem com água que se conseguiria lavar o sangue que há nas mãos.
Uns, que gostam de se chamar, ah-ham, "liberais", apóiam tudo isso, como apóiam o aumento de salário para deputados, o aumento de verba de gabinete, &, por outro lado, o congelamento de 20 anos de gastos públicos com saúde & educação.
Liberais, claro: para eles, tudo está liberado.
Para os outros, o que sobrar da lambança dos liberais, se sobrar. Como antes, quando o servo comia o resto da mesa do senhor. Os liberais acham isso tudo muito normal: tem quem manda, tem quem é mandado. Cavalcanti & cavalgado, como na velha quadra.
Professores, intelectuais & artistas em sua esmagadora maioria não são de direita, não abraçam o Golpe, não apóiam o liliputiano idiota, nem medidas que acabam com o bem pouco que se conseguiu em termos de direitos civis, de distribuição de renda, de garantias sociais.
O motivo é simples: o metiê dessas pessoas é pensar.
Pensar, mes amis, costuma ajudar um bocado.
***
A INQUISIÇÃO BRASILEIRA,
ou um pouco de comparações instrutivas
Estátua retratando Girolamo Savonarola (1452-1498) em Ferrara
Não posso dizer que tudo tenha começado com o lúcido Professor Cerqueira Leite em seu texto para a Folha, comparando Moro a Savonarola, porque é óbvio que já antes faziam-se comparações igualmente interessantes de seu comportamento a outras coisas escabrosas na História.
A Inquisição, por exemplo, como um dos maiores advogados deste planeta, Geoffrey Robertson, disse sobre o caso de Lula, em que está trabalhando junto com a ONU para tentar livrar o ex-presidente do - com a devida licença poética - julgamento por um juiz que já decidiu a sentença:
"The extraordinary nature of criminal law in Brazil:
it is based on the inquisitorial system devised
by the Catholic Church in the XVII century"
Físico, engenheiro & professor muito importante & há muito tempo, Cerqueira Leite apenas teve a delicadeza de emprestar seu peso ético & intelectual a escancarar a bizarrice institucional que vive o país dos bananas ao puxar a comparação com Savonarola, & Robertson com a Inquisição.
Não fez outra coisa o sociólogo Aldo Fornazieri ao puxar comparação do que está acontecendo aqui com a Alemanha nazista, o que incomoda muitíssimo a jornalista da TV Golpe que não esperava por isso, aqui:
"A lei em movimento, uma coisa que os nazistas faziam muito bem
(...), que é o que o juiz Moro e os procuradores fazem".
E acho graça dos três poderes estarem se matando (o quarto defende o vencedor, ou faz um vencedor que seja pontualmente útil, como sabemos, & eis aí o Micharia Temerária, metendo os pés pelas mãos, para provar).
Acho graça porque esses três poderes, que são só um na verdade, foram todos conspiradores. E, como a História mostra para quem quiser estudar (ou Game of Thrones o faz, para quem quiser se divertir), conspiração não acaba bem para conspirador.
Tomemos o Savonarola, do exemplo de Cerqueira Leite: Florença vinha de sua glória sob Lorenzo, que fez o Renascimento (em boa parte por ele tivemos como tivemos Angelo Poliziano, Marsilio Ficino, Pico della Mirandola, Sandro Botticelli, Michelangelo, Leonardo da Vinci, & um considerável etc), fez a Pax Medicea, enfrentou o rei de Nápoles, enfrentou o papa, enfrentou os Pazzi.
Lorenzo afastou os oligarcas de então, que recuavam sua prosápia até os deuses; afastou o interesse estrangeiro que queria se meter em Florença; & proporcionou um período de realizações incomuns de que se fala até hoje.
Mas chegou, perto do fim de seu governo, um tipinho moralista, vindo da bela Ferrara, Girolamo Savonarola: ao menos Savonarola era alguém realmente educado (tem um texto de fato inteligente sobre poesia, pouco lido) & eloqüente. Essa eloqüência o terá levado, pelas mãos de Pico della Mirandola, a San Marco em Florença.
Lá condenou os Medici, por corruptos; condenou os costumes, por licenciosos (supõe-se que, arrependido de sua licenciosidade, Botticelli tenha lançado à fogueira das vaidades alguns de seus inestimáveis quadros); condenou, condenou, condenou (ah, as curiosíssimas semelhanças na História).
Seu objetivo? Limpeza moral?
Não, crianças: o de todos os moralistas, o poder.
Foi o líder de facto de Florença após a morte de Lorenzo & a arruinou (foi chamado por Ficino de Anticristo). Foi excomungado pela Igreja, foi preso & processado, depois enforcado & torrado numa fogueira - como no contrapasso dantesco - uma daquelas a que havia condenado tanto do melhor de Florença.
Suas ambições desmedidas se tornaram cinzas.
Placa no chão da Piazza della Signoria, em Florença,
onde foi queimado Savonarola
Moralistas são falsos, por definição: são facciosos, & não limpos como fingem ser. E aqueles facciosos que concentram poderes que não deveriam ter são duplamente falsos. Por trás dessa falsidade está a covardia & o desejo de poder.
Em um primeiro momento, os facilmente impressionáveis & os setores de poder a quem servem chamam-nos heróis ou salvadores. Não duram, porque aquilo de que acusam os outros (incluindo os inocentes) normalmente é pior neles.
Seu final é sempre nefando.
As tragédias antigas propunham uma figura, a de Nêmesis, que não é, como se pensa em geral, a deusa da mera vingança: Nêmesis é coisa mais complexa, é a desgraça que os atos abusivos de seus personagens já traziam em germe dentro de si.
Nêmesis se gerou no Brasil em 2016.
E sabemos que há fogo nas ruas, que poderá esquentar mais ainda quando revelarem que haverá eleição indireta para presidente.
Sétimo mês, Ano I do Golpe de Estado: ditadura de MiSheLL Temer
Uma coisa que se sabe sobre a poesia contemporânea brasileira é que nada se sabe sobre ela.
Não obstante, a poesia brasileira escrita hoje é uma das mais importantes do mundo: há um bom número de poetas realizando obras que, se não se conhecem hoje, serão sem dúvida conhecidas no futuro.
Para que esse último vaticínio não acabe se concretizando, uma ou outra pessoa, sobretudo na esfera digital, tem escrito por vezes artigos, publicado poemas de poetas contemporâneos, tentado fazer circular obras & conhecimentos que de outra forma estariam relegados a uma sombra injustificável.
A Kruchin Arquitetura ofereceu seu espaço para um evento literário importante, que ficou a meu cargo organizar, & para o qual também escreverei três programas impressos sobre os poetas, & que serão distribuídos aos inscritos.
O evento se chama Poesia ao(s) vivo(s), contrariando aquela impressão funérea de que toda poesia é a Sociedade dos Poetas Mortos, & apresentando poetas bem vivos, com obras bem vivas.
Inicialmente teremos encontros de leitura & conversa com três deles: Ana Rüsche, Horácio Costa & Guilherme Gontijo Flores. Autores de gerações diversas, com livros de poesia, prosa ficcional, ensaio & tradução, todos já desenvolvem obras apreciáveis, trazendo para a literatura brasileira novidades que a transformam & que apresentam o foco imprescindível da poesia para o que se vive hoje.
Os encontros acontecerão em novembro. Informações de lugar, inscrição & mais, abaixo:
Sétimo mês, Ano I do Golpe de Estado: ditadura de MiSheLL Temer
Vocês devem se lembrar do Pateta como Sr. Andante
& Sr. Volante, não? Se não, aí está.
Sr. Andante & Sr. Volante
Há pessoas na esquerda criticando um dos lemas do simpático João Dólar Jr., o que promete finalmente aos motoristas de São Paulo que poderão pisar fundo & voltar a se estraçalhar uns contra outros nas ruas, nas avenidas & nas marginais.
Eu, não. Não me queixo nem acho ruim.
Talvez as pessoas não se lembrem de que a cidade de São Paulo é superpopulosa, com gente saindo pelo ladrão, como muitos políticos costumam fazer: saem todos pelo ladrão.
Talvez as pessoas nem tenham notado que o agora antigo prefeito, com suas odiadas medidas de redução da velocidade, conseguiu diminuir em 38% o número de acidentes de carro na cidade.
Ele estava na contramão do progresso & da civilização: por que salvar todas essas vidas no trânsito? Para a cidade continuar cheia? E, com toda probabilidade, em sua maioria, de fascistas?
Dólar Jr. tem razão, & eu aprovo a medida que ele tomará em seu primeiro dia no cargo.
It's a crap!
Em tempo, o sábio Dólar Jr. também afirmou que dará os parques da cidade à iniciativa privada.
Por quê?
Ora, diz ele, para, entre outras coisas, que os parques tenham bons & limpos banheiros.
Agora entendi a iniciativa privada. Aliás, sendo ele um gestor (tem certeza de que não disse feitor?), poderíamos chamar à nova administração "iniciativa privada".
Nasci em 1975. Publiquei a duras penas quatro livros de poesia: MCMXCVIII (Badaró, 1998), Descort (Hedra, 2003), Icterofagia (Hedra, 2008) e Transformador (Demônio Negro, 2014). Traduzi & anotei um livro de poemas de Ezra Pound, Lustra (2011). Publiquei ensaios, traduções & otras cositas neste Brasil, no México, nos EUA, no País de Gales, em Portugal, na Argentina, na Alemanha, na Inglaterra, na Espanha, na França & na Itália. Escrevo o presente blog no esquema otium cum dignitate.