sábado, 21 de março de 2015

ratos brotando dos bueiros

O rato amarelo (Rattus dictator flavus), 
descoberto, é claro, por este Demônio Amarelo.


você sabe bem que eles são roedores,
e como também são infectos: ratos,
eles se escondem até que então saem,
ratos dos grandes, com muita energia
nervosa, cheios de peste nas presas,
furtivos não mais, animais coletivos,
mas sempre covardes de esgoto na
espessa violência de grupo: a sujeira
em suas línguas de ralo ergue os ratos
do escuro e velho buraco; não vivem
de resto ou rasteiro: reis na ratice,
nos golpes, ditam as regras de ratos
pra todo mundo que seja um bom rato
como eles - às vezes, num país inteiro,
às vezes depois de fugir, por uns bons
30 anos. quem não é rato, cuidado:
pois há ratos brotando dos bueiros.


15 de março de 2015

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

DONIZETE GALVÃO (1955-2014)


Além do poeta extraordinário que sempre foi, era um amigo muito querido, uma das raras pessoas genuínas e verdadeiramente boas do meio literário.

É uma perda irreparável, demasiado prematura, e que parte o meu coração, como sei que parte o de muitas outras pessoas próximas, amigos, família.

E é à família de Donizete que vão os meus sentimentos, desejando a força possível a um momento como esse. Sinto com vocês.


pranto por donizete galvão


só é possível chorar
como dora maar:
com pedras que caem
            rolando pelo rosto, na verdadeira miséria dos olhos.
eles dóem aflitos, se apertam e tremem, convulsos de pranto.

conhecer a dor não previne a dor:
a dor se repete dolorosa igual ou pior, é dor
sem remédio sem cura,
                        dura e durável dentro,
dor sem dia ou noite, meu caro donizete.

não posso mais ― digo poeticamente ―
sentir tanta dor: queremos dizer o limite
            das pontas no peito, da natureza dos fatos falíveis,
e que a vida nos fosse mais do que é, se tal poder
                        pudessem palavras.

chorar as rochas dos meus olhos, agora
que dora retorna, dora sua amiga poeta por quem
você pediu viesse morte certa em hora justa,
                                   após vida completa;

não pediria nada, apenas que tão prematuro
não te cortassem o fio: tarde demais, está feito. é como fazem:
sem aviso, sem verdade, no seco e no insalubre,
                        velhas podres, tanta morte, donizete.

você vai e nos deixa. todo dilema se foi, “teme não mais
o mormaço do sol, ou a fúria do inverno”.
cansa o combate, que nós o sabemos combate:
                        carne & tempo, você disse bem.

cremado, pó ao pó, sem o fetiche da cama de terra.
isto é um adeus ao abraço, à presença, ao amigo que amava:
suas palavras me vêm em sua voz,
e são ― não importa o que diz quem não tem poesia

                        ― para sempre.

domingo, 14 de julho de 2013

ULF STOLTERFOHT (1963)




Há um ano eu retornava de uma semana feliz & produtiva em Berlim, onde trabalhei com o poeta Ulf Stolterfoht produzindo traduções de seus poemas, enquanto ele traduzia os meus, & nós dois éramos auxiliados pelo tradutor português Tiago Morais ― que fez valer seu status de pessoa bilíngüe naqueles dias.

O VERSschmuggel (ou "Contrabando de Versos") foi uma oficina muito instigante dentro do PoesieFestival de Berlim. Entre o fim de agosto e o começo de setembro, deverá haver uma versão desse evento, agora aqui em São Paulo.

Como uma espécie de aquecimento, ofereço uma tradução minha (com a colaboração de Tiago Morais, natürlich) para um dos poemas desse grande poeta alemão. É, por assim dizer, um “extra”, que não constará da antologia a ser lançada aqui & na Feira do Livro de Frankfurt, compilando o resultado do VERSschmuggel de 2012, dedicado à poesia brasileira (e estiveram lá também Horácio Costa, Marcos Siscar, Jussara Salazar, Ricardo Aleixo e Érica Zíngano, além da participação do curador brasileiro, Ricardo Domeneck).

Escrevi um breve relato das atividades & apresentações do ano passado, aqui, & os leitores são gentilmente convidados a espiar, caso tenham ficado curiosos sobre como foi.

Ulf Stolterfoht (1963, Sttutgart) estudou alemão e linguística em Bochum e Tübingen. Publicou já uma dezena de livros de poesia autoral, & traduziu Gertrude Stein. Teve seu Fachsprachen I-IX (1998) traduzido para o inglês por Rosmarie Waldrop, que na pequena nota sobre autor e livro destaca “seu objetivo de evitar linearidade, referência, sentido pré-fabricado e, especialmente, o eu-lírico. Ao contrário, [os poemas] cultivam a ironia, o trocadilho, a fragmentação, a justaposição, a distorção”.

O mesmo vale para “erstmal die fakten”, traduzido abaixo. O método de Stolterfoht para pulverizar o antigo mecanismo da poesia não é apenas audaz, como engenhoso: percebi, do contato direto com sua poesia, o modo como compõe coincidências sonoras, ecos e inúmeros outros recursos em um artesanato novo que não prescinde do antigo. A mistura de prosa, verso, ditados populares, alusões, trechos extraídos de outras obras, se combina em uma escrita de staccato, urdida em blocos de texto organizados em estrofes vigorosas.

Gaudete.

antes de mais, os fatos: até o desmoronar final seguia o muro
assim quase em total paralelo à latitude oriental de greenwich.
se dividia e fazia de fenda entre esquerda/direita. um senão:
staaken. mas já se devia saber. entre clip e clop estalava mur-
murante o ribeiro. a tesoura na cabeça. o muro nas calças:

scherkinau, peter hacks etc. e é nisso que a torcida de hertha
se põe a coaxar: nosso pilar é egon bahr! em cada cachecol:
“günter gaus”. e: “mas não se pode mais erguer um muro
após bautzen” (eckhard kautzun). deleuze com uma reação,
como não? de costumeira hesitação. iggy pop, no entanto,

dizia ao muro em alto e bom som: yeah! wolfman jack fora
à staaken oriental e ficara estupefato. e bem típico, aliás,
até hoje biermann não abre o bico sobre o caso. mas depois
witsch: a racha corta leipzig reto. e atrás de suhl eram áreas
já tão pequenas que pareciam feitas só mesmo de muros.

várias partes de anhalt eram cercas. mister schewardnadse metia
a cabeça no muro. o efeito é famoso. mas já no mesmo dia beau-
camp e os boys passeavam por áreas libertas. ruína completa
em algumas zonas. mineração. e kyffhäuser, como não? bem
boa a arte lá feita, que bem merecia o seu nome ( “figurativ.”).

e aí, rapaz, onde estava, quando no outono cinzento o muro
caiu? não sei quanto a vocês, eu tinha vinte e seis, numa república
de estudantes perto de danzig. além disso eu, como já sabem,
não vou responder mais pergunta nenhuma. estou apenas feliz.
o teichoskop faz a mesura e sorri. saída ao fundo pela esquerda.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

O FIM DO SÉCULO XVIII SE APROXIMA

O rato gigante dos protestos contra o sistema financeiro,
visto de dentro da limusine de Eric Packer, em Cosmopolis(2012),
filme de David Cronenberg


"um rato se tornou a unidade monetária"
                                         Zbigniew Herbert

Estive pensando muito sobre a situação das manifestações no Brasil na última semana. Sobretudo porque reagi imediatamente à violência policial desferida contra os manifestantes em São Paulo (e assim integrei a antologia Vinagre, organizada com consciente urgência participativa pelos poetas Fabiano Calixto & Eduardo Sterzi), violência que acabou deflagrando inesperada & pesada multidão nas ruas, que chegou mesmo a atacar a polícia claramente aterrorizada em Belém & em Brasília (tentando defender, no Distrito Federal, o prédio do Itamaraty em cenas inacreditáveis que foram reproduzidas em todo o mundo).

O terror institucional foi algo inédito: imagens da polícia recuando & tentando segurar as portas da prefeitura em Belém, e coisa semelhante acontecendo diante das câmeras quando houve o perigo efetivo de invasão do Itamaraty, onde chegaram a começar um incêndio. Olhando as tomadas da crescente multidão se instalando diante do Congresso Nacional, iluminada quase que exclusivamente por holofotes dos helicópteros circundando a área, qualquer um perceberia que, se aquela multidão realmente cismasse, só uma completa tragédia poderia segurá-la. A resposta à violência injustificável em São Paulo, portanto, fez eclodir uma raiva represada, rara de se ver em um país que tradicionalmente aceita as injustiças porque quer continuar vivendo sua vida como der, sem confronto.

Então acho que o ponto a ser considerado é a perplexidade das autoridades que nunca poderiam esperar, não as multidões na rua, mas justamente a inédita disposição brasileira para o confronto. É inédita: não conto a guerrilha contra a ditadura porque a estupidez crassa & abertamente monstruosa de uma ditadura já leva por definição as coisas para os extremos.

Foi cruzada uma linha que instaurou mais temor nas autoridades do que elas vão admitir: o que ouvimos é se dizerem "surpresas", ou "indignadas", mas o que vimos no desespero da Rede Globo em fugir de cenários de guerra civil, em suas tentativas de pôr panos quentes sobre o fogo que tomava as ruas & e a lavagem mental da "manifestação pacífica", é o mesmo efeito de terror contido na cara (de pau) dos políticos que depois vieram falar aceitando manifestações ordeiras & condenando a violência. Artigo de Barbara Gancia na Folha do dia 21 deste mês dizia, com inteira razão & inteira lucidez: "Só quem nunca passou pelo desespero de uma fila do SUS, apuro ou injustiça na mão de autoridade pode considerar que 'paz' seja antônimo de violência. O que 'paz' pode fazer para atenuar a miséria de quem vive sem saneamento básico?"

O que é ainda mais interessante pelo fato de que são as mesmas autoridades cujo descaso em relação a essa coletividade sem rosto, o povo, resulta (sem que se preocupem com isso) em ignorância e morte; as mesmas autoridades que enriquecem com a miséria alheia, e que sequer piscam de vergonha ou terror diante de espetáculos desumanos como o da polícia ferindo os manifestantes o quanto pôde, quando essas mesmas autoridades supõem confiantes que ensinarão assim uma lição de medo a impedir que a indignação ganhe a rua.

Desta vez, não. Desta vez, erraram até mesmo no plano de contenção de sempre - casca-grossa - e foi o feitiço voltando contra o feiticeiro, como na extraordinária graphic novel de Alan Moore, V for Vendetta (1982-5), de que aliás a máscara - a do rebelde Guy Fawkes (1570-1606), da "Conspiração da Pólvora" que iria explodir o Parlamento inglês -, usada pelo personagem do título, é a máscara do grupo internacional Anonymus, & se espalhou por todas as manifestações aqui (não por causa da graphic novel, mas do filme que a popularizou em 2005).

Do ponto de vista rigorosamente objetivo, as autoridades mereceriam terror ainda pior, mas os manifestantes não pareciam acreditar no poder que sua fúria despertou. Foi como uma primeira revelação, sem a consciência da própria força, e essa foi a sorte das autoridades: os manifestantes recuaram nos momentos mais tensos.

Os panos quentes já estão fazendo seu trabalho de contenção por trás da flutuante consciência da massa pública: enfatizam o "pacífico", porque pretendem que tudo se reduza a mero desfile televisionado para as famílias; põem suas celebridades ocas para ecoar a voz do "povo", indignadas também com a vaga & metafísica "corrupção"; atacam políticos escolhidos a dedo, para a longo prazo ir implementando tipinhos mais trogloditas, tipinhos mais à direita, tipinhos ainda mais dispostos a servir aos cinzentos & anônimos donos do mercado, donos da política, donos da polícia, do modo que  a História repetidamente (Alemanha nos anos 1920-30, EUA no começo dos anos 2000, o próprio Brasil em meados da década de 1960) nos ensinou como funciona.
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E isso me levou de volta ao livro brilhante de Don DeLillo (1936), Cosmopolis (2003), filmado recentemente por David Cronenberg e que, mesmo com Robert Pattinson no papel principal, não foi bem recebido, nem compreendido & se o esqueceu por completo algumas semanas depois da estréia. Cannes o repudiou, críticos reclamaram, etc.

O livro de DeLillo é uma pequena obra-prima, a começar pela linguagem severamente estilizada que os personagens utilizam, e que varia conforme o personagem em questão. Amantes falam com frieza & deslocamento, homens de negócio falam a linguagem infernal da teoria crítica universitária, seguranças falam com a objetividade de máquinas, & assim por diante.

Ambos, livro & filme, começam na epígrafe do grande poeta polonês Zbigniew Herbert (1924-1998), que diz "um rato se tornou a unidade monetária", do poema "Crônica de uma Cidade Sitiada", de seu livro homônimo, de 1983 (há uma tradução disponível do poema, publicada há alguns dias na revista Modo de Usar). É importante lê-lo pela notável intuição de Herbert sobre todo e qualquer momento de comoção pública: a sensação de suspensão temporal, a sensação de se viver no esqueleto de uma situação social fantasma, o terror da violência generalizada,  a falta de tudo, e a impassibilidade decorrente de uma situação prolongada de violência.


Zbigniew Herbert (1924-1998)

A crítica acha Cosmopolis um livro menor de DeLillo, e a reputação do filme de Cronenberg tende a ser a mesma para seu cinema. É uma clara injustiça literária, cinematográfica e perceptiva, & penso que o único motivo para isso seja o mais elementar: não há mais crítica literária, no sentido forte do termo. Isso é um outro assunto, que abordei numa palestra recente na UNIFESP, e chamei "O Jogo dos Sete Erros na Crítica Literária Brasileira, Hoje". A maior parte do que disse então se pode expandir para a crítica exercida em outros países, com alguns problemas específicos de cada lugar como diferença.

E digo que é uma injustiça por dois motivos: não apenas DeLillo escreve grande prosa ali, meticulosamente certeira, mas também revela dons de profecia, que ele próprio rejeitou em entrevistas. DeLillo olhou para o que houve no mundo após a destruição do World Trade Center em Nova York &, como artista (no sentido "antenas da raça" de Pound) percebeu ligações sutis entre o amortecimento da experiência (e, conseqüentemente, da capacidade de reação emocional) e a vida quase toda experimentada de modo vicário, através do mundo digital ou de relatos externos; entre o limite que leva a massa à revolta e os ajustes para continuar tudo igual, feitos a partir da constatação de um limite; entre a extrema direita e a extrema esquerda.

A parte interna da limusine - cenário de quase todo o livro - aponta de modo inequívoco para o isolamento digital e para o isolamento dos ricos. É um isolamento emocional, também, e uma posição alienante de controle sobre o mundo, lido como traduzível em número comercial. E esse número, como Packer aprenderá, não dá conta do mundo, por mais que a matemática seja uma linguagem muitíssimo funcional, perfeita e abstrata, e, por isso, assemelhada ao que sonhamos que seja uma verdade. O livro é todo baseado nos números 1 e 2, em que a unidade funciona como o universo harmônico e a dualidade instaura o desequilíbrio, por assim dizer, caótico (no sentido de uma ordem ainda não compreendida). E, Cosmopolis, claro, porque o lugar minúsculo é todos os lugares ao mesmo tempo.

Mas escrevendo esse livro DeLillo demonstrou um ponto surpreendente: o sociólogo Robert Kurz (1943-2012) escrevia, ainda na década de 1990, que as sucessivas crises do sistema financeiro significavam, pela impossibilidade de se ter um período mais longo entre as crises, que o sistema capitalista havia chegado a um limite. A base de um comércio dito "livre" (porque não é livre, é um comércio dirigido por privilégios de atitude de mercado, como antes o privilégio era de sangue e títulos), baseado na exploração da força de trabalho, se transformava na oferta de serviços (em que entra a estimulação de desejos de consumo) e na manipulação virtual de uma idéia de valor desvinculada, já, da produção material de bens.

O que DeLillo demonstrou foi uma similaridade histórica. Os limites transgredidos pelo poder & os privilégios (e não só no Brasil) atingiram um limite estrutural, como, por exemplo, na Revolução Francesa. É assim que manifestações, como as que estamos vendo no Brasil, não têm uma pauta exata e unificada. Muitos em Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Belém, Belo Horizonte, Fortaleza e etc. estão apenas dando vazão a uma fúria destruidora de quem julga já não ter mais nada a perder. Atacam símbolos do poder em prédios, monumentos, por exemplo. Por trás disso, está o limite da exploração financeira, o limite do descaso completo do poder público com as necessidades básicas, o limite do desejo do mesmo poder público de enriquecimento por meios ilícitos, o inacreditável limite de se ver numa Comissão de Direitos Humanos de um país ter no seu topo alguém que não tem a mais vaga idéia do que isso signifique, e ser, na verdade, o pior inimigo do que se possa chamar "direitos humanos".

Essas são apenas algumas das questões. A crise européia, a crise nos EUA desde 2008, filha sobretudo do governo Bush combinado ao nível absolutamente irresponsável de laissez faire concedido à especulação financeira, para sequer mencionar inúmeras instituições que simplesmente não funcionam mais para nada, mostram um problema inescapável, estrutural e fadado a se repetir até algo que lhe determine um fim. Falta filosofia para apurar essas questões, porque ninguém aprende a pensar filosoficamente (a não ser uns tipos estranhos que enfrentam o mercado para ter uma educação que dificilmente será convertida em sobrevivência), e por isso falta a esse momento uma capacidade de auto-avaliação dos termos em questão.

Os sinais da necessidade de mudança estão por toda parte, & basta sermos honestos ao olharmos para o mundo: nada do que nossos mecanismos oferecem responde às novas ou velhas necessidades humanas. Os desafios colocados pela destruição do meio ambiente são respondidos com ganância predatória (a que responde, por sua vez, uma crescente consciência dos rumos fatais que a coisa está tomando, & uma incipiente atitude de confronto), a decadentíssima "família tradicional" é finalmente questionada em seu cerne, por coisas notáveis ao menos desde o romance burguês e, mais recentemente, os filmes de Woody Allen. Chega agora com o clamor da necessidade aliás elementar de se assegurar os mesmos direitos legais e de representação, sem discriminação, à homossexualidade (os EUA finalmente ultrapassaram essa barreira falsamente moral, mas não sem uma verdadeira batalha ideológica, uma pressão consistente de segmentos sociais suficientemente esclarecidos a respeito do assunto, & mesmo assim, por um triz).

Enfrenta-se todo tipo de preconceito, a sombria ameaça do retorno da direita em cenários de totalitarismo, o fim do emprego, os modelos econômicos baseados em especulação financeira, as estranhas prioridades dos gastos públicos, a indigência completa dos serviços básicos, como educação (que está montada de um modo ideológico de controle, para no máximo produzir peças sobressalentes para o mercado de trabalho), saúde (que existe apenas para quem paga o seu peso em ouro), a segurança (com um modelo de polícia que é de duas mãos: uma servindo ao poder público, a outra servindo ao crime, e essas mãos muitas vezes se dão).

Luta-se (alguns poucos já lutam conscientemente contra isso) contra a insensibilidade que um mundo demasiado maquinal tem feito crescer ao separar as pessoas fingindo aproximá-las digitalmente (para nem dizer o nível de espionagem digital, de que se está cada vez mais consciente, também). E aí está um ponto curioso: parte do efeito contundente dessas manifestações é devido à internet e às redes sociais, com antes já haviam sido úteis em protestos vigorosos na Europa. DeLillo mostra manifestações, em seu romance, vistas apenas do lado de dentro da limusine, em particular quando Eric Packer recebe a visita insólita de sua professora de teoria, e temos algo para pensar, novamente.

Sim, teoria. De quê? Teoria, ponto. Como Platão posto ao serviço do tirano, Vija Kinski tem o dom amoral das associações de idéias complexas, & Packer paga para que ela ponha esse estímulo a seu serviço, um modo de pensar em voz alta, com outra cabeça extraordinária (mas de origem diversa) produzindo movimento. Como se um ricaço conseguisse pôr Slavoj Žižek para falar como costuma, pulando de um assunto a outro com enorme capacidade de pensar & argumentar.



Seria preciso ler o trecho todo, importantíssimo, mas vou apenas pôr um morceau choisi de quando Vija Kinski faz a seguinte pergunta a seu riquíssimo interlocutor, a respeito das furiosas manifestações a que assistem:

"Isso é raiva controlada, eu diria. Mas o que aconteceria se soubessem que o cabeça da Packer Capital se encontra neste carro?"

Ela o disse malignamente, olhos acesos. Os olhos dos manifestantes queimavam por entre as bandanas vermelhas e negras que vestiam, envolvendo a cabeça e o rosto. Ele os invejava? As janelas à prova de impacto mostravam fraturas à altura da testa e talvez ele pensasse que gostaria de estar lá fora, botando pra quebrar.

"Estão trabalhando com você, essas pessoas. Estão agindo nos seus termos", ela disse. " E se te matarem, é apenas porque você o permite, no seu doce sofrimento, como um modo de re-enfatizar a idéia sob a qual todos vivemos".

"Que idéia?"

O chacoalhar [os manifestantes chacoalhavam a limusine] se tornou pior e ele a observava tentando seguir seu copo de lá para cá, antes que pudesse beber dele.

"Destruição", ela disse.

Em uma das telas ele viu figuras descendo uma superfície vertical. Precisou de um momento para entender que rapelavam pela fachada do edifício à frente, onde havia as telas com indicadores de mercado.

"Você sabe aquilo em que os anarquistas sempre acreditaram".

"Sim."

"Me diga", pediu.

"O impulso de destruir é um impulso criativo".

"Essa é a marca registrada do pensamento capitalista. O reforço à destruição. Velhas indústrias precisam ser duramente eliminadas. Novos mercados precisam ser exigidos à força. Velhos mercados precisam ser re-explorados. Destrua o passado, faça o futuro".

Pouco depois dessa conversa, no romance, descrevem-se as lutas de manifestantes mascarados com a polícia, manifestantes tentando arrombar vidros de prédios, os indicadores do mercado de ações se escurecendo e, quando reacendidos, brilhando com o engenho dos manifestantes que substituiu os indicadores pelo verso de Herbert, citado no começo do meu artigo. Nesse momento, Packer está com a cabeça para fora do teto solar da limusine e experimenta o ar espesso de gás e de borracha queimada.

O livro de DeLillo é preciso, particularmente oportuno nestes dias, & sugere um desfecho imprevisível para todos os esforços de previsão. Esse desfecho tem, em parte, sua chave na palavra "destruição".

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O fim que se está anunciando pelos gestos de destruição cada vez mais freqüentes, entre bons & preocupantes, não é o fim do capitalismo, é o fim do século XVIII. Não será um fim bonito.

O único modo de transformar este mundo ocidental é o que já acontece: as instituições estão acabando ou se transformando, o ciclo iniciado por Iluminismo, Revolução Industrial e Revolução Francesa (e tudo o que veio em decorrência disso) está chegando ao fim. É a Dialética do Iluminismo, de Horkheimer & Adorno, compreendida pelas massas & na prática, & a revolta que se segue a essa consciência.

Quanto tempo levará? Não se sabe. O que se sabe, & é bom, é que já se pode dizer que não se trata exatamente do que lemos no célebre poema de Yeats, "The Second Coming": The best lack all conviction, while the worst/ Are full of passionate intensity (Os melhores não têm mais convicção, enquanto os piores/ Estão repletos de intensidade apaixonada).

A intensidade apaixonada contaminou também os melhores. E agora?

sexta-feira, 21 de junho de 2013

MARCELO GRASSMANN (1925-2013)


Não tenho muito o que dizer diante da notícia triste. Escrevi pequenos artigos  sobre a obra de Grassmann, verdadeiro & pouco reconhecido tesouro nacional, & o admirava imensamente. Tive a sorte de, anos atrás, assistir a uma aula sua de gravura no Museu Lasar Segall. É mais uma perda inestimável neste ano conturbado de 2013.

Para o novo livro escrevi um poema que não apenas cristalizou meu fascínio pelos meios técnicos extraordinários da fatura de sua obra ímpar, mas também buscou assinalar a luta que Grassmann promovia (era um de seus motivos recorrentes) na obra com a idéia de morte & finitude: a beleza hierática, os encouraçados, as criaturas de pesadelo & de sátira, as imagens repetidas.

Vai aqui, portanto, o poema onde gravei minhas impressões vivas do convívio com sua obra & do modo como incorporou em sua própria arte a de outros que tinham seu respeito & que o haviam influenciado. É, agora, dedicado à sua memória, como antes o teria oferecido ao artista impecável.


o triunfo de marcelo grassmann

qualquer carapaça: cara e pele.
olhar impassível ou cobiça se concebem,
temperados:
                       aço em fogo, duro em suave.
lanças, aves, monstros que a bíblia
deu em sonhos aos flamengos,
retornam bêbados com asas
em rua escura à meia-luz, livres
                      da mentira ao meio-dia.
metal se manipula em mineral,
em mãos, em massa mortal mas rígida,
mas matéria fina e maleável
                      onde a morte corta cabeças, conta cadáveres;
ela também morre, agora, presa em patas
de galinhas, na donzela transparente. a morte
imóvel, presa de enigma, 
                      se mistura em tinta, sua armadilha.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Novos poemas, novas páginas, novidades

Dirceu Villa ele-mesmo, em retrato de Valéria Garcia, 2013

Novos links para minha poesia e novos poemas meus surgiram de modo recente & simultâneo na internet, o que é um bom auspício para o livro novo que estou concluindo.

A edição especial do Suplemento Literário de Minas Gerais, de título "A nova poesia brasileira vista por seus poetas" (organizada por Fabrício Marques), apresenta poemas de vários autores contemporâneos brasileiros, representativos dos últimos 20 anos. A escolha foi feita e comentada também por poetas. Nela, figuro com "O Cutelo" (Icterofagia, Hedra, 2008), escolhido e comentado por Ricardo Domeneck:


No site alemão lyrikline disponibilizou-se uma página com dez poemas meus (alguns inéditos), parte da minha participação no PoesieFestival de Berlim, no ano passado. A página traz áudio da minha leitura e traduções de alguns poemas para o alemão (feitas pelo poeta Ulf Stolterfoht), para o inglês (por mim mesmo) e para o espanhol (pelo poeta uruguaio Alfredo Fressia e pelo poeta chileno Fernando Pérez Villalón):


Last, but no least, a versão digital da revista Modo de Usar & Co. publicou meu poema até então inédito "ação", que se pode achar aqui:


Gaudete.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

ANTONIO MEDINA RODRIGUES (1940-2013)

"Professor, mas que raio é o logos?"

Foi o que certa vez um aluno da graduação de Letras da USP perguntou ao professor, poeta, tradutor, palestrante e editor Antonio Medina, durante uma aula de grego. É a pergunta de um milhão de dólares, que qualquer professor minimamente enfadado encaminha piedosamente ao Liddell-Scott. E então Medina disse ao aluno curioso, e ao resto da audiência, mais ou menos:

Saira dia desses de casa para ir pagar contas no banco. Mas saira mecanicamente pelo portão de casa à rua, porque sua mente estava, é claro, no logos. E assim chegou ao banco e assim parou na fila diante do caixa, enquanto seus olhos tinham aquela expressão concentrada de vazio. Eis que, após um bom tempo, notou casualmente uma mulher no chão gesticulando para que se abaixasse.

Nesse momento em que a imagem peculiar o retirou da imersão no logos, percebeu, com alguma surpresa, que um assaltante roubando o banco gritava com ele pondo a arma contra sua cabeça. O feitiço se quebrara.

Esse mecanismo de imersão em linguagem, que o retirou momentaneamente do mundo, era o princípio de razão, discurso, palavra, codificado no vocábulo de peso filosófico e variada acepção técnica. E deu em excelente anedota.

Medina foi meu professor de literatura grega na faculdade, e com ele estudamos a métrica de Homero, o mecanismo de introdução dos epítetos como um hemistíquio, supostamente resto daquela ancestral origem oral do poema, entre outros mecanismos repetitivos e permutatórios que o evidenciavam; lemos os líricos arcaicos, de que Medina produziu uma antologia com traduções suas que são a melhor tradução para o português de certos poemas de Safo, Alceu, Mimnermo, e de líricos alexandrinos como Calímaco (e acho que ainda não foram publicadas - eheu! - em edição).

"Um Saio ora se escora em meu escudo", por exemplo, verso  brilhante que traduz logo o primeiro verso daquele poema de Arquíloco, exemplar de um mundo já não homérico, em que o soldado prefere preservar a pele do que se meter heroicamente no combate para reaver a gloriosa arma perdida.

Medina se tornou em grande parte um amigo, que sentava comigo e com meus amigos por vezes nos intervalos para discutir literatura e dizer besteiras, beber um pouco e rir. Ríamos mais, porque afinal de contas era um tipo gozador. A uma aluna que se aborreceu porque ele dissera que não gostava de ir ao teatro, e perguntou qual era o motivo disso, respondeu: "Porque não gosto que gritem comigo".

Produziu uma edição cuidadosamente anotada da Odisséia, de Homero, traduzida por ninguém menos do que Odorico Mendes (e ilustrada por ninguém menos do que o pintor Enio Squeff), que é um dos livros mais importantes de tradução de poesia já publicados nesta língua. Traduziu Hölderlin, publicou poemas autorais incrivelmente divertidos (conheço seu pequeno volume chamado graciosamente Idéias), e uma tradução do Cântico dos Cânticos.

Essa tradução tem uma história, natürlich: éramos então moleques que estudavam literatura pelo gosto da coisa, e éramos também escritores. Havia algum tempo nos reuníamos em um sebo na rua Líbero Badaró para lermos nossos poemas para um público crescente. Quando esse público chegou a um número considerável, João Eduardo Oliveira e Cídio Martins, dois dos meus amigos, tiveram a idéia de montarmos uma coleção de livros artesanais. Um deles, a única tradução que publicamos, foi a do Cântico dos Cânticos, primeira edição, bilíngüe, com os versos em português de Medina (que seria depois publicada em edição da Hedra).  

O prefácio foi escrito por Adriano Scatolin, hoje professor de latim da USP, e me lembro de uma ocasião em que eu & Scatolin estávamos em uma das salas da Faculdade de Letras, à tarde, revisando o texto com Medina. Foi uma tarde fascinante, em que certamente aprendi mais do que em todo um semestre: era preciso resolver tudo, e íamos verso a verso. Quando discutíamos algumas das soluções, Medina simplesmente soltava de cabeça e de imediato três ou quatro versões possíveis do mesmo verso, já metricamente em português (ele traduziu o texto em redondilhas).

Medina tinha um ouvido notável, e uma sensibilidade verdadeiramente poética para aliterações e paronomásias, além de uma concentração que produzia de imediato soluções variadas, que ele sequer se ocupava de anotar. Uma vez que tivesse apreendido o sentido (inclusive formal) de um verso, ou de um conjunto de versos, não parava mais para pensar, compunha na mente o desenho e o dizia límpido, precioso.

Lançamos o livro na Casa das Rosas, que era na época dirigida pelo artista plástico José Roberto Aguilar, com a colaboração sempre inestimável de outro amigo muito saudoso, morto neste mesmo ano de 2013, Ilo Zema Codognoto, com quem também fiz um programa de entrevistas na rádio CR37, da Casa das Rosas, e no qual também entrevistei, entre outros, Antônio Medina Rodrigues.

Então, para prestar os meus respeitos a esses dois amigos, posto aqui duas fotos que registram o lançamento em 1999, com Adriano Scatolin, com a entrevista incidental que fiz com Medina ali mesmo, e Ilo na câmera.

Adriano Scatolin em pé, eu, e Medina assinando o Cântico dos Cânticos,
na Casa das Rosas, 1999.


Medina, eu e Ilo Zema na câmera.