segunda-feira, 8 de abril de 2013

IRON MAIDEN



Vivemos tempos deprimentes.

Ninguém (nem eu) acha graça na morte de uma pessoa, mesmo se essa pessoa for Margaret Thatcher. Morte é desagradável, para nós que vivemos e queremos viver. Mas a atitude de capacho que todo mundo adota no momento em que um nome tão infame da política morre é incompreensível.

Entre saudações protocolares e sentidas comiserações, temos quase que unanimidade se esquecendo do terror institucional que o longo governo dela (como o de outros em outros lugares) significou; daquilo que é o seu legado de fato.

Então estou lembrando que ATÉ o Iron Maiden acusou a política de brutalidade, preconceito, provincianismo e autoritarismo daquela que teve seu apelido heavy metal (depois eles fariam as pazes). Os EUA tiveram Reagan na mesma época e nós, que nunca queremos ficar atrás no pior dos mundos possíveis, vivíamos ainda na ditadura.

Lembrar o que o grande inglês Alan Moore escreveu sobre Thatcher:

"Estamos em 1988. Margaret Thatcher inicia seu terceiro mandato no cargo e fala com confiança de uma liderança conservadora que entrará mesmo no próximo século.  Minha filha mais jovem tem sete anos e os tablóides circulam a idéia de campos de concentração para pessoas com AIDS. A nova tropa de choque usa visores pretos, assim como seus cavalos, e suas vans têm câmeras rotativas de vídeo no topo. O governo expressou o desejo de erradicar a homossexualidade, mesmo como conceito abstrato, e pode-se especular qual será a próxima minoria a se legislar contra. "

Parte do que Moore engendrou como resposta artística desde cedo foi V for Vendetta (V de Vingança). Não o filme banal dos bobos Wachowski, mas a HQ obra-prima.

Nesta nossa época, não: estamos convidando enfaticamente todo conservadorismo, todo autoritarismo, toda repressão  a voltar, sentar na poltrona da sala, passar o dia e ficar, se quiser, anos a fio. Ouvimos (se ouvimos) quase nenhuma voz desafiando o coro dos contentes com esse estado de coisas.

Andamos ignorantes, violentos, medrosos e preconceituosos. Nos EUA, querem a cabeça de Jim Carrey porque ele OUSOU fazer um (aliás hilariante) episódio cômico-musical zombando da NRA (National Rifle Association) e da figura louca e überparanóica de Charlton Heston, famoso riflemaníaco, porque entrou com esse ato de comédia na discussão sobre a regulamentação da posse de armas no país, que tem tido massacres rotineiros de psicopatas armados até os dentes. Em resumo: as pessoas preferem continuar com os casos de assassinatos múltiplos para ter o direito de esconder em casa uma metralhadora de cem tiros por minuto just in case.

E Meryl Streep, ah sim, defendeu seu filmeco oscarizado sobre a dama de ferro dizendo que foi mulher exemplar, forte, uma figura de liderança mundial. Pode-se dizer o mesmo de qualquer tipo de tirano, são características muito vagas e genéricas. Exemplar pode ser do que não se fazer; força pode ser excessiva e mal-direcionada; liderança costuma ser a cenoura diante dos burros em massa. 

O mundo está se tornando um lugar careta, com cada centímetro de seu espaço físico e mental loteado para lavagem mental. Reduzidas a zero de capacidade minimamente crítica, as pessoas agora gostam desse circo, gostam dele até o monstro que criaram pisar em algum calo mais coletivo.

Mas daí, como de costume, será tarde demais para a chiadeira geral que termina sempre em lamúrias da seguinte categoria: "Como chegamos a isso?", perguntam os novos inocentes, que parecem não saber o que aconteceu, nem onde começou, nem a responsabilidade de quem foi. 

A violência anárquica, simbólica e irônica de Derek Riggs ao desenhar Eddie apunhalando Thatcher  parece inofensiva (também a de V, domesticada no filme dos Wachowski), com essa distância, diante do triunfo de uma violência efetiva e real a que hoje todos tiram os chapéus servilmente.

Oh dear, como eu disse certa vez por pura graça, espremido por uma multidão num elevador da estação de Goodge Street, do metrô de Londres, a que uma elegante senhora inglesa das antigas respondeu: Oh dear, indeed.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

KARINA BUHR + PREENCHENDO O VAZIO DA CRÍTICA



Pra começar: uma geral (bem geral) no rock deste país

Sim, o rock é música estrangeira. Mas arte não tem pátria nas trocas intelectuais: o jazz americano foi valorizado antes na França (e dizem que Jean Cocteau, o multihomem, tocou bateria nuns happenings de jazz por lá, nos anos 20), como também a França recebe melhor alguns dos cineastas mais finos dos EUA (Woody Allen, David Lynch), soube entender melhor um inglês (Hitchcock, que sem os cineastas e críticos da Politique des Auteurs ainda seria visto nos EUA apenas como o rentável “mestre do suspense” comercial) e recebeu melhor aquele indivíduo mórbido, Edgar Allan Poe, no final do XIX, com Baudelaire, Rimbaud, Mallarmé, etc. Recebem, reinventam. É sempre assim.

E nem precisaríamos sair da poesia ― a arte em particular deste escriba ―, basta pensar na onipresença do soneto petrarqueano no mundo ocidental por no mínimo uns 4 séculos.

Há pilhas de exemplos por todo lado: vocês se servem sozinhos. Voltando.

Nenhuma referência à Divina Comédia passará despercebida

O Brasil já teve e tem coisas notáveis: os Mutantes (sobretudo influenciados pelos Zombies) foram uma experiência inventiva que influiu numa boa quantidade de músicos também inventivos no mundo do rock, incluindo nisso Kurt Cobain (RIP), que falou deles numa já – quem diria? – antiga entrevista para a MTV; a mesma coisa vale para parte do que fizeram os Secos & Molhados, cuja contribuição ultrapassa em muito a influência cosmética decisiva para a maquiagem de Paul Stanley, Gene Simmons e o resto do Kiss. Como todo mundo sabe, a combinação de Paulo Coelho e Raul Seixas também funcionou como uma máquina exata, a despeito do fato de que provavelmente Seixas é o equivalente nacional de Elvis Presley, ao menos quanto aos bizarros sósias que ambos geram ainda hoje, e sabe-se lá por mais quantos séculos.



Não se faz mais capa como antigamente

Isso quanto aos anos 60 e começo dos 70, do século que já começa a ficar na poeira da memória. Acrescentaria que, sintomaticamente, Maria Bethânia, em 1965, quando cantou “Carcará”, estava imbuída do mais legítimo espírito rock’n’roll. Havia uma secura bruta e boa em “pega, mata e come”. E eu, que comecei tudo isto apenas para chegar a Karina Buhr, já vou logo aproximando a sua “Nassíria e Najaf” desse aspecto de poética denúncia de atrocidades, que tinha em “Carcará” um exemplar destinado a se imprimir na cera da memória. Os anos 60 realmente foram um vórtice para a arte, mas muitos dos que o produziram não sobreviveram às próprias invenções.

Itamar: "que tal o impossível?"

Aquilo que se chamou “vanguarda paulista” teve dois tipos que deveriam ser mais famosos: Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé. Assumpção, por todos os motivos que alguém quiser declinar: letrista absolutamente ímpar, instrumentista ousado e inspirado, artista com vocação profundamente crítica e cheia de humor, além de performer magnético. Era simplesmente um furacão humano que morreu ainda jovem, aos 53 anos (e continua jovem); Barnabé teve o auge, na minha leiga & modesta opinião, logo no começo da carreira, com Clara Crocodilo (1980) e Tubarões Voadores (1984). Não apenas as letras são furiosamente loucas e satíricas, mas o conceito daqueles álbums ia das HQs ao virtuosismo orquestral do rock de Frank Zappa (com quem, aliás, Barnabé partilha também o humor anárquico).


"Vê se tem vergonha na cara/E ajuda Clara, seu canalha".

A leitora & o leitor terão a bondade de notar que não estou argumentando. Não estou, evidentemente, citando todo mundo. Estou chamando de memória alguns pontos altos que me parecem fazer sentido contextualmente ao que vou dizendo, ao que me interessa definir sobre rock e sobre uma postura de inconformismo que o gênero tem ― ou deveria ter por pressuposto, na opinião deste poeta. E como isso costurou a história da música de modo mais ou menos marginal no Brasil. A guitarra elétrica, por exemplo, era uma questão política quando Caetano Veloso e Gilberto Gil a incorporaram, sendo que, de qualquer forma, Sérgio Dias e Arnaldo Baptista já eram adeptos da coisa e defenderiam seus amplificadores (valvulados) sempre. A encrenca se deu por gente prototipicamente “MPB” (o rótulo flácido) começar a se engraçar para um lado Jimi Hendrix.



Mais tarde os Titãs, com Cabeça Dinossauro (1986), fizeram um marco de disco importante que partilhava um ambiente onde já havia punk e heavy metal acontecendo (basta lembrar que Schizophrenia, o segundo álbum do Sepultura, thrash e speed metal, sairia logo no próximo ano). Se a gente pode dizer que os Titãs fizeram o seu melhor lá, o Sepultura faria o seu dez anos depois, em 1996, com Roots. No começo a banda pode-se dizer que soava como Slayer e coisas do tipo, mas, com Carlinhos Brown e Olodum (e o ótimo Mike Patton), geraram uma coisa específica.



Mais complexo ― e próximo do meu assunto ― era o caso de Chico Science e Nação Zumbi. Já em 1994 eles misturavam rock; Tropicália; as peculiaridades indescritíveis de Jorge Mautner e sua rabeca; maracatu (vindo das congadas); e a tradição do Movimento Armorial, de Ariano Suassuna; tudo no que chamaram Manguebeat. Havia até o “Manifesto dos Caranguejos com Cérebro” (há caranguejo de monte no mangue, como sabeis), para mostrar como se levavam artisticamente a sério, embora fossem uns debochados. O último rebento da mais que centenária árvore dos manifestos? Chico Science era um desses tipos com poderes catalisadores, e à sua volta moveu não apenas a música, mas a moda, o comportamento, a literatura e mesmo a arte do videoclip: morto cedo demais, em acidente de carro em 1997, meros 3 anos após o lançamento do disco que o fez famoso. O Nação Zumbi continuou com Jorge Du Peixe assumindo vocais e letras, e a guitarra sempre excelente de Lúcio Maia.

Karina Buhr: arte, eletrificada 

Karina Buhr e a modalidade rock'n'roll de lançamento de microfone.

E então apareceu, já há 3 anos (2010) Karina Buhr, baiana & pernambucana. É singular esse aparecimento, porque qualquer um poderá sentir na sua música o mesmo poder de estremecimento ouvido no melhor dessa história sumária, e sobretudo incompleta, do caminho errático do rock no Brasil. Ela é “agora”, mas, como todo agora, um agora com história: da banda Comadre Fulozinha ao teatro de Zé Celso ― participou como atriz da montagem das Bacantes, de Eurípedes, no Teatro Oficina, de onde talvez venha parte do extraordinário jogo físico que faz dela uma frontwoman enérgica e única ― sua música e sua experiência, como a de vários citados acima, ultrapassam o rock, mas seria ingênuo não considerar as suas definitivas contribuições (uma delas ― não pequena ― foi dar a Edgar Scandurra a perfeita oportunidade de oferecer sua guitarra talentosíssima a uma compositora, cantora e performer incomum).

Lançou já Eu Menti pra Você (2010) e Longe de Onde (2011). Sua banda é excelente: precisa, inventiva, forte. Fazia um tanto de tempo que não apenas não se ouvia algo novo na música brasileira, e algo tão bom de pensar como letra, quanto de ver como show e ouvir como música. Essa é a mística nada simples que exige a existência da música de Karina Buhr, que apenas vim a conhecer casualmente, já que não assisto à TV faz quase dez anos e não leio jornais há mais ou menos o mesmo: de bobeira, algum tempo atrás, esbarrei no vídeo de “Cara Palavra” na MTV, clip muito simples e efetivo que tem o dom de registrar toda a alta voltagem da música e da performance de Karina Buhr.

Creio que é evidente a qualidade poética de suas letras: porque, talvez por influência da poesia concreta (& de outros tipos de poesia), está atenta à forma das palavras + seu sentido, que ela revira e fazer produzir mais sentido, ou, digamos, aquele sentido das palavras sob o seu significado morto de dicionário, seus sentidos vivos, latentes e potenciais. Explora diferentes significados de uma mesma palavra (“Não precisa me procurar”), ou faz uma palavra se geminar de outra (“Cara Palavra”, que tem um monte de outros procedimentos), ou ainda faz substituições muito engenhosas (“A pessoa morre”, basta ver a simples e sutil inteligência no uso de “verbo” lá). Estou certo de que muitos subestimam a letra no rock, mas os melhores nisso são letristas poderosos (p.e., o exemplar Thom Yorke), até porque, por princípio, a gente só deveria dizer alguma coisa quando tivesse alguma coisa a dizer. Karina Buhr é uma artista completa e rara: é a música, a letra, a performance, tudo concatenado.

Não se deve subestimar a chegada de uma artista desse calibre. E é importante ouvi-la, se por nada mais, pelo bem dos nossos ouvidos. Mais aqui:

http://karinabuhr.com.br/novo/

"Vazio na cultura brasileira": um rastro viscoso


Ouvi dizer que algum sem-noção escreveu “o vazio na cultura brasileira”. Seja quem for, não foi o primeiro a dizê-lo (nem será o último).

É o que a falta de curiosidade e/ou conhecimento costuma dizer (seja no jornalismo, nas empoeiradas cátedras universiotárias, nos livrinhos moles de crítica temerária, que nunca duram) em toda época que faz uma revolução na arte.

Essa revolução está acontecendo hoje; como sempre, subterrânea no início. Depois virão os cricríticos que dirão o “eu já sabia”, o moi aussi dos covardes genuflexórios: basta lembrar que o antes vituperado Mário de Andrade, ah-ham,  modernista, virou hoje na boca dos cricríticos uma espécie de totem, religiosamente incensado, praticamente inquestionável. Outros, agora vistos a distância, a mesma coisa.

Na poesia, desde meados da década de 1990, as coisas começaram a se modificar: há novos tipos de experiência no verso e fora dele (que ainda não foram lidas com refinamento crítico), na performance (que finalmente tem se tornado uma arte sólida por aqui), em vídeo-poesia, etc. Seus praticantes, muitos deles ignorados neste seu país de origem, já recebem reconhecimento no exterior, como costuma acontecer em meios provincianos: lá primeiro, depois aqui.

E, como assinalei acima com um exemplo particularmente notável da música, não acontece só na poesia, que vive um momento tão bom que só se compara ao modernismo e às vanguardas dos anos 50-60. Uma breve e incompleta lista, de poetas com poéticas diversas, para os curiosos:

Eu, Ricardo Domeneck, Érica Zíngano, Fabiano Calixto, Paulo Ferraz, Angélica Freitas, Marcus Fabiano Gonçalves, Ana Rüsche, André Luiz Pinto, Marcelo Sahea, Érico Nogueira, Guilherme Gontijo Flores, Eduardo Sterzi, Ismar Tirelli Neto, Juliana Krapp, Rodrigo Lobo Damasceno, Rodrigo Madeira, Fabiana Faleiros, Fábio Aristimunho Vargas, Iuri Pereira, Fabrício Corsaletti, Danilo Bueno, Veronica Stigger, Rodrigo Ponts, Gabriel Pedrosa, Marco Catalão, etc.

Fora os poetas importantes, imediatamente anteriores aos de cima, que ainda não receberam sequer 1/4 da atenção que merecem. Alguns, para exemplo: Ricardo Aleixo, Horácio Costa, Marcos Siscar, André Vallias, Donizete Galvão, etc. etc. etc. (e sequer menciono aqueles já amplamente reconhecidos).

Em todos lê-se não apenas uma poesia que já produziu obras autorais transformadoras e inevitáveis, como também ensaios que determinam já aspectos da leitura de poesia e literatura (ou mesmo artes). Entre todos esses há também alguns dos melhores e mais profícuos tradutores de poesia e literatura no Brasil, e juntos disponibilizaram, com seu trabalho, uma biblioteca inteira de várias línguas de literatura estrangeira em português.

E a minha lista acima cita apenas alguns nomes. Os nomes citados nela ainda teriam outros nomes tão bons a lembrar: é muita coisa diferente e estimulante acontecendo ao mesmo tempo.

E nem falei de prosa. E sequer falei de outras artes (é possível produzir coisa igual em cada arte que se escolher). E só no Brasil.

O que eu poderia querer? Boa parte (sabe-se que não são todos) do jornalismo quanto da crítica literária mal tem idéia do que se passa no resto do mundo, nas artes. Nunca se educaram. São caracóis: vivem dentro de uma concha, saem às vezes para xeretar fora, timidamente, andam milímetros e voltam pra segurança da concha. Nem chegam a conhecer o seu quintal, cansamos de esperar que cheguem onde já estamos.

E deixam sempre, por onde passam, aquele rastro viscoso: sempre sabemos por onde passaram.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

FELIZ ANO-NOVO

Depardieu, ao cruzar a fronteira da Rússia


Na França (ou Rússia).


Gérard Depardieu se tornou cidadão russo. Diz-se que o aceitaram com base no mesmo teste que a polícia francesa utilizou para prendê-lo quando, desgovernado, bateu com sua scooter e balbuciou palavras sem sentido a um policial.

Depardieu, já russo, louvou a exemplar democracia de seu novo país, afirmando que a oposição a Putin devia calar a boca, e, para exemplificar o que queria dizer, elogiou a prisão de trabalhos forçados a que foram enviadas as garotas do Pussy Riot.

Brigitte Bardot disse que também vai se tornar russa, e isso por causa dos maus tratos que os franceses têm dispensado a um elefante. Não Depardieu, um outro.


Patriot, with proud button and flag, NYC (1967), por Diane Arbus

Nos EUA.


O povo estadunidense está chocado com os incidentes horripilantes envolvendo atiradores assassinos em escolas e cinemas no país. Decidiram que está na hora de o governo fazer alguma coisa com a situação das armas, isto é: facilitar ainda mais o acesso a elas, para que as pessoas de bem possam enfim se defender comme il faut.


E o povo estadunidense está também chocado com as crises econômicas assolando o país e empobrecendo grande parte da população, enquanto muito poucos concentram fortunas cada vez maiores (os brasileiros se perguntam o que é que há de errado nisso). O presidente Obama então sugeriu taxar as grandes fortunas com um imposto de renda progressivo. A população quer sair às ruas contra o presidente Obama, porque ele está claramente tornando impossível aproveitar a fortuna que alguém porventura venha a amealhar como fruto do trabalho.



Onde se lê "Ordem & Progresso", leia-se "Fechado para balanço"

No Brasil.


Não se pode dizer muito, que o ano ainda não começou. Começará, ao que dizem, a partir de algum momento na segunda quinzena de fevereiro, ou logo no início de março, mais tardar.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

TRÊS FILMES SOBRE O AMOR

Audrey Hepburn em Breakfast at Tiffany's (1961), de Blake Edwards

Breakfast at Tiffany’s (1961), de Blake Edwards, é um dos meus filmes favoritos. Deveria ter sido a primeira & a última comédia romântica. Não há nada mais doce neste mundo do que Audrey Hepburn cantando “Moon River” à janela de seu apartamento, uma invitation au voyage mais simples, verdadeira & tentadora do que a que Baudelaire nos faz no poema célebre.

E me lembro, incidentalmente, da piada em um episódio de Seinfeld, em que George Costanza (tinha de ser ele) entra para um Clube do Livro, mas obviamente não quer ler. O livro é justamente Breakfast at Tiffany’s, escrito por Truman Capote. George assiste ao filme ao invés de ir ao livro (o que é uma sublime preguiça, já que a história não passa de 100 pp. em letras grandes), e a piada final é sobre as diferenças entre uma coisa e outra.

Prefiro o filme ao livro, ainda que Capote seja, no corpo da narrativa, mais duro e realista. E prefiro o filme justamente pelo que resolveu adotar de uma doce e elegante fantasia ideal, que se tornou um ícone dentro das histórias de amor memoráveis da ficção. É como o trecho daquela velha canção do Casa Loma Orchestra, “Under a blanket of blue”: Let’s dream a dream of love for two.

Celia Johnson em Brief Encounter (1945), de David Lean

Por contraste, há uma pequenina obra-prima de David Lean, de 1945, um filme chamado Brief Encounter, baseado em peça psicologicamente complexa de Noël Coward (que assina o roteiro, também). É preciso pensar esses filmes juntos: um é a consumada história de amor, em que as peripécias nos conduzem à catarse; o outro, o cuidadoso estudo de um impasse. Nesse impasse os personagens não são particularmente encantadores, não é uma comédia, a realidade é contrafeita, o sonho não tem forças.

Não sei se Sofia Coppola pensava no que vou dizer, mas Lost in Translation é, de certa forma, um passo intermediário entre ambos, ou um modo de combinar aspectos daqueles dois filmes: filma o impasse como uma comédia, sobretudo pela presença inspirada de Bill Murray, já velho, e pela doçura torturada de uma (ainda mais) jovem Scarlett Johansson.

Bill Murray e Scarlett Johansson em Lost in Translation (2003), de Sofia Coppola

São filmes complementares. Suponho que rendam o melhor de si se os absorvemos entendendo e apreciando neles o que têm a encenar de uma verdade exemplar, nos ensinando, juntos, ainda uma outra vez o porquê daquela verdade muito antiga, que podemos vez ou outra esquecer: o amor é agridoce.


PS: este já preguiçoso Demônio Amarelo entrará agora em período de férias, & por motivo de força infinitamente maior.

segunda-feira, 25 de junho de 2012


perder, mas lutando

allmählich aber breitete sich diese anfechtung
aus wie ein um sich fressender rost.
                              hugo von hofmannstahl, brief des lord chandos

nas escadarias do berliner dom
onde sentei e teria chorado,
estrangeiros, mas outros,
fotografavam a fachada,
velhas sentavam-se rubras
de andar pela ilha de tantos museus
e filas de ingresso, e deuses lutando.
eu teria chorado, aguardando
a revelação da alegria,
tochter aus elysium, e o fogo
que inundaria meus olhos,
tomando meu corpo e espírito,
mais uma vez.
é tolo aguardar, entre a pedra,
um sinal da vitória do fogo,
e logo acima eu lia: unser glaube
ist der sieg, der die welt
überwunden hat, e todos sorriam,
turistas que estão de passagem,
sem nada no peito senão
câmeras, óculos, falta de ar,
que é somente cansaço de andar.
eu perdia, e a pedra da fé em berlim
gargalhava da antiga prece pagã,
tão perfeita expressão da vontade,
tão viva em meus lábios, e nada.
eu tinha o signo, a blusa vermelha,
e meus olhos detrás das lentes escuras
cansavam de ver sem achar.
teria chorado, é verdade: patéticos,
eu e os estranhos com quem dividia
a fina chuva em pleno dia, víamos
o leão da vontade morto nas lanças
do pouco saber. a realidade nos vence
por mera tolice; mas sonhos são belos:
leões contra pedra, feitos de fogo.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Rio+20, Belo Monte & Gary Snyder

A Rio +20 não é séria.

Já não seria séria pela espécie de logomarca do chamado “desenvolvimento sustentado”, que é uma chancela de fachada para todo tipo de abutre ganancioso fingir que tem um distintivo verde que lhe permite destruir o que for preciso pra ganhar dinheiro.

Não se trata de “desenvolvimento” (que não tem definição coerente), e muito menos “sustentado”, a menos que se queira dizer com isso que o enriquecimento de grupos privados deva ser sustentado pela rapinagem dos recursos naturais.

Propagandeia-se a Rio + 20 como o Brasil se importando de fato com questões ambientais, o que é o contrário dos fatos, & o contrário dos fatos precisa apenas do sussurro de um nome infame: Belo Monte.

Os defensores desse monstro hidrelétrico, desnecessário & caríssimo, que vai inundar as terras em volta, descaracterizar o ecossistema, desfigurar as terras dos índios, e criar uma situação inteiramente artificial de deslocamento humano para o lugar, têm tentado fugir da questão afirmando que é um orgulho nacional de empreendedorismo que os estrangeiros atacam por ciúme, ou medo da competição.

O que é uma fácil, mas bem ordinária, cortina de fumaça.

Sobretudo porque há uma boa lista de empresas estrangeiras monstruosas metidas em Belo Monte.

O poeta Gary Snyder, em um texto apresentado na Índia, em 1992, já percebeu como a conversa dos negócios tenta driblar suas efetivas responsabilidades ambientais com esse truque barato para os olhos do público.

Escreveu: “como temos freqüentemente visto, as agências do governo, ou os interesses dos negócios, conseguem co-optar a hinterlândia local como propriedade privada ou “nacional” e, implacavelmente, a desenvolvem de acordo com um modelo industrial”.

Não está falando do Brasil, o texto tem 20 anos, & não creio q seja necessário sublinhar sua importância para o assunto em questão aqui, & como a coisa se repete.

Seria interessante, também sobre isso, que se lessem todos os ensaios de Snyder no livro re-habitar―ensaios e poemas (org. Luci Collin & Sergio Cohn; tradução & apresentação, Luci Collin), Rio de Janeiro, Azougue Editorial, 2005.

Por exemplo, o q eu disse lá em cima sobre essa expressão q virou moda, “desenvolvimento sustentável”, Snyder, no ensaio “Escrita não-natural” (1992, mesma edizione brasileira):

“Há um discurso verdadeiramente perigoso numa expressão ouvida em alguns círculos empresariais e do governo: ‘desenvolvimento sustentável’. O desenvolvimento não é compatível com a sustentabilidade e a biodiversidade. Temos que parar de falar em desenvolvimento e nos concentrar em como atingir uma condição estável de sustentabilidade real. Muito do que passa por desenvolvimento econômico é simplesmente a extensão ainda maior das funções desestabilizantes, entrópicas e desordenadas da civilização industrial”.

Ricardo Domeneck disponibilizou em seu blog “Belo Monte, anúncio de uma guerra”, o filme completo. É oportuno, não apenas por causa da hidrelétrica em pleno curso, mas pelo flagrante desrespeito a questões não-resolvidas que o governo simplesmente pôs pra baixo das máquinas que estão desfazendo a região.

Assinei, quando ainda estava em Londres, o abaixo-assinado para tentar oferecer resistência ao projeto. É preciso fazer o possível contra ele.

Recomendo a todos uma visita ao blog de Domeneck & atenção ao filme. É preciso rejeitar esse modo de fazer, ah-ham, “política ambiental”, e é preciso saber quem está mentindo para ganhar com a destruição.

Aqui:

http://ricardo-domeneck.blogspot.com.br/2012/06/belo-monte-anuncio-de-uma-guerra-filme.html

E há Eduardo Viveiros de Castro, grande antropólogo, autor da verdadeira obra-prima que é A Inconstância da Alma Selvagem (São Paulo, Cosac & Naify, 2002), livro que reúne ensaios revolucionários sobre questões de etnologia indígena pelo foco do que se chamou perspectivismo.

Sou perfeitamente leigo no assunto, mas me interessei profundamente, por exemplo, pelas questões de identidade entre os Araweté, que Viveiros de Castro estuda em "Imanência do inimigo".

Viveiros de Castro se pronunciou sobre o assunto de Belo Monte, porque trabalhou na região de Altamira & obviamente conhece melhor do que a maioria de nós a situação. Domeneck registra o vídeo em seu blog, e é importante assisti-lo também.

http://ricardo-domeneck.blogspot.com.br/2012/06/noticias-de-belo-monte-eduardo-viveiros.html

domingo, 17 de junho de 2012

PoesieFestival Berlin, por dentro


para Isabel von Holt
Ricardo Domeneck (de costas) e eu, em  foto de Timo Berger

O PoesieFestival Berlin eu vi mais por dentro, como autor convidado, do que por fora, como audiência. Digo isso porque vi muito pouco além do que se fez no Versschmuggel, a oficina do “Contrabando de Versos”. Vi, por exemplo, a Nacht der Poesie, na qual para mim se destacou, entre algumas outras leituras, a de Monika Rinck.

Trabalhei por três dias com o excelente poeta Ulf Stolterfoht, de Stuttgart, autor de uma poesia complexa, materialmente desafiadora e estimulante, e com o afiadíssimo tradutor Tiago Morais, quase tão alemão quanto português.

Ficamos os três encerrados em uma sala da KulturBräuerei (prédio q era uma antiga cervejaria, natürlich) do Literaturwerkstatt, destilando as traduções de um e outro que iríamos apresentar ao fim dos trabalhos. Mecanismo fascinante, que permitiu uma experiência única de leitura profunda, que uma tradução desse tipo acaba motivando. Nosso esforço era conseguir reproduzir forma & sentido do modo mais próximo possível, em efeito, do original.


E, depois, fomos apresentar as leituras.
Tiago Morais, Ulf Stolterfoht e eu (foto de Gerald Zörner, "gezett":http://www.gezett.de/)

E foi também quando pude ver o trabalho que os outros brasileiros desenvolviam com seus respectivos pares alemães: Ricardo Aleixo/Barbara Köhler, Érica Zíngano/Ann Cotten, Marcos Siscar/Jan Wagner, Jussara Salazar/Christian Lehnert, Horácio Costa/Gerhard Falkner.

Não apenas a curadoria de Ricardo Domeneck para os poetas brasileiros foi certeira (trazendo artistas representativos de diferentes gerações, de poéticas diversas), mas também o parear escolhido por rara sensibilidade com os poetas alemães rendeu no mínimo resultados muito bons, senão mesmo ótimos, e um entendimento frutífero. No meu caso, tanto as importantes semelhanças quanto as não menos importantes diferenças entre meu trabalho & o de Stolterfoht aguçaram meu interesse e exigiram da minha arte algo que ainda não havia tentado.

Por exemplo, a extrema compressão de múltiplos sentidos, de várias categorias do conhecimento, com engenhos de som, numa massa de versos espertos, maliciosos.

Sei q soa familiar para o(a) eventual leitor(a) da minha poesia, mas aquilo que Stolterfoht faz é de fato um novelo, algo muito espesso, poderoso. E montado como uma diversão. Há espaço para todo tipo de equívocos proveitosos lá, & ele os armou um a um: a linguagem de seus poemas despenteia o sentido normalmente atribuído às coisas.

Foi um prazeroso & laborioso aprendizado intensivo.

Stolterfoht gentilmente me presenteou com um exemplar de lingos I-IX, traduzido por Rosmarie Waldrop, um belo trabalho de tradução poética q, se por um lado me deu idéias de como lidar com o fibroso material que tinha em mãos, elevou também o nível da exigência.


Eu, com Ulf Stolterfoht lendo (foto de Gerald Zörner, "gezett": http://www.gezett.de/) 

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As leituras

Barbara Köhler e Ricardo Aleixo (foto de Gerald Zörner, "gezett":http://www.gezett.de/)


Nunca havia visto Ricardo Aleixo in loco, se apresentando, embora conhecesse e admirasse sua obra faz alguns anos, já. É um dos melhores poetas & performers brasileiros, um homem que conhece minuciosamente sua arte. Pude conversar com ele em diversas ocasiões em Berlim, e é de uma inteligência veloz. As raízes de seu trabalho notável estão por toda parte, do cancioneiro popular a Hélio Oiticica, do trovadorismo medieval à poesia concreta, da música eletrônica a Kurt Schwitters, e um etc. q cobre muito mal a variedade vivíssima de sua experiência. 

Costuma publicar os próprios livros, & de fato tem a mente mais independente q já encontrei em um poeta contemporâneo. Chega a ser feroz a sua invejável independência, mas você a ouvirá de Aleixo naquela tranqüilidade de sua voz licorosa, atenta e articulada.

A fatura de seus poemas na página é tão eficaz quanto o canto em que depois (ou ao mesmo tempo, ou antes) transforma as palavras, ou nos engenhosos meandros da performance que dota suas invenções de uma forma física, na voz e/ou no corpo.

Barbara Khöler o acompanhou com rigorosa perfeição (com destaque para o tour de force performático que é “Cabeça de serpente”) e foi, por sua vez, acompanhada por ele no mesmo nível. Assim como Érica Zíngano e Ann Cotten, que produziram uma apresentação brilhante pela diferença de performance: Cotten tem uma energia nervosa, intensa, enquanto Zíngano tem uma postura direta, que flui imperturbável, com uma atitude irônica, & ironicamente séria.

Érica Zíngano e Ann Cotten (foto de Gerald Zörner, "gezett":www.gezett.de)
 


Pode ser q esteja enganado, mas aparentemente o trabalho de ambas permitiu, em comparação com os outros, uma liberdade maior de criação, q parece ter surgido sugestivamente de dentro do texto e explorada para efeito por ambas, cada qual em sua língua. Certa cantabilidade de citação presente em alguns poemas de Zíngano, por exemplo, se tornava coisa interjetiva na tradução de Cotten, o q era absolutamente curioso de seguir poema a poema, duplicando o interesse então inovativo da leitura.

Da mesma forma, aspectos significativos da performance eram também traduzidos, no sentido de q signos não-verbais gerados juntamente com a leitura eram realizados de modos diferentes por cada uma. Por exemplo: em um dos poemas, Zíngano utilizava como um marcador de frase o estalar de dedos, enquanto Cotten resolveu aplicar um toque quase imperceptível fisicamente (mas perfeitamente audível) no apoio para papéis.


Horácio Costa e Gerhard Falkner (foto de Gerald Zörner, "gezett": www.gezett.de)


Algo parecido se deu quando Horácio Costa (poeta de que já falei neste Demônio) leu a última de suas traduções do ciclo de poemas sobre o famoso friso do Pergamon (friso grego ímpar que é uma das principais atrações museológicas de Berlim), de Gerhard Falkner: creio q Costa produziu conscientemente um híbrido mais pronunciado da sua voz com a de Falkner, o q me pareceu claro em contraste com as duas traduções q apresentara antes.

O efeito foi particularmente interessante pelo fato de q a leitura de Costa é bastante mais enfática do q o estilo contido de Falkner, q lê pelo fluxo frasal, e não pesando cada palavra, como Costa. Houve, então, uma faísca desse humor intelectual q risca voz em voz & extrai disso um brilho peculiar.

Marcos Siscar, assim como Horácio Costa, é um dos meus poetas favoritos de uma geração anterior à minha. As questões do verso, para Siscar, são muito importantes, assim como o q o verso significa hoje, na variedade de atitudes quanto ao modo de corte sintático, ou contra-sintático, ou q se meça pelo mecanismo de leitura q leva em consideração o espaço branco da página, ou q siga o ritmo, ou o contrarie, etc. Leitor cuidadoso da fina inteligência de Mallarmé no Crise de Vers (1891), texto complexo e muitas vezes premonitório, Siscar apresenta sua poesia em público de modo reservado, recolhido.


Jan Wagner e Marcos Siscar (foto de Gerald Zörner, "gezett": www.gezett.de)


Nesse sentido, é interessante notar como o silêncio, em torno, cresce, & todos os ouvidos se aguçam para o texto, q ele lê lentamente. Mais interessante é q eu ouvia claramente um dos textos como se recortado em versos, mas conversando com Siscar depois, ficou esclarecido q a disposição adotada na página é a do poema em prosa. Siscar me pareceu particularmente interessado nesse efeito q sublinha, também de modo muito interessante para a leitura, o ruído calculado entre forma na página & o sentido da leitura.

Mais do q efeitos de som, ou de performance, os poemas de Siscar, como os de seu parceiro Jan Wagner, são construídos a partir de imagens q saltam das coisas táteis para uma metafísica jamais despregada delas. Wagner tem uma imaginação tão elástica quanto pontual no registro de suas percepções.


Jussara Salazar e Christian Lehnert (foto de Gerald Zörner, "gezett": ww.gezett.de)


Já a poesia de Christian Lehnert é daquele tipo de metafísica calcada no sublime. Nesse sentido, seu parejamento com Jussara Salazar foi produtivo, porque deu um exemplo de contraste ao invés de convergência: enquanto a poesia de Lehnert é daquela metafísica sem coisas, voltada para uma abstração que convida ao silêncio e ao pensamento, ambos de raiz religiosa, Salazar, de raiz semelhante, parte das coisas e chega ― por vezes literalmente ― ao canto.

Aleixo ainda faria uma performance com Ricardo Domeneck, mas os aspectos fundamentais dela já assinalei acima.

Interessante aqui é notar que Domeneck produziu um vídeo-poema engenhosíssimo tirado das Soledades, de Góngora, por ocasião da comemoração dos 450 anos do cordovês (2011) em Córdoba.


Ricardo Domeneck (foto de Gerald Zörner, "gezett": www.gezett.de)


Ele o reapresentou em Berlim, e o mecanismo é de particular interesse: retirando todo seu texto de palavras constantes das Soledades, mas reorganizando-as para seus próprios interesses, conseguiu um texto poderoso que desenha claramente, em sua peculiar combinatória, as “distopias contemporâneas”.

Domeneck ainda mostraria outros trabalhos na mesma noite, mas o impacto da poderosa apresentação das “Entrañas de las Soledades” ainda reverbera na minha mente.

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Questões de tecnologia, poesia & a nossa estranha vida


Timo Berger, eu, Érica Zíngano e Ricardo Aleixo (foto de Gerald Zörner, "gezett": www.gezett.de) 

No breve debate que reuniu a mim, Ricardo Aleixo e Érica Zíngano, mediados pelo poeta e tradutor alemão Timo Berger (astutamente chamado Ótimo Berger pelo meu caro Aleixo), a reportagem presente, creio que da Deutsche Welle, afirmou después que eu era totalmente arredio a tecnologia.

Talvez um neoludista, um exterminador do exterminador do futuro.

Mas a culpa, obviamente, é minha mesma. “Eu e minha grande boca”, como diz o dito.

O fato é que Berger queria saber da relação dos poetas com a vídeo-poesia, und so weiter, & eu não resisto ao aspecto anedótico do q tenho a dizer, o q acaba não resultando muito claro.

O q por outro lado é claramente interessante.

Zíngano & Aleixo, como eu mesmo disse lá, são dois dos melhores nessa arte, no Brasil; não tenho nenhum, mas nem o mais velado parti-pris contra a coisa, sobretudo porque admiro os dois artistas citados, & um bom bando de outros, incluindo Domeneck, q nos ouvia da audiência.

Minha atitude é contra outra coisa, na verdade, e a explicação comporta duas partes.

1)  A “tecnologia” (palavra que passou a designar quase que exclusivamente produtos eletro-eletrônicos) tomou a vida das pessoas de um modo, para mim, claramente excessivo, e de um excesso que não me parece levar ao palácio da sabedoria.

A leitura em papel também traz, materialmente, os aspectos de uma experiência vicária, mas o exagero da leitura já vinha ironizado desde sempre, & de modo memorável em Das Narrenschiff (1494), ou a Nau dos Loucos, poema satírico de Sebastian Brandt, em que o primeiro dos tolos da nau é o dos livros, que está feliz em casa, cercado deles.


O tolo dos livros, na gravura ao poema de Brandt,
com as orelhas de burro cobertas pelo gorro.


É nesse sentido que as pessoas andam nas ruas falando em aparelhos celulares, ou com plugs na orelha, ouvindo coisa pré-gravada, ou jogando jogos, vão aos escritórios para trabalhar no computador, vão para casa para responder e-mail ou entrar nas redes sociais q as solicitam o tempo todo com ninharias, ou ficam diante da tv, ou jogando jogos.

Me parece óbvia a ênfase que a eletrônica tem na vida (por razões de mercado, sobretudo) transformando, em grande parte dos casos, a existência em algo vicário, vivida através de telas ou vozes que não estão no momento naquele lugar. Há um novo lugar na nau dos loucos, acho.

Isso, diria, tem apagado na arte mais recente o traço objetivo da observação direta & focalizada das coisas, capaz de diferenciar matizes de cores, ou texturas, ou associar coisas por esses & outros aspectos específicos que compõem a vida.

Ou, ao contrário, resulta em alguns momentos num hiperrealismo, q é a representação obsessivamente detalhada, incapaz de escolher um foco, perdida na superfície sem contraste das coisas para repetir q o sentido de tudo está confinado ao óbvio uso de um microscópio, ou à invasão não-afetiva, mas vulgarmente exploratória (como um abutre sobre uma carcaça) do espaço privado.

São opostos espelhados, esses. Igualmente preocupantes como esvaziamento da experiência.

2) Minha arte tem sido sobretudo a escrita também para ver até q ponto a sociedade decidiu se livrar dos meios mais, por assim dizer, “tradicionais”, de veiculação de informação estética. E é notável como de fato estamos predispostos a ser fisgados por algo chamativo, visual & auditivo, mas bem menos dispostos à travessia arenosa de um texto, sobretudo se de algum nível de complexidade q o retire da esfera comum das trocas linguísticas do dia-a-dia.

O que, deixo claro, não me impede de me meter a fazer qqer outra coisa, caso me ocorra. E eu sequer poderia bancar o anti-tecnologia (q, aliás, não sou), quando escrevo neste momento no meu notebook, prestes a postar no meu blog. Obviamente, a questão não é essa. A questão é a de uma ética dos limites, a de uma consideração filosófica das nossas opções, & de uma tentação sempre presente em mim de oferecer resistência à massificação de procedimentos q descascam ainda mais uma camada da nossa já duvidosa humanidade.

A minha impressão tem sido: estamos nos entregando a letargias mentais, estamos nos entregando sempre ao menor esforço, à impressão do imediato, sem a capacidade de conceber as coisas de longa duração & efeito, como se a dessensibilização da estética fosse também, e provavelmente sobretudo, uma dessensibilização da vida num imediatismo infantil (& na sua irmã, a repetição do mesmo), de aqui & agora suspendidos num tempo gerúndio, presente eterno, repetitivo.

E não é só o mundo eletrônico q opera isso. O surgimento do jornal, há mais ou menos quatro séculos, teria de ter posto uma questão a nossos antepassados, isto é: o quanto a compressão de informações, para nem dizer o critério de escolha delas, não distorce a nossa imagem mental do mundo com uma imensa desproporção assinalada no pressuposto de fato?

Desproporção verdadeiramente maligna, às vezes. Dirigida, muitas vezes, para o controle. Um exemplo: a coleção da violência mundial, q é minuciosamente levada diante dos nossos olhos pelos jornais diariamente (não dos meus, q parei de ler ou assistir a jornais faz 5 anos). Seria proporcional, considerando q isso cria um efeito psicológico de concentração da violência, puramente falso, incitando ao medo e, do medo, a mais violência?

E o quanto isso é proporcional, considerando q, objetivamente, a vida é composta de uma mistura mais equilibrada & caótica de coisas? E o quanto o medo não serve ao controle, uma vez q, quem teme, obedece? e o quanto a violência não serve ao dinheiro, se sabemos q qqer acidente de rua junta dezenas de pessoas em volta?

A tecnologia, como a chamam, se tornou o mercúrio por onde essas coisas deslizam sem critérios q não sejam o buyer, beware. São as telecomunicações. É a ironia de Andy Warhol, transformada em alegoria monstruosa.

Penso, de um modo resumido: o problema não é alguma inovação tecnológica ― especialmente na tecnologia de comunicação, neste nosso caso ― mas o fato de que há um claro incentivo social para o uso ininterrupto desses aparelhos, e o uso ininterrupto desses aparelhos está nos divorciando da vida, pela nossa falta de atenção à ética do uso.


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Um festival vivo de poesia & uma cidade viva


Berliner Dom, com o rio Spree ao lado (foto de Dirceu Villa)

A organização do festival berlinense é simplesmente exemplar. No topo dela estão Thomas Wohlfahrt e Aurélie Maurin, respectivamente o diretor do PoesieFestival e a responsável pelo projeto Versschmuggel (assistida por Isabel von Holt).

Cheguei & muitos alemães falavam um ótimo português, gentilíssimos, com todas as perguntas q pudesse ter imaginado já previamente calculadas em respostas úteis, fazendo com q me envergonhasse do meu quase inexistente alemão (não exatamente, me valeu uma boa piada quebra-gelo em uma das noites de leitura), q entra agora em processo de reconstrução.

Devo um agradecimento maior do q essas palavras seriam capazes de dizer a Isabel von Holt, Jacqueline Nsiah e Julia Ziesche, pessoas adoráveis, cultas, witty & verdadeiramente gentis, & q nos ciceronearam para todo lado, pacientes & precisas na solução de qqer problema q surgisse, interessadas nos trabalhos (Jacqueline chegou mesmo a participar, a pedido de Aleixo, de uma performance). E zelosas, de modo muito suave, dos horários.

Muitos de nós íamos à Bierhaus mais próxima tomar a Weizenbier após um dia duro no trabalho, ou jantar juntos, & certamente tagarelamos sobre rigorosamente tudo; o q, é claro, ninguém se atreveria a transcrever.

E a cidade de Berlim é bela de um modo muito particular: as cicatrizes da guerra vêm cedendo a uma população multiétnica & a um ambiente propício às idéias.

Na primavera, ainda cinzenta e chuvosa por vezes, ressalta-se o verde perfumado nas aléias, o grande número de pequenos, charmosos cafés, & dos variadíssimos restaurantes em toda parte, com uma ilha de museus no centro que pediria uma viagem inteira para se explorar decentemente.

É um lugar onde se percebe a vibração de inteligência & vontade. É uma atmosfera eletrificada.

E isso, suponho, predispôs os ânimos para o resultado realmente apreciável de algo q não foi apenas o rotineiro apresentar de poetas & textos, mas o gerar, de uma colaboração inusitada & intensiva, momentos notáveis de talento, invenção & ousadia artística.

O trabalho virá, no ano q vem, em uma edição bilíngüe alemão/português (& vice-versa) da editora 7Letras, incluindo um CD de leituras, gravado no estúdio da KulturBräuerei.

Então, por tudo isso, tenho mil motivos para já ter muitas saudades da cidade e de sua gente.